Paz interior não é privilégio. O acesso a ela, muitas vezes, é
Uma reflexão de Rê Mozzini, professora de yoga há 24 anos, sobre sustentabilidade, autoconhecimento e a democratização do yoga
A sustentabilidade inclui respeitar os próprios ciclos e cuidar da saúde mental, segundo Rê Mozzini, que defende a democratização do yoga contra a visão elitizada da prática. Através de projetos sociais, ela capacita pessoas em vulnerabilidade para promover equilíbrio e transformação coletiva. Essa visão integra a Virada Sustentável, evento gratuito que ocorre no Centro Cultural São Paulo com aulas e vivências para reforçar que a paz interior e o autoconhecimento não devem ser privilégios.
Na Virada Sustentável 2026, a gente fala de sustentabilidade de um jeito amplo: ambiental, social, cultural e também do cuidado com a saúde mental. E isso passa por uma pergunta que me acompanha há muito tempo: yoga é para todos de verdade?
No sábado, 7 de novembro, às 16h30, a Rê conduz uma aula de yoga na Área de Convivência do Centro Cultural São Paulo, dentro da programação gratuita do festival.
Entre os convidados que compartilham essa visão, tenho a alegria de apresentar aqui no Personare um texto de Rê Mozzini. A Rê pratica yoga há 24 anos, forma professores há 11 e, com a Yoganaya e o Instituto MUDE, leva yoga gratuito para milhares de pessoas e forma professores em comunidades e territórios em situação de vulnerabilidade social.
✨ Boa leitura!
Com a palavra, Rê Mozzini
Nossa própria natureza
Quando falamos em sustentabilidade, pensamos imediatamente no cuidado com o planeta, na preservação da natureza, no consumo consciente e na responsabilidade com as futuras gerações.
Mas será que estamos incluindo a nossa própria natureza nessa conversa?
Como podemos construir um mundo sustentável se não conseguimos sustentar uma relação saudável com nós mesmos? Como podemos respeitar os ciclos da natureza se não respeitamos os nossos próprios ciclos?
Acredito que a transformação que queremos ver no mundo começa dentro de nós. Na forma como pensamos, sentimos, escolhemos, consumimos e nos relacionamos com a vida.
E acredito também que essa transformação precisa ser acessível a todos.
Faço parte de um movimento lindo de pessoas que realizam projetos para mudar essa realidade. Projetos que contribuem para encontrarmos uma melhor forma de viver. Que democratizam o acesso ao autoconhecimento e apresentam ferramentas para atravessar tantos desafios e encontrar o equilíbrio do lado de dentro.
A Virada Zen e a Virada Sustentável são projetos como esses, uma bomba de luz no meio da escuridão. Sou infinitamente grata à Mariana Amaral por seu trabalho na realização de movimentos tão necessários no mundo em que vivemos e muito honrada por fazer parte deles.
Não existe verão o ano inteiro
Construímos uma sociedade que espera produtividade constante, crescimento contínuo e alta performance. Aprendemos que a felicidade está em algum lugar no futuro, quando alcançarmos o sucesso, conquistarmos reconhecimento, dinheiro, poder ou realizarmos nossos sonhos.
Vivemos correndo atrás de alguma coisa, como se a vida fosse começar quando finalmente chegarmos lá.
Queremos viver um eterno verão.
Mas nenhum sistema vivo funciona assim.
A natureza é feita de ciclos. Há momentos de florescer e momentos de perder as folhas. Há tempo de plantar, tempo de colher e tempo de deixar a terra descansar.
O inverno não é um erro da natureza. Não é um defeito da árvore perder suas folhas no outono. É parte da inteligência que permite que uma nova primavera exista.
Nós também somos cíclicos. Vivemos eternos ciclos de nascimento, crescimento, envelhecimento e morte. Mas fomos educados para viver como se não fôssemos.
Queremos estar sempre produzindo, sempre felizes, sempre crescendo. E quando chega o nosso inverno, quando precisamos parar, recolher, deixar ir alguma coisa ou simplesmente atravessar um momento difícil, acreditamos que existe algo de errado conosco.
Uma flor não desabrocha antes porque a flor ao lado já floresceu. O sol não acelera em direção ao horizonte porque teve um dia difícil.
A natureza conhece seu próprio tempo.
E nós precisamos reaprender a respeitar o nosso.
A sustentabilidade começa dentro
Estamos vivendo uma crise ambiental, mas também uma crise na forma como nos relacionamos com a vida.
Consumimos mais do que precisamos, trabalhamos além dos nossos limites e buscamos reconhecimento e satisfação em coisas que nunca parecem suficientes.
