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O drama do lado de fora do hospital

'Estado' conta a história de quatro famílias que internaram seus parentes infectados com a covid-19 e viveram dias de agonia e medo

3 mai 2020 - 05h12
(atualizado às 13h53)
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A preocupação de quem leva um familiar ao hospital não é muito menor da do próprio paciente que dá entrada numa das alas reservadas ao tratamento da covid-19. No Brasil, as pessoas que ficam do lado de fora dos hospitais agonizam por notícias de seus parentes internados, quase sempre isolados de todos e sem a companhia da família.

O ato de acompanhar um parente no hospital sempre foi muito comum no País. Há famílias que fazem revezamento para não deixar o paciente sozinho, principalmente quando ele é mais idoso ou quando se trata de criança e jovem.

Mas até isso a pandemia do novo coronavírus, que sacode o mundo, mudou. As pessoas infectadas, sem distinção, são isoladas das pessoas que não pegaram a doença, de modo a proibir acompanhantes nos quartos ou nas alas clínicas de hospitais públicos ou privados, incluindo também os de campanha. O Estado conta nesta reportagem a história de quatro famílias diferentes, que passaram por essa situação com parentes próximos durante semanas.

A agonia da falta de informação e o medo de que o pior pudesse chegar "de supetão" tornaram esses personagem, que não se conhecem, de alguma forma próximos. São relatos tristes de momentos que eles não desejariam a seus piores inimigos. Os casos mais graves, quando o paciente fica entubado e, portanto, sem poder sequer usar o telefone, são também os mais agonizantes para os familiares nas salas de espera e nas calçadas na frente dos hospitais. As informações são espaçadas e a falta delas provoca incertezas e muito medo.

O fim dessas histórias, e dos dias de medo dessas pessoas que tiveram seus parentes internados com a covid-19, foi diferente. Uma delas envolveu uma jornalista do Estado, cuja sobrinha deu entrada com a doença e permaneceu internada por mais de uma semana. Mas nem todos tiveram alta e puderam abraçar seus familiares.

'Não vi minha mulher morrer no hospital'

O vereador Antonio Neto Mendes (MDB), de Eldorado, interior de São Paulo, viveu o drama do coronavírus na família em dose dupla, como acompanhante e paciente. Impedido de permanecer com a mulher nos últimos momentos de sua vida, Dolores Kuhnen Mendes, de 56 anos, morreu da covid-19 em um hospital particular de São Paulo, enquanto ele estava internado em outro. Mendes ficou cinco dias de cama sem receber visitas dos filhos e netos. Não se despediu sequer da mulher. "Além da tragédia de uma doença fatal como essa, a gente se vê mergulhado numa solidão infinita, sem a família."

Dolores, servidora pública aposentada, estava em tratamento para cirrose hepática medicamentosa havia três anos e, no dia 28 de março, sentiu dores fortes. "Moramos em Eldorado e a levei para o Hospital São José, em Registro. Lá o médico me disse que ela estava com hérnia encarcerada e achou melhor que fosse transferida ao Nove de Julho, em São Paulo, onde já fazia o tratamento." No hospital da capital, para onde foi levada em ambulância UTI, Dolores foi submetida a uma cirurgia, mas o quadro piorou. "Foi operada de novo. Eu fiquei como acompanhante, mas no dia 4 de abril, o médico me disse que, em função de haver pacientes com coronavírus, não podia mais ficar ali. Na hora nem imaginei que minha mulher estava com essa doença."

Mendes se despediu de Dolores e voltou para Eldorado. À noite, sentiu calafrios. No dia seguinte, estava com tosse e febre. "Fiz o teste para a covid-19. Nessa altura, já não poderia mais visitar minha mulher." Dois dias depois, com febre, dor no corpo e acúmulo de líquido na extremidade do pulmão, Mendes foi levado de ambulância para um hospital em Registro. No dia 11, quando era internado, recebeu a notícia da morte de Dolores. "Foi a coisa mais triste da minha vida", disse Mendes, curado. "Não acredito que exista algo mais difícil do que eu passei. Doente, isolado, sem poder receber filhos e netos e sem poder ver minha mulher, mesmo depois de morta."

Estadão
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