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Vivendo com dois corações: hospital brasileiro realiza transplante inédito no mundo

InCor, em São Paulo, foi o responsável por adotar procedimento cardíaco sem precedentes. Segundo médico, a cirurgia foi um sucesso

23 nov 2021 15h06
| atualizado em 27/11/2021 às 12h06
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Cirurgia pode reverter quadros que, antes, não tinham tratamento específico
Cirurgia pode reverter quadros que, antes, não tinham tratamento específico
Foto: Shutterstock / Saúde em Dia

O InCor (Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da FMUSP), realizou recentemente uma cirurgia inédita no mundo. Trata-se da inclusão de um coração sadio no organismo do paciente. Mas, diferente dos transplantes convencionais, o indivíduo precisou viver alguns meses com dois corações, até que o órgão doente pudesse ser definitivamente retirado.

O professor universitário Lincon Paiva, de 55 anos, foi vítima de um infarto em fevereiro de 2020 e enfrentava um tratamento cardíaco para recuperar o bom funcionamento do coração. No entanto, a pandemia impediu que o processo fosse concluído e acabou agravando o seu quadro.

Quando Lincon retomou os cuidados, o médico o alertou sobre uma insuficiência cardíaca congestiva (ICC) grave nível 3, em uma escala em que a 4ª posição é considerada terminal. Nesse momento, cresciam as chances de o professor precisar da realização de um transplante convencional de coração.

Com o tempo, o problema tornou-se mais complexo e Lincon precisou ser internado no InCor, para a realização do transplante. No entanto, após o resultado de alguns exames, foi diagnosticada uma hipertensão pulmonar no professor. Fator de risco, que impediu os médicos de seguirem com o transplante convencional - até então, única maneira de salvar a vida de Lincon.

Cirurgia inovadora 

Em casos assim, no passado, as únicas alternativas eram os cuidados paliativos, que garantem apenas uma sobrevida ao paciente e não resolvem o problema. Foi aí que o cirurgião cardiovascular, Dr. Fábio Gaiotto, propôs a realização de uma técnica inovadora, nunca antes utilizada no mundo: o Transplante Heterotopico.

O processo consiste na inclusão de um novo e saudável coração no organismo, mas, sem a retirada imediata do coração doente. Tudo isso para que o corpo consiga se adaptar ao novo órgão e, dessa maneira, evitar que a hipertensão pulmonar cause a morte do paciente.

"O que fizemos foi desenvolver uma variante técnica dessa cirurgia, de maneira que, num primeiro momento, o coração doado seja usado como terapia para a hipertensão pulmonar e, ao final, substitua o coração doente", diz o Dr. Fábio Gaiotto, cirurgião cardiovascular que criou a técnica.

"Você vai progredindo (após a cirurgia) e vai entendendo, até que percebe que está com dois corações mesmo. A primeira vez que eu vi o ecocardiograma, vi os dois corações batendo. Aquilo era muito impressionante não só para mim, mas para a maioria dos médicos, enfermeiros e equipe de exames laboratoriais", revelou Lincon.

Após a inclusão do novo coração em seu organismo, o professor precisou aguardar alguns meses, até que os níveis de hipertensão pulmonar fossem normalizados. Felizmente, Lincon reagiu bem ao processo e pôde realizar a segunda cirurgia. Dessa vez, para a remoção do coração doente.

Foto: Divulgação InCor
Foto: Divulgação InCor
Foto: Saúde em Dia

O paciente já recebeu alta dos médicos e, desde o dia 5 de novembro, se recupera em casa. Agora, com um coração saudável e sem problemas pulmonares. "Estou muito feliz de poder voltar para minha vida normal e, daqui para frente, é poder recuperar e retomar minha vida", disse.

A inclusão de um segundo coração no organismo de pacientes com problemas cardíacos é algo que já aconteceu na medicina. No entanto, o resultado à longo prazo não se demonstrou positivo para os indivíduos que se submeteram a esse tipo de cirurgia. De acordo com a equipe médica do InCor, o corpo humano funciona corretamente apenas com um coração. Por isso, foi necessário retirar o órgão doente após a recuperação da hipertensão pulmonar de Lincon.

"O Lincon teve a confiança de ser o primeiro a participar dessa cirurgia, e seu quadro evoluiu tão bem que pudemos dar alta para ele, com a expectativa de que a sua recuperação o leve a retomar aos poucos suas atividades físicas, sociais e de trabalho", diz o Dr. Gaiotto.

"Dentro desse novo protocolo de cirurgia, eu sabia que eu poderia ajudar outras pessoas nas mesmas condições que eu. Então isso pesou muito na minha decisão", relembra Lincon.

Saúde em Dia
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