Aprendemos a acreditar que precisamos sempre de mais. Mais dinheiro, mais sucesso, mais experiências, mais reconhecimento, mais coisas.
E essa busca não tem fim.
O que acontece quando uma sociedade inteira aprende a buscar felicidade através do consumo, da conquista e do acúmulo?
Criamos uma relação com o mundo baseada na sensação permanente de que alguma coisa está faltando.
O yoga nos apresenta um caminho diferente. Uma filosofia de vida que nos convida a investigar nossos desejos, nossos condicionamentos e a forma como nos relacionamos com aquilo que acontece dentro e fora de nós.
Quando começamos a reconhecer nossa própria natureza, aprendemos também a identificar o que realmente precisamos.
E talvez uma das maiores contribuições do autoconhecimento para a sustentabilidade seja justamente essa: perceber que não precisamos de tanto para viver plenamente.
Que a felicidade não está necessariamente na próxima conquista, na próxima compra ou no próximo objetivo alcançado.
Que existe uma experiência de plenitude disponível no momento presente.
E que podemos aprender a acessá-la.
A sustentabilidade começa também nas nossas escolhas. E nossas escolhas são resultado da consciência que temos sobre nós mesmos e sobre o mundo.
O que aprendi levando yoga às comunidades
Há 24 anos pratico yoga e há 11 anos me dedico à formação de professores. Ao longo dessa trajetória, tive a oportunidade de conhecer pessoas de realidades completamente diferentes.
Mas foi especialmente através dos projetos sociais que desenvolvo que uma compreensão ganhou ainda mais força dentro de mim.
Ao levar o yoga para comunidades e territórios em situação de vulnerabilidade social, vi pessoas atravessadas por desafios enormes acessarem estados de presença, consciência e paz.
Não porque seus problemas desapareceram ou porque suas condições de vida se transformaram de uma hora para outra.
Mas porque, quando tiveram acesso às ferramentas, descobriram dentro de si um lugar que talvez nem soubessem que existia. Um lugar que não muda, independentemente do que aconteça do lado de fora.
Existe algo que compartilhamos, independentemente da nossa classe social, profissão, endereço ou conta bancária.
Todos nós temos um corpo que respira, sente e se transforma. Todos nós atravessamos ciclos. Todos nós experimentamos perdas, conquistas, alegrias, dores, medos e incertezas.
Todos nós somos natureza.
E existe uma dimensão da nossa experiência humana que pode ser cultivada independentemente das nossas condições materiais: a consciência.
É claro que as condições externas importam. A desigualdade, a violência, a insegurança alimentar e a falta de acesso a direitos básicos produzem sofrimento real. Nenhuma prática de autoconhecimento substitui a necessidade de justiça social e de condições dignas de vida.
Mas acredito profundamente que o acesso às ferramentas de saúde mental, presença e autoconhecimento também precisa fazer parte dessa transformação.
Porque paz interior não significa ausência de problemas.
Significa desenvolver a capacidade de encontrar dentro de si um lugar de equilíbrio para atravessar os diferentes ciclos da vida.
Yoga é para todos. Mas está chegando a todos?
Foi para transformar essa realidade que comecei a desenvolver projetos de democratização do acesso ao yoga.
O yoga é uma filosofia milenar que nos oferece ferramentas para investigar o corpo, a mente e a consciência. Um caminho para compreender nossa natureza e aprender a viver em maior harmonia com ela.
Mas, durante muito tempo, vimos essa prática ser associada a um estilo de vida elitizado, muitas vezes inacessível para grande parte da população.
E isso sempre me gerou uma inquietação.
Porque se o yoga é uma ferramenta tão potente de transformação humana, por que seus benefícios deveriam estar disponíveis apenas para quem pode pagar?
Foi desse questionamento que nasceu grande parte do meu trabalho.
Através da Yoganaya e do Instituto MUDE, desenvolvemos projetos que levam yoga gratuitamente para milhares de pessoas e também formam professores de yoga em comunidades e territórios em situação de vulnerabilidade social.
Pessoas que encontram no yoga uma possibilidade de desenvolvimento pessoal, formação profissional e geração de renda, e que passam também a multiplicar esse conhecimento através de aulas gratuitas em seus próprios territórios.
É uma transformação que começa dentro de cada pessoa, mas que não termina nela.
Ela se espalha.
E é justamente aí que encontro uma das conexões mais bonitas entre yoga e sustentabilidade.
