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'Tive pacientes que me chamaram de criminoso', diz Uip

Em entrevista sobre o balanço de um ano de pandemia no País, infectologista detalha consequências dos ataques que sofreu no início da pandemia e diz processar atendente de farmácia que divulgou indevidamente receita de sua clínica

24 fev 2021 02h26
| atualizado às 08h51
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SÃO PAULO - Um dos principais infectologistas do País, conhecido por tratar celebridades e políticos e por atuar no combate de epidemias há decadas, David Uip enfrentou um desafio diferente na pandemia de covid-19. Membro do centro de contingência contra o coronavírusdo governo de São Paulo, o especialista e sua família foram alvos de ataques raivosos nas redes sociais e em sua clínica por causa da polêmica em torno de um possível tratamento do médico com hidroxicloroquina quando ele teve o diagnóstico da doença, no início da pandemia.

David Uip, que chefia o Centro de Contingência contra a Covid-19 criado pelo Estado, volta ao trabalho após contrair a covid-19
David Uip, que chefia o Centro de Contingência contra a Covid-19 criado pelo Estado, volta ao trabalho após contrair a covid-19
Foto: Fracisco Cepeda / Estadão Conteúdo

Em entrevista concedida nesta segunda-feira, 22, ao Estadão sobre o balanço de um ano da pandemia no País, Uip detalha as consequências da perseguição que sofreu e revela diz até ter sido chamado de criminoso por pacientes que o conheciam há anos. "Eu tive pacientes antigos que ligaram para o consultório e me chamaram de criminoso por eu 'não querer que as pessoas se curassem como eu me curei'. Foi algo muito pesado para a minha esposa, filhos e netos. Todo mundo que tem sobrenome Uip sofreu demais."

O especialista conta que, mesmo com décadas de atuação e experiência em epidemias como as de Aids, febre amarela e H1N1, nunca imaginou passar por isso. "Eu fui totalmente surpreendido com essa história em paralelo. Eu já era um indivíduo que combatia as fake news há anos. Tem reportagens minhas falando que fake news em saúde são uma desumanidade, mas o que aconteceu dessa vez superou qualquer das piores expectativas. Nem de perto eu esperei algo parecido."

Ele afirma que a divulgação de desinformação foi um dos principais entraves para o combate à pandemia no País e diz estar preocupado com os próximos meses, com aumento de aglomerações e circulação de novas cepas. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

No início da pandemia e considerando sua experiência como infectologista em outras epidemias, você esperava que o Brasil teria um cenário tão catastrófico?

Se você lembrar, no início da pandemia, vazou um vídeo de uma aula que eu fui dar no Incor (Instituto do Coração). Naquele vídeo, eu criava cenários, de 1% a 10% de contaminação (no Estado de SP), justamente pra tentar estimar o que seria preciso fazer especialmente na questão do número de leitos. Até então, ninguém tinha ideia da dimensão naquele momento. Acho que começamos a ter dimensão quando foram divulgados os casos da Europa. Até então, os casos da China estavam muito localizados. A história tomou vulto com a divulgação da situação da Itália, da França, Espanha, Alemanha e percebeu-se que o problema tinha uma dimensão maior do que se imaginava. Mas de qualquer forma, quando você cria cenários, é uma forma de o gestor se preparar de diversas formas. O que importava eram as contas de que 80% iam ser indivíduos assintomáticos ou com poucos sintomas; 20%, sintomáticos precisando de alguma atenção médica; e 5% precisariam de UTI. O Estado de São Paulo, naquele momento, tinha 7 mil leitos de UTI: 3.500 de adultos e 3.500 de crianças. A primeira hipótese era transformar os leitos de crianças em leitos de adultos, o que não foi possível porque a estrutura é totalmente diferente e porque não se sabia como seriam as infecções de crianças e as outras infecções habituais. Então, de forma acertada, não se mexeu nos leitos infantis. Tivemos que aumentar os leitos de UTI, que chegaram a praticamente 10 mil. Então, esses cenários foram importantes para criar situações que embasaram decisões de governo. A pandemia é um aprendizado por dia, uma surpresa por hora.

Em que momento o Brasil perdeu o controle da pandemia?

Eu acompanhei o governo federal e ajudei em tudo que eu pude enquanto o Mandetta foi ministro. Quando o Nelson Teich passou a ser ministro, passei a colaborar e ajudar o Nelson, com quem eu mantenho uma ótima relação. Depois, eu me afastei totalmente do governo federal, não tive nenhuma participação e não tenho nenhuma observação a fazer. Não falo sobre o governo federal, não falo sobre o Ministério da Saúde.

Você teve uma situação pessoal delicada, que foi a contaminação pela covid e a exposição de que você supostamente teria usado hidroxicloroquina (o que gerou ataques de seguidores do presidente Jair Bolsonaro). Isso te fez, de alguma forma, querer ficar mais longe dessas questões de análise das políticas da pandemia?

