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'Hospitais totalmente lotados': como o terremoto pressiona ainda mais o já deteriorado sistema de saúde da Venezuela

A infraestrutura médica do país e sua escassez de recursos estão sendo postas à prova pela descomunal emergência médica causada pelos terremotos da última quarta-feira (24/6)

27 jun 2026 - 14h38
(atualizado às 15h24)
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Profissionais de saúde atendem pacientes em frente ao hospital Luis Razetti em Caracas, um dia depois dos terremotos na Venezuela
Profissionais de saúde atendem pacientes em frente ao hospital Luis Razetti em Caracas, um dia depois dos terremotos na Venezuela
Foto: ALEJANDRO PAREDES/AFP via Getty Images / BBC News Brasil

"Não há."

Essa talvez seja, há anos, uma das frases mais ouvidas na Venezuela.

Conforme a ocasião, ela pode se referir a ovos, açúcar, papel higiênico, suprimentos médicos, profissionais e equipamentos de saúde.

De quarta-feira (24/6) para cá, a já debilitada infraestrutura médica do país e sua escassez de recursos estão novamente sendo postas à prova, frente à emergência de saúde descomunal gerada por um poderoso terremoto de 7,2 graus de magnitude, seguido por outro ainda maior, de 7,5, apenas 39 segundos depois.

Aos 1.430 mortos até aqui, somam-se mais de 3.200 feridos com variados níveis de gravidade e as pessoas que ainda se encontram embaixo dos escombros, esperando pelo resgate. A ONU estima que 50 mil pessoas possam estar desaparecidas.

"O problema é que não se trata apenas de uma tragédia natural. É preciso reconhecer e recordar que a Venezuela se encontra em meio a uma complexa emergência humanitária", explica Pedro Javier Fernández, membro da equipe Médicos Unidos pela Venezuela.

"Todos os nossos hospitais carecem de suprimentos e medicamentos", prossegue ele.

"Não conseguimos oferecer assistência médica à nossa população em um dia normal. Agora, com esta tragédia, a emergência é ainda maior e mais difícil de enfrentar do que em outros países."

Na quinta-feira (25/6), o Ministério da Saúde da Venezuela garantiu ter ativado uma rede de oito hospitais públicos na região metropolitana de Caracas, que contempla a maior parte das zonas afetadas. A eles se somaram pelo menos 10 clínicas privadas para atender à população.

Mas, ainda assim, os centros de saúde estão em colapso e sem recursos.

Gráfico dos terremotos na Venezuela
Gráfico dos terremotos na Venezuela
Foto: BBC News Brasil

Levar os próprios suprimentos médicos

O médico Franklin Rodríguez, normalmente, trabalha em Caracas. Mas ele viajou 30 km para oferecer sua ajuda em La Guaira, a região mais afetada pelos terremotos.

"Existe falta crítica de medicamentos e suprimentos médicos", declarou ele ao programa Today, da BBC Rádio 4.

"Os centros médicos não têm capacidade de atender o enorme volume de pessoas. E muitas delas continuam presas embaixo dos escombros."

Rodríguez comentou que ele e seus colegas médicos enfrentam uma situação desesperadora. Ele conta que os principais hospitais do Estado de La Guaira estão "completamente lotados".

O leitor Carlos V. escreveu para a BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC), denunciando que, no Hospital Dr. Lino Arévalo de Tucacas (uma das cidades afetadas pelos terremotos), "não há nem mesmo um band-aid".

Em Caracas, a situação é parecida. A imprensa venezuelana noticiou que os centros médicos pedem aos pacientes que levem seus próprios suprimentos, em meio à situação de emergência.

Pessoas feridas com as pernas engessadas permanecem no lado externo do hospital Domingo Luciani de Caracas, no dia 25 de junho de 2026, após os dois terremotos que sacudiram a capital venezuelana
Pessoas feridas com as pernas engessadas permanecem no lado externo do hospital Domingo Luciani de Caracas, no dia 25 de junho de 2026, após os dois terremotos que sacudiram a capital venezuelana
Foto: Juan BARRETO/AFP via Getty Images / BBC News Brasil

"Os hospitais estão em colapso. Não têm quase nada", explica Jennifer Hidalgo ao portal de notícias venezuelano Efecto Cocuyo. "Eles me pediram bacitracina [antibiótico], Gerdex [desinfetante] para os pontos e gaze."

"Eles me pediram para trazer até os analgésicos. Não consigo comprar nada disso, não tenho nada."

Hidalgo conta que sua sobrinha "ficou sob os escombros e foi encontrada de madrugada. Ela não sente as pernas, levou pontos nos glúteos, está nua, não tem roupa e não tem nada."

Ela levou sua sobrinha à Unidade de Emergências do Hospital Domingo Luciani em El Llanito, a leste de Caracas.

Um médico daquele hospital contou à agência de notícias AFP, em condição de anonimato, que "algumas crianças dizem seus nomes e outras chegam com uma fita de identificação no braço".

Fontes daquele centro de saúde declararam precisar urgentemente de gazes, luvas e máscaras, além de bisturis, aventais para cirurgiões e torneiras três vias.

Problema antigo

Todas estas declarações surgiram em meio à tragédia, mas poderiam muito bem ter ocorrido alguns meses atrás.

