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Morte aparente x real: perita cobra exame minucioso

Caso de mulher dada como morta pelo SAMU em Bauru acende alerta sobre protocolos de emergência. Entenda a diferença entre os estados clínicos

23 jan 2026 - 20h52
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O caso recente ocorrido em Bauru (SP) levantou um debate urgente sobre a segurança dos protocolos de atendimento pré-hospitalar. Fernanda Cristina Policarpo, de 29 anos, foi dada como morta por uma equipe do SAMU após um atropelamento na Rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (SP-294).

Entenda erro em caso de morte em Bauru (SP)
Entenda erro em caso de morte em Bauru (SP)
Foto: Rafael Nascimento/MS / Saúde em Dia

Minutos depois, enquanto o corpo já estava coberto, ela foi reanimada por um socorrista da concessionária da via. Testemunhas no local afirmavam que a vítima "estava respirando", mas o diagnóstico inicial da equipe médica foi de óbito.

Como é possível cometer um erro dessa magnitude? A resposta passa pela confusão entre dois conceitos médicos cruciais: morte aparente e morte real.

Para entender o que houve e como evitar novas tragédias, ouvimos a Dra. Caroline Daitx, médica especialista em Medicina Legal, Perícia Médica e ex-intervencionista do SAMU.

O que diz o protocolo: não existe "olhômetro"

A constatação de óbito em via pública não é uma formalidade burocrática. É um ato médico complexo. Segundo a Dra. Caroline Daitx, esse procedimento exige um exame minucioso e padronizado.

Isso é ainda mais crítico em casos de trauma, como atropelamentos, onde o corpo pode entrar em estado de choque profundo.

"Em atendimento pré-hospitalar, não se declara morte por exclusão", alerta a perita. É obrigatório verificar, de forma rigorosa, a ausência de:

  • Atividade cardíaca;

  • Atividade respiratória;

  • Resposta neurológica (reflexos).

A regra de ouro da emergência é clara: na dúvida, a conduta deve ser sempre salvar a vida, nunca encerrá-la prematuramente.

Morte Aparente x Morte Real: entenda a diferença

Um dos pontos centrais para compreender o erro em Bauru é a distinção técnica entre os estados da vítima.

A perita explica que sinais vitais podem estar presentes, porém muito difíceis de detectar sem os equipamentos ou a técnica correta.

Morte Aparente

É um estado reversível. Ocorre quando os sinais vitais (batimentos, respiração) estão tão deprimidos ou fracos que simulam uma ausência completa de vida.

O corpo entra em um modo de "economia de energia" extrema, muitas vezes devido a traumas, hipotermia ou intoxicações.

Aos olhos de um leigo (ou de um profissional desatento), a pessoa parece morta. Mas, com manobras de reanimação, ela pode voltar.

Morte Real

É um estado irreversível. É a cessação definitiva das funções vitais, onde não há mais possibilidade de recuperação biológica.

"No trauma, a possibilidade de morte aparente existe e exige cuidado redobrado. Cobrir um paciente antes de confirmar definitivamente o óbito é antiético e inseguro", reforça Daitx.

Sinais vitais discretos: onde mora o perigo

Em uma rodovia movimentada, com barulho de sirenes, trânsito e gritos de testemunhas, a percepção sensorial da equipe médica pode ser prejudicada.

No entanto, a perita é categórica: o ambiente ruidoso não é desculpa para pular etapas.

Sinais vitais tênues exigem instrumentos e dupla checagem.

O que a equipe precisa buscar ativamente:

  • Respiração mínima: Movimentos torácicos quase imperceptíveis;

  • Pulso fraco: Especialmente na artéria carótida (pescoço);

  • Sons cardíacos abafados: Necessário uso rigoroso do estetoscópio;

  • Reatividade pupilar: Se a pupila contrai com a luz, há atividade cerebral.

"Em cenas ruidosas e com estresse elevado, o risco de erro humano existe. Mas é exatamente por isso que protocolos de dupla checagem existem. Mais de um profissional deve examinar o paciente antes de declarar óbito", explica a médica.

Consequências jurídicas e éticas

O erro no diagnóstico de morte não gera apenas trauma familiar e social. Ele traz implicações severas para os profissionais envolvidos.

Uma declaração equivocada pode configurar:

  1. Negligência: Falta de cuidado ou desleixo no exame;

  2. Imperícia: Falta de competência técnica para realizar o ato.

Segundo Daitx, as responsabilidades podem ser administrativas, civis e até penais.

"Conselhos de Medicina podem instaurar processos disciplinares e o serviço pode ser responsabilizado por falhas institucionais e ausência de supervisão adequada", pontua.

No caso de Bauru, a Prefeitura confirmou o afastamento da médica responsável e a abertura de uma sindicância para apurar a conduta.

A cultura de segurança no SAMU

Para quem trabalha na linha de frente, o caso serve como um alerta nacional. A Dra. Caroline Daitx defende a educação continuada. 

Ou seja, nNão basta ter o diploma; é preciso treinar exaustivamente os protocolos de suporte à vida.

"No SAMU, um paciente só é considerado morto após avaliação criteriosa e, geralmente, após tentativas de reanimação conforme os protocolos internacionais", afirma.

O episódio reforça que, na medicina de emergência, não há margem para interpretação individual ou "achismos". O protocolo existe para proteger o paciente e o profissional.

A sociedade precisa confiar no sistema de emergência. Para isso, erros graves como esse devem levar a mudanças estruturais, garantindo que a pressa ou o estresse nunca se sobreponham ao dever maior: a preservação da vida.

Saúde em Dia
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