Morte aparente x real: perita cobra exame minucioso
Caso de mulher dada como morta pelo SAMU em Bauru acende alerta sobre protocolos de emergência. Entenda a diferença entre os estados clínicos
O caso recente ocorrido em Bauru (SP) levantou um debate urgente sobre a segurança dos protocolos de atendimento pré-hospitalar. Fernanda Cristina Policarpo, de 29 anos, foi dada como morta por uma equipe do SAMU após um atropelamento na Rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (SP-294).
Minutos depois, enquanto o corpo já estava coberto, ela foi reanimada por um socorrista da concessionária da via. Testemunhas no local afirmavam que a vítima "estava respirando", mas o diagnóstico inicial da equipe médica foi de óbito.
Como é possível cometer um erro dessa magnitude? A resposta passa pela confusão entre dois conceitos médicos cruciais: morte aparente e morte real.
Para entender o que houve e como evitar novas tragédias, ouvimos a Dra. Caroline Daitx, médica especialista em Medicina Legal, Perícia Médica e ex-intervencionista do SAMU.
O que diz o protocolo: não existe "olhômetro"
A constatação de óbito em via pública não é uma formalidade burocrática. É um ato médico complexo. Segundo a Dra. Caroline Daitx, esse procedimento exige um exame minucioso e padronizado.
Isso é ainda mais crítico em casos de trauma, como atropelamentos, onde o corpo pode entrar em estado de choque profundo.
"Em atendimento pré-hospitalar, não se declara morte por exclusão", alerta a perita. É obrigatório verificar, de forma rigorosa, a ausência de:
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Atividade cardíaca;
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Atividade respiratória;
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Resposta neurológica (reflexos).
A regra de ouro da emergência é clara: na dúvida, a conduta deve ser sempre salvar a vida, nunca encerrá-la prematuramente.
Morte Aparente x Morte Real: entenda a diferença
Um dos pontos centrais para compreender o erro em Bauru é a distinção técnica entre os estados da vítima.
A perita explica que sinais vitais podem estar presentes, porém muito difíceis de detectar sem os equipamentos ou a técnica correta.
Morte Aparente
É um estado reversível. Ocorre quando os sinais vitais (batimentos, respiração) estão tão deprimidos ou fracos que simulam uma ausência completa de vida.
O corpo entra em um modo de "economia de energia" extrema, muitas vezes devido a traumas, hipotermia ou intoxicações.
Aos olhos de um leigo (ou de um profissional desatento), a pessoa parece morta. Mas, com manobras de reanimação, ela pode voltar.
Morte Real
É um estado irreversível. É a cessação definitiva das funções vitais, onde não há mais possibilidade de recuperação biológica.
"No trauma, a possibilidade de morte aparente existe e exige cuidado redobrado. Cobrir um paciente antes de confirmar definitivamente o óbito é antiético e inseguro", reforça Daitx.
Sinais vitais discretos: onde mora o perigo
Em uma rodovia movimentada, com barulho de sirenes, trânsito e gritos de testemunhas, a percepção sensorial da equipe médica pode ser prejudicada.
No entanto, a perita é categórica: o ambiente ruidoso não é desculpa para pular etapas.
Sinais vitais tênues exigem instrumentos e dupla checagem.
O que a equipe precisa buscar ativamente:
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Respiração mínima: Movimentos torácicos quase imperceptíveis;
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Pulso fraco: Especialmente na artéria carótida (pescoço);
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Sons cardíacos abafados: Necessário uso rigoroso do estetoscópio;
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Reatividade pupilar: Se a pupila contrai com a luz, há atividade cerebral.
"Em cenas ruidosas e com estresse elevado, o risco de erro humano existe. Mas é exatamente por isso que protocolos de dupla checagem existem. Mais de um profissional deve examinar o paciente antes de declarar óbito", explica a médica.
Consequências jurídicas e éticas
O erro no diagnóstico de morte não gera apenas trauma familiar e social. Ele traz implicações severas para os profissionais envolvidos.
Uma declaração equivocada pode configurar:
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Negligência: Falta de cuidado ou desleixo no exame;
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Imperícia: Falta de competência técnica para realizar o ato.
Segundo Daitx, as responsabilidades podem ser administrativas, civis e até penais.
"Conselhos de Medicina podem instaurar processos disciplinares e o serviço pode ser responsabilizado por falhas institucionais e ausência de supervisão adequada", pontua.
No caso de Bauru, a Prefeitura confirmou o afastamento da médica responsável e a abertura de uma sindicância para apurar a conduta.
A cultura de segurança no SAMU
Para quem trabalha na linha de frente, o caso serve como um alerta nacional. A Dra. Caroline Daitx defende a educação continuada.
Ou seja, nNão basta ter o diploma; é preciso treinar exaustivamente os protocolos de suporte à vida.
"No SAMU, um paciente só é considerado morto após avaliação criteriosa e, geralmente, após tentativas de reanimação conforme os protocolos internacionais", afirma.
O episódio reforça que, na medicina de emergência, não há margem para interpretação individual ou "achismos". O protocolo existe para proteger o paciente e o profissional.
A sociedade precisa confiar no sistema de emergência. Para isso, erros graves como esse devem levar a mudanças estruturais, garantindo que a pressa ou o estresse nunca se sobreponham ao dever maior: a preservação da vida.