Whey, tênis caro e remédios: o que é mito na hora de treinar
Mito ou verdade no treino? Entenda o papel de alguns itens e o que realmente faz diferença na performance.
No universo fitness, não faltam frases prontas e muito mito disfarçado de verdade absoluta. Whey "obrigatório" para ganhar músculo, tênis caro visto como proteção garantida e remédio para dor usado como se fosse parte do pré-treino.
Nas redes sociais, essas ideias ganham força e começam a ser tratadas como regra. Só que, quando o assunto é saúde, performance e prevenção de lesões, informação errada pode sair caro.
Com base nas explicações do ortopedista e traumatologista do esporte Dr. Bruno Canizares, Sport Life organiza os principais mitos em torno de whey, tênis e medicamentos e mostra o que realmente faz diferença na hora de treinar com segurança.
Dor pós-treino: mito de que "só vale se doer"
Uma das crenças mais comuns é associar dor forte no dia seguinte a treino bem feito. Como se o desconforto fosse o único indicador de resultado.
Segundo o Dr. Bruno, existe um tipo de dor esperada, ligada ao aumento de carga ou mudança de estímulo. Mas isso não significa que toda dor seja bem-vinda ou que precise ser intensa para o treino "funcionar".
Ele lembra que a dor muscular tardia, aquela que aparece um dia depois, até pode sinalizar adaptação do corpo. Porém, quando a dor surge durante o exercício ou se mantém por dias, o cenário muda.
Quando o desconforto é normal — e quando vira alerta
O desconforto leve, difuso, em ambos os lados do corpo, após mudar o treino, costuma ser transitório. Em geral, melhora em 24 a 72 horas, com descanso, hidratação e recuperação adequada.
Já a dor que aparece na hora do movimento, é pontual, muito localizada ou piora com qualquer esforço merece atenção. Se ela persiste além de dois ou três dias, é sinal de que algo pode estar errado.
O médico alerta que insistir no treino com esse tipo de dor é um mito perigoso. Transformar um incômodo simples em lesão séria é mais fácil do que parece quando o corpo não é ouvido.
Tênis caro, esteira e rua: mito da proteção garantida
Outra ideia muito difundida é a de que um tênis caro, cheio de tecnologia, resolve sozinho o risco de lesão. Na prática, a história é bem diferente.
Para o Dr. Bruno, não existe um calçado perfeito para todo mundo. "O tênis precisa respeitar a biomecânica da pessoa. Cada corpo tem um tipo de pisada, padrão de movimento e necessidades próprias", explica, em entrevista.
Ou seja: preço alto não é sinônimo de proteção. Um modelo caro, mas inadequado ao seu pé e à sua forma de correr, pode até aumentar o desconforto.
Esteira machuca menos que rua? Nem sempre
Correr na esteira é frequentemente visto como opção "mais segura" do que correr na rua. O especialista lembra que os estudos mostram algo diferente: a taxa de lesão é semelhante entre quem corre em esteira e quem corre ao ar livre.
A esteira oferece amortecimento constante e ritmo controlado, o que facilita o ajuste de intensidade. Já a rua exige mais adaptação do corpo a terrenos variados, subidas, descidas e mudanças de direção.
"O risco não está no local, mas no volume de treino, na progressão e na técnica", reforça o médico. Ou seja, outro mito cai por terra: não é o piso sozinho que determina a lesão, mas o conjunto da obra.
O que realmente protege contra lesões
Se tênis caro e escolha de piso não são garantia, o que ajuda de fato a reduzir o risco de se machucar?
O Dr. Bruno destaca três pilares: progressão gradual, técnica adequada e fortalecimento muscular. Aumentar volume e intensidade aos poucos permite que músculos, articulações e tendões se adaptem.
Trabalhar força, mobilidade e equilíbrio fora da corrida, com treino complementar, também é decisivo. E, se possível, contar com orientação profissional para ajustar postura, cadência e padrão de movimento. Tudo isso vale mais do que qualquer rótulo de "supertenis".
Whey, remédios e outro mito comum na suplementação
Na prateleira da academia, o whey protein ganhou fama de obrigatório. Muita gente acredita que, sem ele, o treino "não compensa". Mas essa visão também é exagerada.
O suplemento pode, sim, ser útil. "O whey é uma forma prática de aumentar a ingestão de proteína, que é importante para a recuperação muscular", explica Bruno. Porém, ele ressalta que nem todo mundo precisa dessa ajuda extra.
Quem já consegue bater a meta de proteínas com alimentação equilibrada, ao longo do dia, muitas vezes não tem necessidade real de suplementar. A escolha deve considerar rotina, objetivos e, de preferência, orientação de nutricionista ou médico.
Anti-inflamatório depois do treino: solução ou armadilha?
Outro ponto delicado é o uso de anti-inflamatórios após o treino. Há quem tome o medicamento com frequência para "aguentar a dor" e seguir treinando, como se fosse parte do kit fitness.
O especialista explica que o uso pontual, quando indicado, não costuma atrapalhar o ganho muscular. O problema está na automedicação e no uso repetido para mascarar dores que voltam sempre.
"Se a dor não melhora ou retorna com facilidade, é sinal de que algo está errado. Lesões como entorses, distensões e tendinites precisam de diagnóstico e acompanhamento", alerta. Nesse caso, o mito é achar que remédio substitui avaliação.
Mito não treina por você: faça escolhas mais conscientes
O conjunto de crenças em torno de whey, tênis, dor e remédios revela um padrão: a busca por atalhos. Como se um produto, um acessório ou uma frase de efeito resolvesse sozinho a equação do treino.
Na visão do Dr. Bruno Canizares, a informação correta é uma das principais aliadas da saúde esportiva. "Treinar bem não é treinar com dor constante nem buscar soluções rápidas. É entender os sinais do corpo, respeitar limites e fazer escolhas mais conscientes", afirma.
Isso vale tanto para quem está chegando agora quanto para quem já tem experiência. Revisar alguns hábitos, questionar velhos conselhos e abandonar um ou outro mito pode ser o passo que faltava para evoluir com menos lesão e mais constância.