Na verdade, eu só não voltei a coordenar o centro de contingência, mas eu continuo participando normalmente, nunca deixei de participar. Agora, aquilo que me aconteceu foi algo que não só me envolveu, mas foi uma crueldade com a minha família em cima de algo que nunca teve o menor nexo. Ao não divulgar o tratamento naquele momento, fiz algo que a ética recomendava. Se eu divulgasse que eu tomei qualquer medicamento, as pessoas iam sair comprando, tomando sem nenhum critério de controle. Se eu falasse que eu não tomei, era desesperança. Então, eu agi dentro de critérios éticos. Eticamente, você não pode ficar divulgando qualquer resultado de droga off label (uso de um remédio para condição diferente da prevista na bula). Naquele momento, não se sabia o valor positivo ou negativo de vários medicamentos, diferentemente de hoje. Então, eu acho que a minha postura foi totalmente ética. Jamais revelei tratamentos de pacientes e entendi que minha privacidade foi invadida, com consequências. Hoje, eu processo a pessoa que invadiu a minha privacidade divulgando uma receita que não tinha nada a ver comigo. Aquela receita, se você olhar a data, é de 5 de março. E eu tive o diagnóstico no dia 23 de março. Quando nós começamos a ver o tamanho da pandemia, aqui na clínica nós resolvemos comprar diversos medicamentos: antibióticos, anti-inflamatórios, antitérmicos, inclusive a cloroquina. É só ver a data e o número de comprimidos. Então, tudo aquilo que aconteceu nunca teve nenhum sentido. Foi algo muito pesado para a minha esposa, filhos e netos. Todo mundo que tem sobrenome Uip sofreu demais.

Eram ataques nas redes sociais? Quais eram os argumentos?

Eu tive pacientes antigos que ligaram para o consultório e me chamaram de criminoso por eu 'não querer que as pessoas se curassem como eu me curei'. Você conversa com as secretárias daqui, você não tem ideia do que aconteceu. Eu, criminoso? O que eu fiz de errado?

A hipótese dessas pessoas é que você tinha usado o remédio e não queria divulgar para que outras pessoas tivessem o mesmo direito?

Pois é, e foi exatamente o contrário, eu me preocupei com a população. Me preocupei com a possibilidade de as pessoas se automedicarem sem controle. Continuo achando que eu estava absolutamente correto.

E que tipos de ataques fizeram contra a sua família?

As redes sociais viraram uma loucura. Inclusive eu chamei os Uips e pedi para que ninguém se manifestasse, porque não adiantava. E o volume ia aumentando de uma forma que você não tem controle. Eu tenho um neto de 12 anos que tem acesso à internet. Calcula o impacto para ele. O jornalismo oficial e responsável me ajudou muito esclarecendo, mas nas redes sociais ninguém tem controle, para o bem e para o mal. E foram cruéis. Uma coisa é eu ser atacado, primeiro que eu não acho justo. Outra coisa é atacarem minha família. Isso é inadmissível. E mais: o que fiz de errado? Eu não tinha cargo, não tinha pretensão política e nunca fui remunerado, era um trabalho voluntário, que eu via como missão, por conta da minha história. Nunca vi sentido nesses ataques.

E vocês descobriram quem vazou aquela receita?

Descobrimos. Quando a receita vazou, os meus pacientes da minha clínica ficaram muito inseguros. Isso aqui é uma clínica complicada, tem muitos pacientes com doenças complexas, doenças que as pessoas querem privacidade. Quando vazou, houve um sentimento de quebra de sigilo da clínica, e não foi. A quebra de sigilo foi na farmácia, isso está identificado, processado e correndo na Justiça. O responsável vai responder por isso. Quem vazou foi a farmácia. Isso é importante esclarecer porque nós temos o maior cuidado em preservar todos os dados da clínica. Eu tenho consultório desde 1978, nunca vazou dado. Somos rigorosos quanto ao sigilo. Essa foi a outra consequência dessa história. E mais: naquela receita, estava o meu endereço residencial, todo mundo soube onde eu morava.

Você esperava ter que lidar com isso em meio a tantas outras preocupações médicas sobre a pandemia? Já tinha passado por isso?

Eu fui totalmente surpreendido com essa história em paralelo. Eu já era um indivíduo que combatia as fake news há anos. Tem reportagens minhas falando que fake news em saúde são uma desumanidade, mas o que aconteceu dessa vez superou qualquer das piores expectativas. Nem de perto eu esperei algo parecido.

Você chegou a ter pacientes que deixaram a clínica?

É uma coisa curiosa. Quando isso apertou, eu chamei meus filhos e falei: se tem uma coisa que vai prevalecer é a verdade. A verdade vai surgir. Para você ter ideia, eu tive paciente que me atacou e disse que nunca mais voltaria no meu consultório. Depois de dias, a pessoa teve covid e me chamou para acompanhar.

E você aceitou?

Claro, eu sou profissional. Não misturo as coisas. Pena que as pessoas misturaram. Mas eu, não. Acho que hoje todo mundo entendeu o que aconteceu, especialmente porque tentaram politizar a minha vida achando que eu estava usando daquela minha posição objetivando cargos ou eleições. Todo mundo percebeu que não tinha nada a ver, como nunca teve. Eu nunca tive pretensão política.

