Os homens que estão criticando as tendências de 'masculinidade' nas redes sociais
Alguns influencer estão usando suas plataformas para criticar o que descrevem como tendências de masculinidade "extremas", como o looksmaxxing.
"Bata nos ossos do seu rosto para esculpir o maxilar."
"O único objetivo de verdade é ficar mais bonito - não importa o que seja necessário."
"Seu corpo é a sua propaganda."
Estas são sugestões compartilhadas na internet pelos chamados "influenciadores de masculinidade": homens que promovem o que dizem ser formas de se tornar mais masculino.
Alguns se autodenominam healthmaxxers, dando dicas sobre o que comer e como treinar, enquanto outros se identificam como looksmaxxers, obcecados pela "maximização da aparência", com o objetivo de "otimizar" totalmente a aparência física de alguém.
Muitos deles compartilham expressōes próprias. "Mogging", por exemplo, significa ser mais bonito que outro homem, e "ascender" é ficar mais atraente. O que conta como "bonito" tem uma definição restrita: traços faciais esculpidos e músculos visíveis são obrigatórios.
Pode parecer só um nicho da internet, mas homens jovens estão prestando atenção nisso.
Quase dois terços dos rapazes e homens entre 16 a 25 anos no Reino Unido, EUA e Austrália assistem e leem regularmente conteúdos de influenciadores de masculinidade, de acordo com uma pesquisa da Movember, uma entidade voltada para a saúde mental masculina. Alguns dos influenciadores de masculinidade mais populares possuem milhões de seguidores.
Nos últimos meses surgiu um movimento nas redes sociais de homens que focam na saúde, com experiência e qualificação em nutrição ou exercícios, mas que usam as plataformas para criticar o que descrevem como tendências de masculinidade "extremas" como o looksmaxxing.
Esses "contrainfluenciadores" admitem que informações verificadas e baseadas em evidências podem ser difíceis de parecerem "sexy" nas redes sociais.
Após passar 15 anos como médico esportivo e de cidades pequenas, o Dr. Michael Mrozinski notou o fenômeno do looksmaxxing surgindo na esfera dos influenciadores de masculinidade.
Mrozinski usa sua plataforma para alertar seus 180 mil seguidores sobre a tendência, comparando-a a um "monstro" que ganhou "braços e pernas".
"Pode ter começado como 'aqui está minha rotina de academia, aqui está minha rotina de cuidados com a pele'", diz Mrozinski. "Mas agora se transformou em 'Aqui está como eu aumento minhas maçãs do rosto - batendo nelas com um martelo'."
Sangramentos, hematomas e danos nos tecidos moles podem ocorrer quando se provoca fortes traumas faciais para modificação, diz Mrozinski. Algo que ele chama de uma versão "extrema" de autoaperfeiçoamento.
O influenciador mais influente do looksmaxxing, que leva o nome de Clavicular, tem meio milhão de seguidores no Instagram e quase 900 mil no TikTok. Seu nome verdadeiro é Braden Peters e ele tem 20 anos.
Ele promove a "quebra de ossos" (bone-smashing) como algo "legítimo" e afirma ter usado metanfetamina em cristais para perder gordura corporal, além de esteroides para construir massa muscular.
Em uma entrevista, Clavicular comparou esses métodos a "comandos para passar de fase no videogame" com o objetivo de aumentar a sua atratividade.
O influencer virou notícia recentemente após um aparente desmaio durante uma transmissão ao vivo. Ele foi levado a um hospital em Miami e, depois, fez uma postagem no X em que dizia: "A pior parte desta noite foi meu rosto 'descender' [ficar feio] por causa da máscara."
Embora o termo de busca "bone smashing" seja banido no TikTok, homens de 18 a 24 anos são o grupo demográfico que mais pesquisa variações da expressão.
Dados de análise do TikTok mostram que essa faixa etária fez mais de 300 mil buscas por dia em fevereiro a respeito de truques de looksmaxxing, atingindo um pico de 1,9 milhão no final de março.
O conteúdo que os influenciadores de masculinidade compartilham pode atingir meninos de até 13 anos, diz Mrozinski, alguns dos quais podem ainda não ter passado pela puberdade.
Passando dos limites
James Brash, nutricionista e criador de conteúdo, diz à BBC que conselhos sobre fitness e dieta não são ruins por si só - e ele diz que não quer desencorajar as pessoas na tentativa de serem mais saudáveis.
"A atividade física é uma das melhores coisas que as pessoas podem fazer para melhorar sua saúde", diz ele.
O que ele contesta é o que chama de "excesso dos influenciadores", quando aqueles com muitos seguidores dão conselhos baseados em evidências frágeis — ou nenhuma.
Brash diz que não se considera um influenciador porque segue a medicina e que prefere denunciar a "desinformação" em vez de conseguir cliques.
Ele posta vídeos em que expōe influenciadores de "wellness" que espalham desinformação nutricional.
Um deles, diz Brash, promove a falsa ideia de que, no passado, os homens tinham níveis mais altos de testosterona e eram mais férteis, empurrando uma versão muito estreita de masculinidade "aceitável".
'Estilos de vida mais primais'
Alguns influenciadores de masculinidade dizem que ajudam jovens que se sentem perdidos e procuram orientação prática sobre como melhorar o bem estar.
Steven Abelman diz que é um influenciador "healthmaxxer" e que a masculinidade, não só a aparência, é o foco de seu conteúdo, que promove dieta rigorosa, horários de sono definidos e regimes de exercícios.
A superestimulação das tecnologias e dos jogos está contribuindo para a má saúde mental e física, acredita Abelman.
Seu conteúdo se concentra amplamente em vídeos de reação sobre planos e dietas de outras pessoas - dizendo se são "otimizadas" ou não.
"A sociedade está tornando os homens cada vez mais fracos, mas o que estou promovendo pode realmente fortalecer os homens", diz o influenciador. "Quero promover estilos de vida mais primais."
Diferentes masculinidades
Ben Hurst, da Beyond Equality, uma organização sediada no Reino Unido focada em "repensar masculinidades", conversa com jovens em escolas. Ele sabe que eles vivem on-line e diz que é importante usar sua plataforma para "inundar" esses espaços com conteúdo que possa abalar as percepções da masculinidade convencional.
"O belo da internet é que realmente há espaço para tudo, certo?", diz Hurst. "Eu adoraria ver versões de masculinidade que sejam cuidadosas, gentis, confiantes, dóceis, amorosas, apaixonadas, poderosas, fortes e dinâmicas."
Ele aponta para personalidades como Rory Bradshaw, que compartilha vídeos sobre o ensino de ioga em prisões masculinas como parte de sua missão mais ampla de combater a violência contra mulheres e meninas.
"Esses homens estão impulsionando a ideia de comunidade na saúde e no fitness", diz Hurst, "em vez de apenas uma busca individual pela perfeição."
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