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Infarto, AVC e arritmias: como a crise climática afeta a saúde do coração?

Especialista defende prevenção como estratégia para proteger a saúde da população

19 ago 2026 - 12h02
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Resumo
As mudanças climáticas aumentam os riscos cardiovasculares devido ao calor extremo, poluição e doenças como a dengue. Esses fatores sobrecarregam o coração e contribuem para infartos, AVCs e outros problemas. Prevenção em níveis individual, coletivo e público é essencial para proteger a saúde do coração e enfrentar os impactos do clima. 🌍❤️

Ondas de calor, poluição e doenças são agravadas pelas mudanças climáticas e aumentam o risco de eventos cardiovasculares

Com ondas de calor cada vez mais frequentes, a piora da qualidade do ar e os eventos climáticos extremos registrados em diversas regiões do Brasil e do mundo, especialistas alertam que a crise climática também representa um desafio crescente para a saúde cardiovascular. O aumento da exposição a temperaturas elevadas, a poluição atmosférica e a doenças favorecidas pelas mudanças ambientais está associado ao maior risco de infarto, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca, hipertensão e arritmias.

Foto de Isaac Graulich na Unsplash
Foto de Isaac Graulich na Unsplash
Foto: Revista Malu

Para a cardiologista Dra. Flávia Verocai, da Clínica HeartWell, especializada em prevenção cardiovascular e longevidade, a crise climática já deve ser encarada como uma emergência também para a cardiologia. "Quanto mais frequentes e intensos são os eventos climáticos extremos, maior é o risco cardiovascular da população. Estamos observando um aumento na incidência de infarto, insuficiência cardíaca, AVC, hipertensão arterial e arritmias associados a esses fenômenos. A crise climática já é uma emergência para o coração."

Os impactos já aparecem nas estatísticas. Aproximadamente 546 mil pessoas morrem todos os anos em decorrência do calor extremo. A mortalidade relacionada às altas temperaturas aumentou 63% desde a década de 1990, de acordo com o Lancet Countdown on Health and Climate Change 2025.

Segundo a especialista, a relação entre clima e doenças cardiovasculares vem ganhando atenção da comunidade científica à medida que episódios de calor extremo, queimadas, secas prolongadas e piora da qualidade do ar se tornam mais frequentes.

Calor extremo sobrecarrega o coração

Entre os principais fatores está o calor extremo. Em dias de temperaturas elevadas, o organismo precisa trabalhar mais para manter sua temperatura interna, aumentando a demanda sobre o sistema cardiovascular.

"O calor favorece a desidratação, aumenta a viscosidade do sangue, acelera os batimentos cardíacos, reduz a pressão arterial, aumenta o trabalho cardíaco e intensifica processos inflamatórios não infecciosos. Essa combinação eleva significativamente o risco de eventos cardiovasculares, principalmente em idosos, pessoas com doenças crônicas e indivíduos já vulneráveis."

Poluição do ar também ameaça o coração

Outro fator de preocupação é a poluição atmosférica. A exposição contínua às partículas finas conhecidas como PM2,5 permite que esses poluentes alcancem a corrente sanguínea. Isso favorece processos inflamatórios, trombose, aterosclerose e outras alterações cardiovasculares.

"Hoje sabemos que a poluição não afeta apenas os pulmões. Ela provoca inflamação sistêmica e acelera doenças cardiovasculares. É um fator de risco que precisa ser considerado na prevenção."

Segundo o relatório State of Global Air 2024, além de dados da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a poluição atmosférica está associada a cerca de 8,1 milhões de mortes prematuras por ano no mundo, sendo aproximadamente 51 mil mortes anuais no Brasil.

Além do impacto sobre a saúde da população, os efeitos econômicos também são expressivos. O Lancet Countdown on Health and Climate Change 2025 estima que a mortalidade prematura provocada pela poluição decorrente da queima de combustíveis fósseis gere um custo anual de US$ 268 bilhões para o Brasil.

Mudanças climáticas favorecem doenças com impacto cardiovascular

Os efeitos da crise climática também se refletem no aumento da circulação de doenças infecciosas transmitidas por vetores, como a dengue. Uma revisão sistemática e meta-análise conduzida por Farrukh e colaboradores aponta que 27,2% dos pacientes com dengue apresentam algum comprometimento cardíaco, incluindo miocardite, arritmias e insuficiência cardíaca. Em 2025, o Ministério da Saúde registrou mais de 1,6 milhão de casos prováveis de dengue no país, reforçando que a doença permanece como um importante desafio para a saúde pública.

"Muitas pessoas ainda associam a dengue apenas à febre e à dor no corpo, mas a infecção também pode provocar miocardite, arritmias e insuficiência cardíaca. É mais um exemplo de como as mudanças climáticas repercutem em diferentes aspectos da saúde."

Prevenção é a principal estratégia

Para a Dra. Flávia Verocai, enfrentar os impactos das mudanças climáticas sobre a saúde exige uma atuação integrada entre população, profissionais de saúde e poder público. Segundo a cardiologista, a prevenção deve ocorrer em três níveis: individual, coletivo e por meio de políticas públicas.

"A medicina preventiva continua sendo nossa ferramenta mais importante. Ela aumenta a longevidade, melhora a qualidade de vida e reduz o impacto sobre todo o sistema de saúde."

No âmbito individual, hábitos como alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, controle dos fatores de risco, hidratação adequada e proteção durante períodos de calor intenso e piora da qualidade do ar ajudam a reduzir o risco cardiovascular. No plano coletivo, empresas, escolas e comunidades podem incentivar ambientes mais saudáveis e promover ações de conscientização. Já o poder público tem papel fundamental na ampliação de áreas verdes, na redução da poluição, no planejamento urbano e na construção de cidades mais resilientes às mudanças climáticas.

"Medidas simples adotadas pela população têm potencial para reduzir doenças cardiovasculares e beneficiar toda a sociedade. Cuidar da saúde do coração também é uma forma de enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas."

Para a especialista, investir em prevenção, estimular estilos de vida saudáveis e adaptar as cidades aos novos desafios climáticos será fundamental para reduzir o impacto das doenças cardiovasculares, melhorar a qualidade de vida da população e tornar a sociedade mais resiliente diante das mudanças climáticas.

Revista Malu Revista Malu
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