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O transplante de mãos que deu 'nova vida' a homem com doença rara

Steven Gallagher passou anos com dores nos braços até ser diagnosticado com esclerodermia. Ele passou por cirurgia pioneira que teve a participação de 30 profissionais de saúde.

26 mai 2022 14h27
| atualizado às 18h00
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A cirurgia de Steven teve a participação de 30 profissionais
A cirurgia de Steven teve a participação de 30 profissionais
Foto: PA Media / BBC News Brasil

O escocês Steven Gallagher riu quando sugeriram a ele pela primeira vez fazer um transplante duplo de mãos.

Mas, cinco meses depois de uma cirurgia pioneira e arriscada, ele agora está sem dor e sentindo "uma nova vida". O homem de 48 anos desenvolveu uma erupção incomum nas bochechas e no nariz há 13 anos, além de dores no braço direito.

Os médicos inicialmente pensaram que era lúpus e, depois, síndrome do túnel do carpo. Steve, que é pai de três filhos, chegou a ser operado com base neste diagnóstico.

Quando a dor voltou em ambos os braços, ele foi encaminhado a um especialista que finalmente o diagnosticou com esclerodermia, uma doença autoimune que causa cicatrizes na pele e nos órgãos internos.

A condição afetou áreas como nariz, boca e mãos. Cerca de sete anos atrás, seus dedos começaram a se curvar. Ele estava sofrendo uma dor "horrível".

"Minhas mãos começaram a se fechar, chegou ao ponto em que eram basicamente dois punhos, minhas mãos ficaram inutilizáveis", lembrou ele. "Eu não podia fazer nada além de levantar coisas com as duas mãos. Eu não conseguia pegar nada, era uma luta para me vestir e coisas assim", diz Steven, que foi forçado a deixar seu trabalho na construção civil.

Ele foi encaminhado ao professor Andrew Hart, cirurgião plástico e de mãos em Glasgow, na Escócia, que levantou a possibilidade de um transplante duplo de mãos.

"Na época eu ri e pensei 'isso é tipo de coisa da era espacial'", disse ele.

Steven voltou a conseguir carregar seu cachorro, após o transplante
Steven voltou a conseguir carregar seu cachorro, após o transplante
Foto: PA Media / BBC News Brasil

Após mais conversas com Hart, Steven também conversou com Simon Kay, cirurgião plástico consultor do Leeds Teaching Hospitals NHS Trust, que liderou a primeira operação de transplante duplo de mãos do Reino Unido em 2016.

Os dois médicos detalharam os riscos envolvidos na cirurgia.

"Eles foram realmente francos e muito abertos sobre o que poderia acontecer, que eu poderia perder minhas mãos completamente", lembrou Steven. "Eles disseram que era improvável, mas era um risco. Minha esposa e eu conversamos sobre isso e concordamos (sobre a operação). Eu poderia acabar perdendo minhas mãos de qualquer maneira, então decidimos avisá-los que toparíamos (a cirurgia)."

Steven teve que passar por avaliação psicológica para garantir que estava preparado para o transplante.

'Essas mãos são incríveis'

Acredita-se que Steven seja a primeira pessoa no mundo com sua condição a passar por essa cirurgia. A operação durou 12 horas, envolveu uma equipe de 30 profissionais de várias especialidades e foi realizada em Leeds, na Inglaterra, em dezembro, depois que um doador adequado foi encontrado.

"Depois da operação, acordei e foi bastante surreal", disse Steven.

"Essas mãos são incríveis, tudo aconteceu muito rápido. No momento em que acordei da operação já conseguia movê-las."

Depois de passar quatro semanas internado em Leeds, após a operação, Steven agora faz visitas regulares a hospitais em Glasgow para fisioterapia e monitoramento.

Embora ainda não consiga realizar tarefas específicas, como fechar botões das roupas, ele já consegue fazer várias outras coisas, como acariciar seu cachorro, abrir a torneira e encher um copo d'água.

Steven não consegue abotoar botões, mas já é capaz de tomar água sozinho e segurar objetos
Steven não consegue abotoar botões, mas já é capaz de tomar água sozinho e segurar objetos
Foto: PA Media / BBC News Brasil

"Eu ganhei uma nova vida", acrescentou. "Ainda estou achando as coisas difíceis agora, mas as coisas estão melhorando a cada semana com o fisioterapeuta e os terapeutas ocupacionais. A dor era o grande problema. Antes da operação era horrível, eu estava tomando tanto analgésico que era inacreditável, mas agora não sinto mais nenhuma dor."

Kay diz que a operação foi um "grande esforço de equipe" e que um transplante de mãos é "muito diferente de um transplante de rim ou outro órgão".

"As mãos são algo que vemos todos os dias e as usamos de muitas maneiras", explicou. "Por essa razão, nós e nossos psicólogos clínicos especialistas avaliamos e preparamos os pacientes, para ter certeza de que eles serão capazes de lidar psicologicamente com a lembrança permanente de seu transplante e o risco de o corpo rejeitar as mãos transplantadas."

Para Steven, a operação foi transformadora. Ele agora espera voltar a trabalhar assim que estiver recuperado.

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