Para além do seu caso, o quanto você acha que a disseminação de fake news ou de informações distorcidas atrapalhou o combate à pandemia?

Eu ouvi coisas inacreditáveis de uma porção de médicos. Uns defendendo tratamentos não provados, outros dizendo que era uma doença sem consequências, que teríamos poucos casos no Brasil. Teve um que falou que teríamos só 3 mil casos no Brasil. Coisas que você se pergunta de onde saiu. Isso eu vi demais, de uma forma totalmente inconsequente e irresponsável e atrapalhou, sim, atrapalhou muito. Ainda hoje as pessoas duvidam da gravidade. Uma paciente minha de anos veio aqui na semana passada e falou: "Você está exagerando, não é tudo isso que você diz. Eu não tenho nenhum amigo que foi internado grave. Isso é coisa que vocês inventaram". Tenho outra paciente que está tranquila porque está tomando ivermectina semanalmente e que acha que não vai pegar. Não consigo entender.

Hoje, um ano depois, o que temos, de fato, comprovado sobre tratamento contra a covid?

Nós não temos o tratamento etiológico (que ataca a causa da doença). O que nós fazemos é suporte de vida. Isso melhorou muito porque as equipes multiprofissionais estão muito mais treinadas. Hoje nós sabemos como lidar com doente grave. Para isso, precisa de equipes multiprofissionais treinadas e protocoladas e hospitais bem equipados. Isso faz diferença. Estamos chegando em limites como o uso do ECMO (membrana extracorpórea que funciona como um pulmão artificial), que é uma coisa que já existia, mas não para essa indicação de insuficiência respiratória aguda, e está ajudando a salvar muitos pacientes. Anticoagulação está muito melhor estudada. A hierarquização do suporte respiratório também. Tudo isso evoluiu, e muitos pacientes graves estão saindo vivos. Agora, o que falta é um remédio antiviral, faltam anticorpos monoclonais e que você consiga universalizar a vacina.

Na sua visão, de que forma as novas cepas vão impactar a pandemia?

Precisamos ser muito cuidadosos e, ao mesmo tempo, temos urgência nas respostas. Cuidadosos em responsabilizar essas alterações genômicas como mais infectantes, mais mórbidas e mais letais. O que está provado até hoje é que a cepa da Inglaterra é mais infectante, o resto nós precisamos provar. Nós temos urgência em provar. Não só a infectividade, morbidade e letalidade, mas como se comportam as vacinas Coronavac e a da AstraZeneca contra esse novo perfil de mutação.Uma coisa que me preocupa é que, em paralelo, isso coincide com momentos de maiores aglomerações.

E qual deve ser a prioridade nesse momento?

Vacinar, vacinar e vacinar.

Mas com a limitação de doses, não teremos vacinas para todo mundo num curto período de tempo...

Acredito que a falta de vacina é sazonal. Daqui a pouco nós teremos várias vacinas e múltiplas vacinas. Mas é um momento complicadíssimo porque estamos ainda sem conseguir vacinar um maior número de pessoas e aumentando o número de casos. Esses próximos meses serão complexos.

Nesse cenário, acredita que há risco de colapso mesmo em sistemas mais estruturados, como São Paulo?

Eu acho que São Paulo sustentou essa história até hoje. Foi pressionado, mas sustentou. Agora, temos desafios pela frente, e não são poucos. Tem que ver o índice de ocupação de UTIs, tem que ver o número de infectados por 100 mil habitantes, são novos desafios que têm que ser enfrentados imediatamente. O centro de contingência tem como atribuição, de forma científica e prática, assessorar o secretário e o governo. E é isso que o centro tem feito todas as semanas. Amanhã (Hoje), vamos ter uma reunião que trata de todos esses assuntos. Agora, o centro é um órgão assessor de governo, mas sempre a decisão final é do governo.

A quarentena, no nível que temos hoje, está adequada ou terá que ficar mais rígida?

Seguramente terá que ser alterada.

Após um ano, o que mais te preocupa em relação a esses próximos meses de pandemia e como ela se diferencia de outras situações de emergência em saúde pública que você viveu?

As pessoas estão cansadas, as pessoas precisam trabalhar, agora o que eu não entendo são as atitudes inconsequentes: festas, aglomerações, irresponsabilidades. Isso eu não entendo e acho que não há precedente. Nas crises anteriores, você tinha situações diferentes. Agora, você precisa de um envolvimento de toda a sociedade, e de uma vez. Isso, para mim, é inusitado.

E o que fica de maior aprendizado?

Para mim, na pandemia você aprende todo dia e você tem que ter a competência e a humildade de mudar de opinião. Você pensa de um jeito e, de repente, você se depara com uma situação que você não previa e você tem que se posicionar de outra forma. Pandemia é isso, um aprendizado por dia e você tem que ter muita humildade e senso crítico para ir aprendendo e mudando.

Estadão
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