Estamos falando de criar condições para que mais pessoas tenham acesso a ferramentas que promovam saúde, consciência, autonomia e qualidade de vida.
Estamos falando de desenvolvimento humano e transformação social.
Estamos falando de construir uma sociedade que consiga cuidar melhor de si mesma.
O mundo que queremos começa no mundo que cultivamos dentro
A transformação começa na forma como pensamos, escolhemos, consumimos, nos relacionamos e agimos.
Na capacidade de reconhecer nossos próprios limites e respeitar nossos ciclos.
Na coragem de deixar cair as folhas que já não servem, atravessar nossos invernos e confiar que existe um tempo para cada coisa.
O yoga nos oferece um mapa para esse caminho de volta à nossa natureza. Um caminho de investigação e consciência que nos permite viver com mais presença e fazer escolhas mais alinhadas com aquilo que realmente somos.
E quanto mais pessoas tiverem acesso a esse caminho, maior será a nossa capacidade coletiva de construir uma sociedade mais consciente, justa e sustentável.
Por isso, acredito tanto em movimentos como a Virada Zen e a Virada Sustentável. Porque eles criam espaços de encontro, reflexão e experiência. Porque aproximam pessoas, democratizam conhecimentos e mostram que existem outras formas possíveis de viver.
É esse mesmo propósito que move o meu trabalho: furar bolhas.
É levar o yoga para lugares onde ele ainda não chega. É contribuir para que cada vez mais pessoas possam acessar ferramentas de autoconhecimento, reconhecer sua própria natureza e descobrir que existe dentro de nós um lugar que permanece, mesmo quando tudo do lado de fora está pegando fogo.
Na filosofia do yoga, buscamos um estado de equanimidade. A capacidade de permanecer em equilíbrio diante das oscilações da vida, atravessando o prazer e a dor, as vitórias e as derrotas, os verões e os invernos, sem perder a conexão com a nossa essência.
Paz interior não é ter uma vida sem tempestades. É desenvolver a capacidade de permanecer em equilíbrio mesmo durante elas.
E talvez seja essa a verdadeira liberdade. Não depender de condições perfeitas para estar em paz. Não ser refém das circunstâncias, das expectativas ou da necessidade de controlar tudo o que acontece. Poder viver plenamente cada experiência, sabendo que tudo passa, sem perder a conexão com quem realmente somos.
E essa paz não está à venda.
Não existe dinheiro no mundo capaz de comprá-la. Não existe sucesso, reconhecimento ou poder capaz de garanti-la. Porque a paz interior não é algo que conquistamos do lado de fora. É um estado de consciência que aprendemos a acessar dentro de nós.
E é justamente por isso que acredito tanto na democratização do yoga.
Porque se essa possibilidade existe em todos nós, não podemos aceitar que os caminhos para encontrá-la continuem sendo privilégio de poucos.
A sustentabilidade em que acredito começa também nesse reconhecimento de que somos natureza. De que precisamos respeitar nossos ciclos, aprender a viver com presença e compreender que a felicidade não está no acúmulo, mas na forma como experimentamos a vida.
Paz interior não é privilégio.
Ela é de graça. Não está à venda.
E o acesso aos caminhos para encontrá-la precisa ser de todos.
Resumo e convite
Cuidar dos próprios ciclos e consumir com mais consciência também é sustentabilidade, e as ferramentas de autoconhecimento, como o yoga, precisam chegar a todo mundo. A Virada Sustentável existe justamente para levar essas práticas de graça para a cidade.
Pratique com a gente na Virada Sustentável. Sábado, 7 de novembro, às 16h30, a Rê Mozzini conduz uma aula de yoga na Área de Convivência do Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000, Liberdade), dentro da programação gratuita do festival.
No mesmo dia e no mesmo lugar, o Personare faz o Retiro Urbano Personare, no Espaço Cênico Ademar Guerra, no Centro Cultural São Paulo: um dia inteiro de vivências gratuitas, com aula de yoga com o Fabiano Benassi para todos os níveis, limpeza energética, práticas terapêuticas, astrologia e tarot com previsões para 2027. Veja a programação do Retiro.
👉 Quero me inscrever no Retiro Urbano Personare
O post Paz interior não é privilégio. O acesso a ela, muitas vezes, é apareceu primeiro em Personare.
Mariana Amaral (mariana@viradazen.com.br)
- Publicitária e articuladora cultural, Mariana Amaral é idealizadora da Virada Sustentável e da Virada Zen, iniciativas que transformam o espaço urbano por meio da arte, do bem-estar e da consciência coletiva, com projetos inovadores e regenerativos.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.