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Os hospitais de campanha foram fechados precocemente?

Com aumento de casos de covid-19 e crescente ocupação de leitos, Estadão ouviu especialistas para discutir questão

7 dez 2020 11h10
| atualizado às 11h15
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RIO - O número de novos casos de covid-19 ainda não chegou ao patamar alcançado no pico da pandemia no País. No entanto, no sistema de saúde de muitas cidades, como o Rio de Janeiro, não há mais vagas para pacientes do novo coronavírus nem na rede pública, nem na privada. Segundo especialistas, não houve o planejamento necessário para a reabertura dos hospitais de campanha e leitos emergenciais fechados quando o número de casos começou a cair.

Hospital de campanha para covid-19 está localizado no Complexo Esportivo do Ibirapuera
Hospital de campanha para covid-19 está localizado no Complexo Esportivo do Ibirapuera
Foto: Governo do Estado de São Paulo/Divulgação / Estadão Conteúdo

No início de agosto, o Brasil chegou a computar mais de 50 mil novos casos e pelo menos mil óbitos por dia. Depois disso, os números foram caindo, chegando ao patamar de 20 mil casos e 400 mortes diárias no fim de outubro. Com a flexibilização das medidas de isolamento, os registros voltaram a aumentar.

A média móvel de número de novos casos nos últimos sete dias foi de 40.421; a maior desde 31 de agosto, quando chegou a 40.526. O número divulgado pelo consórcio de imprensa nesta sexta-feira, 4, representa uma variação de 37% em relação aos casos registrados nas duas semanas anteriores, o que indica uma tendência de alta nos diagnósticos.

"O número de pessoas internadas ainda é muito menor do que no pico, mas estamos trabalhando aqui no Rio com 50% a menos de leitos do que tínhamos naquela época", afirmou o professor Marcelo Gomes, coordenador do grupo Covid-19 da PUC - RJ, que monitora os números da epidemia. "A prefeitura desmontou todos os hospitais de campanha (quatro), só ficou um (do Riocentro)."

Além disso, faltou coordenação. "Não acho que a gente tenha fechado os hospitais de campanha precocemente; esses leitos são muito caros e estavam mobilizando profissionais que tinham sido tirados da atenção primária, que poderiam estar trabalhando na prevenção e na testagem, por exemplo", afirmou a integrante do Centro de Gestão em Saúde da UFRJ, a pesquisadora Chrystina Barros. "Mas até que haja uma vacina, essa estrutura hospitalar tem que poder ser reativada rapidamente."

No entanto, explica a pesquisadora, não basta apenas reabrir leitos. Nos meses em que o número de novos casos estava em queda, era crucial ter adotado medidas de prevenção e restrição, para evitar um novo crescimento nos diagnósticos.

"Se não adotarmos nenhuma medida restritiva, vamos ficar enxugando gelo", disse. "Não vai haver leitos em número suficiente e vai morrer gente por falta de assistência."

Especialistas temem que a situação piore ainda mais ao longo do mês de dezembro, por conta das comemorações de fim de ano, se novas medidas de restrição não forem adotadas.

"Sem dúvida, esse aumento ocorreu por conta da flexibilização; além disso, três quartos dos leitos emergenciais foram desmobilizados", disse o infectologista Fernando Bozza, da Fiocruz. "E essa população mais jovem que está circulando mais agora vai levar a doença para a família, os mais velhos, que estavam isolados em casa."

Estadão
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