Em abril, a Federação Médica Venezuelana (FMV) declarou que "90% dos hospitais do país estão desabastecidos e abandonados".

A última Pesquisa Nacional de Hospitais, de 2024, concluiu que o índice de desabastecimento de material cirúrgico era de 74%. Além disso, apenas 4 a cada 10 salas de cirurgia, em média, estavam em funcionamento.

O mesmo estudo detalha que, em 46% dos hospitais, "são solicitados pagamentos extraoficiais aos pacientes para poder atendê-los", o que contraria o princípio de gratuidade da saúde pública.

Em 2025, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos alertava sobre a crise que atravessavam os serviços públicos venezuelanos.

Segundo a organização, 91% dos hospitais pesquisados, entre janeiro e julho daquele ano, exigiram que os pacientes levassem seus próprios suprimentos médicos para realizar cirurgias.

Uma mulher contou ter recebido um pedido para que levasse os próprios suprimentos, ao ser internada no Hospital Domingo Luciani, em Caracas (em imagem de quinta-feira, 25/6, um dia depois dos terremotos)
Uma mulher contou ter recebido um pedido para que levasse os próprios suprimentos, ao ser internada no Hospital Domingo Luciani, em Caracas (em imagem de quinta-feira, 25/6, um dia depois dos terremotos)
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Com esta situação, os pacientes e seus familiares precisam providenciar desde cobertores até água potável e medicamentos.

A crise já existente obrigava os familiares dos pacientes a recorrer a farmácias externas. Agora, esta situação também se observa em meio à tragédia causada pelos terremotos.

A ONG Provea registrou em 2025 um total de 94.056 denúncias de usuários do sistema de saúde, por descumprimento de garantias.

O principal motivo dos protestos (51,5%) foi a falta de pessoal qualificado, ausência de insumos básicos ou cirúrgicos e a equipamentos médicos essenciais fora de operação.

O segundo motivo foram as denúncias de falta de acessibilidade aos serviços devido a cobranças e à falta de água e eletricidade.

Sem pessoal

Some-se a isso a falta de pessoal.

Mais de oito milhões de venezuelanos abandonaram o país nos últimos anos, devido à crise econômica, política e social. E, é claro, esta situação também afetou os profissionais de assistência médica.

Dados da FMV de 2023 indicam que mais de 42 mil profissionais de assistência médica emigraram do país.

"Os médicos e profissionais de saúde ganham salários miseráveis e, em resposta às exigências socioeconômicas, o governo viola seus direitos trabalhistas, negando-se a discutir a contratação coletiva", declarou, na época, o presidente da FMV, Douglas León Natera.

Ainda assim, ele garantiu que os baixos salários e a "perseguição do governo contra os trabalhadores" levou à "demissão em massa" e à migração de médicos de todas as especialidades.

Assistência médica na rua em Morón, no Estado venezuelano de Carabobo, após o terremoto
Assistência médica na rua em Morón, no Estado venezuelano de Carabobo, após o terremoto
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Também em 2023, León Natera denunciou falta constante de água e energia elétrica nos hospitais, além de medicamentos, equipamento cirúrgico, macas e manutenção dos elevadores.

Esta mesma realidade pode ser constatada há anos. E 2014 foi o auge da situação, que já era crítica e se agravou após as pressões econômicas dos Estados Unidos sobre a Venezuela.

Precisamente agora, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou a suspensão de parte das sanções sobre a Venezuela, para permitir operações relacionadas aos trabalhos de assistência após o duplo terremoto.

Isso permitirá, por exemplo, a realização de transferências bancárias para o país, o que é essencial para o envio de ajuda após a catástrofe.

Ajuda internacional

Logo após a ocorrência dos terremotos, socorristas do país relataram que inúmeras pessoas permaneciam soterradas.

Z. morou toda a sua vida em La Guaira. Da Espanha, ele conta à BBC News Mundo que, na sua região, existem famílias embaixo dos escombros. Elas são ouvidas, mas ainda não foram resgatadas.

Os trabalhos de busca são limitados pela falta de equipamentos especializados para intervir em estruturas que desmoronaram. Isso fez com que os organismos de emergência trabalhassem com recursos insuficientes para lidar com a magnitude da tragédia.

Quem está tentando liberar as pessoas são voluntários, usando o que tiverem por perto, incluindo suas próprias mãos.

"Os socorristas não dão conta", segundo o estudante Antoan Marín, de Caracas. "Eles estão retirando as pessoas com unhas e dentes."

"Eles não têm máquinas especializadas. Precisamos de ajuda."

Em meio a tanta penúria, a ajuda externa está chegando de diferentes lugares, como o México, o Chile, a Suíça e a Turquia.

No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou o envio de uma missão humanitária com bombeiros, técnicos da Defesa Civil e da Anatel, além de nove toneladas de equipamentos de resgate.

Neste sábado (27/6), o país envia um terceiro voo humanitário à Venezuela, com kits de medicamentos e o módulo complementar para a instalação de um hospital de campanha.

"Seguiremos acompanhando o desenvolvimento dos trabalhos de socorro às vítimas para prestar todo o apoio necessário aos nossos irmãos venezuelanos", afirmou o presidente brasileiro no X (antigo Twitter).

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