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Smartwatches: especialista aponta como ajudam e quando atrapalham a sua saúde

Segundo profissional, os dispositivos estimulam hábitos saudáveis, mas há riscos para o emocional e de erros na leitura das métricas corporais

7 jul 2026 - 17h40
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Smartwatches se tornaram companheiros de milhões de pessoas na busca por uma vida mais saudável. Eles monitoram o sono, a frequência cardíaca, o gasto calórico e até o nível de recuperação do organismo. Mas será que todos esses dados refletem, de fato, o que acontece com o corpo? Especialistas afirmam que, embora a tecnologia seja uma aliada importante, interpretar os números sem contexto pode levar a conclusões equivocadas e até aumentar a ansiedade.

Smartwatches estimulam hábitos saudáveis, mas há riscos para a saúde mental e de erros na leitura das métricas corporais
Smartwatches estimulam hábitos saudáveis, mas há riscos para a saúde mental e de erros na leitura das métricas corporais
Foto: Karola G/Pexels / Bons Fluidos

Smartwatches ajudam, mas não substitui

Para o profissional de Educação Física e especialista em fisiologia do exercício Jauan Anselmo, as tecnologias representam um avanço importante, desde que sejam utilizados como ferramentas de apoio.

"É evolução extraordinária porque permite acompanhar aspectos que antes só eram avaliados em clínicas ou laboratórios. Porém, os dados não podem ser encarados como sentença. Eles são ferramentas que ajudam a orientar decisões, ajustar protocolos de treino, recuperação e hábitos de vida. O problema começa quando a pessoa passa a acreditar que o relógio conhece mais o próprio corpo do que ela mesma", explica.

Segundo ele, a interpretação dos dados sempre precisa considerar fatores como rotina, alimentação, idade, histórico de saúde e percepção do próprio usuário. Isso porque, do contrário, pode acarretar enganos que prejudicam a saúde.

O que é a variabilidade da frequência cardíaca?

Entre as métricas que ganharam espaço nos últimos anos está a Variabilidade da Frequência Cardíaca (VFC), conhecida internacionalmente como Heart Rate Variability (HRV). Ela mede as pequenas variações entre um batimento cardíaco e outro e pode indicar como o organismo está respondendo ao estresse, à recuperação física, ao sono e aos treinos.

Segundo Jauan, quando analisada corretamente, essa informação ajuda a ajustar a intensidade dos exercícios e identificar sinais de sobrecarga. "VFC indica sintomas de fadiga acumulada, excesso de treinamento, estresse psicológico e até alterações relacionadas ao sono. Mas ela nunca deve ser interpretada de forma isolada. É necessário observar o contexto, o histórico do indivíduo e outros marcadores para tomar decisões seguras", ressalta.

Números e ansiedade

Ao mesmo tempo em que oferecem mais informações, os wearables também podem estimular uma preocupação excessiva com os próprios indicadores.Esse comportamento ficou conhecido como ortossonia, termo descrito em um estudo publicado em 2017 no Journal of Clinical Sleep Medicine. A condição se refere à obsessão por alcançar métricas consideradas perfeitas de sono, mesmo quando a pessoa não apresenta nenhum problema clínico.

Pesquisas mais recentes também apontam que usuários frequentes desses dispositivos podem desenvolver ansiedade ao acompanhar constantemente indicadores de recuperação, estresse e qualidade do sono. Segundo Jauan, esse comportamento já aparece com frequência entre seus alunos.

"Vejo pessoas acordando e a primeira coisa que fazem é consultar a nota do sono. Se o número aparecer abaixo do esperado, elas já acreditam que terão um dia ruim, mesmo se estiverem se sentindo bem. Isso gera uma dependência psicológica da métrica. O dado deve servir para orientar, não para controlar emocionalmente a pessoa", afirma.

Smartwatches e hábitos saudáveis

Apesar dos cuidados, os especialistas destacam que os wearables também trazem benefícios importantes. Pesquisas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) mostram que metas diárias, lembretes e notificações podem aumentar a motivação para praticar atividade física, principalmente entre pessoas sedentárias.

Na avaliação de Jauan, esse incentivo pode ser o primeiro passo para mudanças mais duradouras. "O relógio avisando para levantar, caminhar ou completar uma meta diária pode funcionar como um gatilho positivo. O desafio é transformar essa motivação externa em motivação interna, fazendo com que a pessoa passe a se exercitar porque entende os benefícios e sente prazer na prática, e não apenas porque um dispositivo mandou", destaca.

O papel do profissional

Mesmo com dispositivos cada vez mais sofisticados, a interpretação dos dados continua dependendo da avaliação humana. Isso porque mesmo indicador pode ter significados completamente diferentes de acordo com a realidade de cada pessoa.

"Hoje temos acesso a uma quantidade gigantesca de dados e o que realmente faz diferença é saber analisá-los. Um mesmo número pode significar coisas completamente diferentes dependendo da rotina, da idade, do nível de treinamento, da alimentação e até do momento emocional da pessoa. O olhar técnico e individualizado segue sendo insubstituível", conclui Anselmo.

Em vez de substituir médicos e profissionais da saúde, os especialistas defendem o uso dos smartwatches como aliados. Quando o usuário adota o equilíbrio e a interpretação adequada, esses dispositivos contribuem diretamente para a mudança de hábitos e uma melhor qualidade de vida.

Bons Fluidos
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