Odores estranhos, apagões na memória e formigamento: os sintomas pouco falados da menopausa
Por muito tempo, a menopausa foi tratada de forma superficial, limitada a estereótipos que destacam apenas desconfortos físicos, enquanto ignora a complexidade de mudanças que marcam essa etapa da vida feminina. Na prática clínica, Bruna Marisa, médica pós-graduada em endocrinologia, especialista em obesidade e saúde da mulher, conta que observa um cenário muito mais amplo e, muitas vezes, silencioso.
"Existem sintomas menos conhecidos, mas que impactam diretamente a qualidade de vida da mulher e que raramente são associados, de imediato, à transição hormonal", diz.
Um deles são os odores estranhos, tanto percebidos no próprio corpo quanto no ambiente.
"Algumas mulheres relatam mudanças no cheiro do suor, da pele ou até uma sensibilidade olfativa aumentada. Isso acontece porque os hormônios, especialmente o estrogênio, influenciam diretamente a microbiota da pele e das mucosas, além da forma como o cérebro interpreta os estímulos sensoriais", explica.
Outro ponto destacado pela médica são os chamados “apagões” de memória. "Não se trata apenas de esquecimento ocasional, mas de lapsos que podem gerar insegurança no dia a dia. A queda hormonal interfere em neurotransmissores importantes, como a serotonina e a acetilcolina, afetando foco, memória e clareza mental. Muitas mulheres descrevem essa fase como uma “névoa cerebral”".
O formigamento pelo corpo, especialmente em extremidades como mãos, braços e pés, também pode surgir nesta fase. "Essa sensação, chamada de parestesia, tem relação com alterações na condução nervosa e na circulação, influenciadas pelas mudanças hormonais. Apesar de assustar, é um sintoma relativamente comum nesse período", completa.
Além disso, a especialista diz que há relatos de palpitações cardíacas, mesmo sem histórico prévio de problemas cardíacos. "A oscilação hormonal pode afetar o sistema nervoso autônomo, gerando essa percepção de batimentos acelerados ou irregulares".
A pele mais sensível ou com sensação de “ardência” sem causa aparente é outro sinal pouco comentado, segundo a especialista.
"Com a redução do estrogênio, há diminuição da hidratação e da espessura da pele, o que pode deixá-la mais reativa".
Alterações no paladar também entram nessa lista. "Algumas mulheres passam a sentir gosto metálico na boca ou mudanças na percepção dos alimentos, o que pode impactar diretamente a alimentação e o prazer em comer", detalha.
Por fim, um sintoma frequentemente negligenciado é a sensação de choques leves ou “fisgadas” pelo corpo. "Embora menos comum, ele pode aparecer como reflexo das alterações neurológicas e hormonais dessa fase", diz.
A médica diz que o mais importante é entender que a menopausa não é uma doença, mas uma transição fisiológica que pode, e deve, ser acompanhada de forma individualizada.
"Quando esses sinais são reconhecidos precocemente, é possível intervir de maneira estratégica, promovendo mais conforto, equilíbrio e qualidade de vida. Informação é ferramenta, e conhecer esses sintomas é o primeiro passo para atravessar essa fase com mais consciência e protagonismo", conclui.
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