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Risco de morte por pneumonia varia de acordo com o CEP para crianças e adolescentes na cidade de São Paulo

Pesquisa mostra que distritos administrativos mais vulneráveis da cidade de São Paulo concentram maior mortalidade

25 ago 2026 - 10h55
(atualizado em 26/8/2026 às 14h29)
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Resumo
Estudo do Instituto Pensi (2010-2020) revela que a mortalidade por pneumonia em crianças e jovens em São Paulo varia com o CEP e a desigualdade social. Distritos mais vulneráveis tiveram risco de morte 74,7% maior, enquanto áreas nobres registraram queda de 45%. Vias de trânsito rápido também elevaram o risco em 12%. O levantamento reforça a urgência de integrar saúde pública, habitação e planejamento urbano para proteger populações vulneráveis, apesar da queda geral de casos no período.

O risco de morte por pneumonia entre crianças e adolescentes está associado às desigualdades socioeconômicas e às condições urbanas dos diferentes distritos administrativos da cidade de São Paulo. A afirmação é sustentada por um estudo recente realizado por pesquisadores dos Núcleos de Geoprocessamento e Ciências de Dados e de Doenças Respiratórias do Instituto Pensi, frente de Pesquisa e Ensino da Fundação José Luiz Setúbal.

A pesquisa analisou dados de 2010 a 2020 e constatou que áreas com piores indicadores socioeconômicos apresentaram maior mortalidade pela doença. Isso reforça a importância de políticas públicas que integrem saúde, planejamento urbano e redução das desigualdades sociais. O estudo foi ecológico, ou seja, analisou informações populacionais e territoriais, e não dados individuais. Por isso, os dados obtidos não permitem estabelecer relações de causa e efeito entre características individuais e o risco de adoecer ou morrer.

Embora existam vacinas eficazes e avanços no tratamento, a pneumonia permanece entre as principais causas de morte de crianças em todo o mundo. No Brasil, as internações infantis por pneumonia diminuíram nas últimas décadas, mas a doença representa uma carga importante para o sistema de saúde. Compreender onde esses casos ocorrem e quais fatores territoriais estão associados às internações e mortes pode ajudar os gestores públicos a direcionar melhor as ações de prevenção.

Foi a partir dessa perspectiva que o estudo buscou investigar se as condições do local onde crianças e adolescentes vivem estão associadas ao risco de hospitalização ou morte por pneumonia. Para responder a essa questão, foram avaliados todos os 96 distritos administrativos da capital paulista. Os pesquisadores compararam as mortes e internações por pneumonia com as condições de vida de cada região, como renda, moradia, saneamento e características urbanas.

Onde a criança mora faz diferença para o risco de morrer

O estudo avaliou registros de óbitos e internações hospitalares por pneumonia, condições socioeconômicas dos distritos — medidas pelo índice GeoSES —, padrão das moradias e infraestrutura urbana, incluindo a presença de vias de trânsito. Também analisou a localização espacial dos casos por meio de ferramentas geográficas.

Além das análises estatísticas convencionais, foram utilizados métodos de identificação de agrupamentos espaciais capazes de identificar áreas com maior risco e verificar como esse risco varia ao longo da cidade.

Durante o período estudado, os pesquisadores registraram 1.486 mortes por pneumonia em crianças e adolescentes de até 19 anos e 156.112 internações hospitalares pela doença. Em ambos os desfechos, os meninos representaram pouco mais da metade dos casos.

Outro resultado importante foi a tendência de redução das mortes e das internações ao longo dos anos estudados. Em 2020, houve uma queda acentuada nos registros. O estudo não investigou as razões específicas dessa redução, mas pesquisas sugerem que, nesse período, as internações por infecções respiratórias diminuíram por influência da adoção das medidas sanitárias contra a Covid-19.

O principal achado da pesquisa foi que as mortes por pneumonia não ocorreram de forma homogênea pela cidade. Distritos com piores indicadores socioeconômicos apresentaram maior mortalidade pela doença. Nesses locais, o risco relativo de morte por pneumonia foi 74,74% maior. Em contraste, nas regiões com maior proporção de moradias de médio e alto padrão, foi 45,09% menor, evidenciando a desigualdade territorial na mortalidade pela doença.

Os pesquisadores identificaram também uma associação entre a maior mortalidade e distritos com maior extensão de vias de trânsito rápido, um resultado que pode refletir diferentes fatores urbanos e ambientais. Distritos com essa característica apresentaram risco relativo de morte por pneumonia 12,07% maior. Diversos estudos apontam relações entre doenças respiratórias na infância, emissões veiculares e poluentes como material particulado e ozônio. No entanto, o levantamento não permite afirmar que a presença dessas vias ou outros fatores associados a elas causem diretamente o aumento das mortes.

A influência do território na saúde

Os resultados reforçam um conceito cada vez mais discutido na saúde pública: o local onde uma criança vive pode estar associado às suas oportunidades de prevenção e de acesso ao diagnóstico e ao tratamento.

Ao utilizar ferramentas de análise espacial, o estudo mostrou que fatores como desigualdade social, qualidade da habitação e características da infraestrutura urbana estão associados à distribuição da mortalidade por pneumonia na cidade. Essas informações podem auxiliar gestores públicos a identificar áreas prioritárias para investimentos em atenção primária, vacinação, melhoria das condições habitacionais e planejamento urbano.

A análise por distrito administrativo mostrou que as mortes e internações por pneumonia variam de acordo com as características dos territórios. Como o estudo reuniu informações sobre o conjunto da população de cada distrito, não foi possível avaliar fatores individuais, como condições clínicas, estado nutricional ou vacinação. Os resultados, portanto, identificam diferenças entre regiões da cidade, mas não permitem afirmar que determinada criança ou adolescente adoeceu ou morreu em razão do lugar onde vivia. Essa é uma limitação própria dos estudos ecológicos.

Principais indicadores encontrados pelo estudo

Indicador Resultado
Período analisado 2010-2020
Distritos estudados 96
População analisada Crianças e adolescentes (0-19 anos)
Mortes por pneumonia 1.486
Internações por pneumonia 156.112
Mortalidade em meninos 54,7%
Internações em meninos 53,4%
Taxa média anual de mortalidade 4,2 por 100 mil habitantes
Taxa média anual de internação 446,4 por 100 mil habitantes

A pesquisa permite afirmar que a mortalidade por pneumonia entre crianças e adolescentes está associada às condições em que vivem e não apenas a fatores relacionados à saúde.

Melhorias na qualidade da habitação, redução das desigualdades sociais e planejamento urbano podem contribuir para diminuir o impacto da doença nas populações mais vulneráveis. O estudo também demonstra como análises geográficas podem ajudar a identificar territórios que necessitam de maior atenção por parte das políticas públicas.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

William Cabral de Miranda já recebeu financiamento do CNPq para desenvolvimento de pesquisa científica.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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