Proporção de médicos no Brasil é parecida com a de países mais ricos? Veja cálculo atualizado
Novo levantamento avalia a oferta e também a distribuição de médicos e especialistas em território nacional
A Associação Médica Brasileira (AMB) e a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) atualizaram o estudo Demografia Médica no Brasil após a divulgação de novos dados populacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Como o recenseamento contabilizou 10 milhões de pessoas a menos em relação às estimativas anteriores, os pesquisadores concluíram que, atualmente, o Brasil tem 2,69 médicos para 1 mil habitantes, ao invés de 2,56, como aparecia no documento divulgado em fevereiro.
Com a taxa, o Brasil se equipara a países populosos como Estados Unidos e Japão, e se aproxima de nações como Canadá e Reino Unido, com sistema públicos de referência para o Sistema Único de Saúde (SUS). Apesar do importante avanço no número de médicos - que dobrou nas últimas décadas -, a desigualdade na distribuição desses profissionais entre regiões e cidades de interior e capitais continua a ser um problema.
O novo boletim também traz um raio-x inédito da distribuição de médicos especialistas no Brasil: o índice é de 1,58 para cada 1 mil habitantes. A percepção é de que o aumento no número de formados em Medicina não tem sido acompanhado pela abertura de vagas de residência e, com isso, os pesquisadores alertam que o contingente de médicos especializados pode ser insuficiente.
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Essa realidade tem um impacto direto em um problema agravado pela pandemia, que é a fila de espera por atendimento e tratamento especializado no SUS. "Hoje, mesmo com adoção de política de incentivo financeiro (Programa Nacional de Redução das Filas), os gestores estão com dificuldade de contratar especialistas para os procedimentos médicos que são responsáveis pela grande fila de espera do SUS", diz Scheffer.
"E essa escassez poderá aumentar se políticas de expansão (nas especialidades) não forem tomadas", fala o professor. "A população brasileira está envelhecendo, e (com isso) temos um aumento das doenças crônicas, como câncer, diabetes, hipertensão e obesidade. Isso indica que teremos maior demanda de médicos especialistas."
Ao contrário do número de alunos na graduação de Medicina que tiveram um incremento quase "explosivo" nos últimos anos, o total de residentes mantém-se na casa dos 40 mil desde 2018. O número até cresceu, mas nem perto do que se vê em relação aos graduandos.
Mais 1 milhão de médicos até 2035
Conforme já havia mostrado o Estadão, o volume de novos médicos passou a ter aumento expressivo a partir de 2020. O período coincide com a graduação dos alunos das dezenas de novos cursos abertos a partir de 2013, com a criação do programa Mais Médicos, que expandiu os vagas de Medicina no País.
O novo boletim projeta que entre 1 milhão e 1,3 milhão de novos médicos devem se formar até 2035. O boletim cria três cenários possíveis. No mais "conservador", prevê, para os próximos 12 anos, o mesmo patamar de novas vagas de graduação observado entre 2018 e 2023, período marcado por relativa "moratória" na abertura de cursos. Nele, o número chegaria a 1.041.608. A depender de decisões judiciais sobre a criação de cursos e das regras do Ministério da Educação, ele pode chegar a 1.362.269.
Embora isso pareça animador, porque a taxa de médicos por 1 mil habitantes pode chegar a 6,3, a AMB está preocupada com a "qualidade" desses profissionais. "Estamos muito inseguros com o médico que está sendo oferecido à população, particularmente nesses últimos 10 anos, em que vimos uma proliferação desordenada de escolas médicas", diz Fernandes.
Segundo ele, hoje, a qualidade do médico é "presumida", ou seja, após o período de graduação ou de residência, ele recebe o título e pode exercer a profissão. "Já passou da hora de nós fazermos um exame de proficiência médica à semelhança do que se faz com os advogados."
Como resolver a desigualdade?
Apesar de a formação de médicos e da especialização deles ser importante para enfrentar a desigualdade na distribuição pelo País, é essencial, conforme os pesquisadores, uma política de incentivo de fixação desses profissionais em locais onde há escassez. "Tem que ser uma política de Estado, não de governo", fala Fernandes.
"A culpa não é do médico. Ele é um indivíduo prestador de serviço que tem as mesmas necessidades que qualquer outro cidadão. Ele precisa ser incentivado por meio de uma política de Estado para que possa fazer uma carreira para a vida inteira, e não de caráter efêmero, baseada em quatro anos, por exemplo", completa.