Mil dias decisivos: como o início da vida determina o envelhecimento
Alicia Matijasevich, pediatra e professora da USP, defendeu a importância do cuidado nessa etapa em palestra no Summit Saúde e Bem-Estar
A pediatra e pesquisadora Alicia Matijasevich fez um alerta no Summit Saúde e Bem-Estar do Estadão: o envelhecimento começa ainda no útero e os primeiros mil dias — da concepção aos dois anos de idade — definem boa parte da nossa saúde, do nosso desenvolvimento e até de dificuldades que enfrentamos ao longo da vida.
O conceito dos primeiros mil dias tem base científica sólida e se refere ao período que vai da gestação até os dois anos. É nesse intervalo que o corpo e o cérebro passam por um crescimento acelerado e formam as bases biológicas, cognitivas e sociais que vão sustentar toda a vida futura.
"O corpo e o cérebro estão aprendendo a funcionar em resposta ao ambiente", explicou Alicia, que é professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). "Não se trata de determinismo biológico, e sim de adaptação. O organismo em formação ajusta seu funcionamento de acordo com os sinais que recebe."
O nome técnico é plasticidade: a extraordinária capacidade do organismo humano, especialmente nos primeiros anos de vida, de se adaptar às condições ambientais. Essa plasticidade, porém, é uma faca de dois gumes: pode favorecer a saúde ou criar vulnerabilidades que se manifestam décadas depois.
Para ilustrar, a médica retomou um caso clássico da literatura científica — o da "fome do inverno holandês", entre 1944 e 1945, quando gestantes viveram sob severa escassez de alimentos durante a ocupação nazista. Décadas depois, seus filhos apresentaram maior risco de obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardíacas. Análises mostraram que esses indivíduos mantinham alterações epigenéticas. Ou seja, o corpo foi "programado" para lidar com a escassez, mas encontrou abundância após o nascimento. O descompasso entre os dois ambientes resultou em doenças crônicas.
"É como se o corpo aprendesse cedo a esperar certas condições, boas ou ruins, e depois tivesse dificuldade de se ajustar quando o ambiente muda", explicou Alicia.
Nutrição, vínculo e estresse
Entre os fatores mais determinantes nos mil primeiros dias, três se destacam: nutrição adequada, vínculo afetivo e regulação do estresse.
A nutrição é o eixo mais conhecido. O crescimento linear (em altura) adequado até os dois anos está ligado a uma série de benefícios duradouros: melhor desempenho escolar, maior produtividade na vida adulta, maior renda e até melhor saúde das futuras gerações. Por outro lado, o ganho de peso excessivo nesse período pode elevar o risco de obesidade e doenças metabólicas no futuro.
Mas a alimentação não é o único fator crucial. O ambiente emocional e social tem peso igual. "Durante os primeiros mil dias, o sistema de resposta ao estresse ainda está se formando. Quando há excesso de tensão, violência ou negligência, ele se torna hiperativo", explicou Alicia. "A criança cresce num estado permanente de alerta, e isso tem consequências biológicas profundas."
Esse tipo de exposição é conhecido como estresse tóxico — um quadro de ativação intensa e prolongada dos sistemas hormonais, que afeta o metabolismo, o cérebro e o sistema imunológico. Além disso, deixa marcas epigenéticas e inflamatórias que aumentam o risco de depressão, doenças cardiovasculares e envelhecimento precoce.
Equidade e políticas públicas
A boa notícia é que há espaço para intervenção. Políticas de promoção da saúde ao longo da vida, começando na gestação, podem quebrar esse ciclo.
"Investir nos primeiros anos é a estratégia de maior retorno para a sociedade", reforçou, citando que intervenções precoces — como suplementação pré-natal, apoio à amamentação e fortalecimento de vínculos familiares — geram impactos duradouros no bem-estar coletivo.
Por isso, para Alicia, as políticas de equidade são inseparáveis da saúde pública.
Nesse sentido, a pediatra destacou que as iniciativas intersetoriais que integram saúde, educação, assistência social e meio ambiente — como o modelo promovido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) — são os caminhos mais promissores para transformar o futuro de uma população.
"O envelhecimento saudável não é um processo orgânico aleatório, não é porque eu tive mais sorte. É uma construção social que começa nos primeiros dias de vida. Se cuidamos desses 1000 dias de vida, cuidamos de uma vida inteira".