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EUA aprovam 'droga viva', 1ª terapia contra câncer que reestrutura sistema imunológico do paciente

Autoridades americanas liberam tratamento que reestrutura sistema imunológico do paciente através de alterações genéticas em células sanguíneas para combater leucemia.

31 ago 2017
10h03
atualizado às 11h11
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Os Estados Unidos aprovaram o primeiro tratamento que reestrutura o sistema imunológico do paciente para atacar o câncer.

A agência reguladora de medicamentos do país - a FDA - diz que a decisão foi um momento "histórico" e que a medicina agora "entra em uma nova fronteira".

Kymriah é droga que usa tecnologia da imunoterapia para tratar o câncer
Kymriah é droga que usa tecnologia da imunoterapia para tratar o câncer
Foto: Novartis / BBCBrasil.com

A companhia Novartis cobra US$ 475 mil (R$ 1,5 milhão) pela terapia da "droga viva", que deixa 83% das pessoas livres de um tipo de câncer no sangue.

A droga é fabricada sob medida para cada paciente, ao contrário de terapias convencionais contra o câncer, como a cirurgia e a quimioterapia.

Chama-se CAR-T e é feita a partir da extração de leucócitos - glóbulos brancos - do sangue do próprio paciente.

Os leucócitos são então geneticamente reprogramados para serem capazes de buscar e matar o tumor.

As células modificadas são, então, reinseridas no paciente e, quando encontram o alvo, se multiplicam.

'Extremamente emocionante'

Scott Gottlieb, do FDA, afirmou: "Estamos entrando numa nova fronteira na inovação médica com a habilidade de reprogramar as células do próprio paciente para atacar um câncer mortal".

"Novas tecnologias tais como as terapias genéticas e celulares têm o potencial de transformar a medicina e criar um ponto de inflexão em nossa capacidade de tratar e até curar muitas doenças intratáveis".

A terapia, que será comercializada pelo nome Kymriah, será usada contra a leucemia linfoblástica aguda.

A maioria dos pacientes responde à terapia tradicional, e o Kymriah foi aprovado para o caso de doentes que não respondem ao tratamento.

Stephan Grupp, que tratou da primeira criança com o CAR-T no Hospital das Crianças na Filadélfia, diz que a nova terapia respondeu de forma "extremamente emocionante".

"Nunca tínhamos visto algo assim antes", acrescentou.

O primeiro paciente a se beneficiar do tratamento chegou perto de morrer, mas está livre do câncer há mais de cinco anos.

Dos 63 pacientes tratados com a terapia CAR-T, 83% entraram em remissão em um prazo de três meses, e informações de longo prazo ainda estão sendo coletadas.

No entanto, a terapia tem riscos. Ela pode causar a síndrome da liberação de citocinas, uma condição grave causada pela rápida proliferação das células CAR-T no corpo. Ela pode ser controlada com o uso de drogas.

Nova era

Mas o potencial tecnológico do CAR-T vai além de apenas um tipo de câncer.

David Maloney, diretor médico de imunoterapia celular do Centro de Pesquisa de Câncer Fred Hutchinson, afirmou que a decisão da FDA foi um "marco".

"Acreditamos que este é apenas o primeiro de vários novos tratamentos com base em imunoterapia para uma variedade de tipos de câncer".

A tecnologia CAR-T se mostrou promissora contra diferentes tipos de câncer sanguíneo.

No entanto, ela não tem apresentado resultados tão promissores contra "tumores sólidos" como o câncer de pulmão ou de pele.

"Os resultados não foram tão incríveis quando você o compara com o da leucemia linfoblástica aguda, mas tenho certeza que a tecnologia irá melhorar num futuro próximo", afirmou Prakash Satwani, um oncologista pediátrico da Universidade Médica de Columbia, nos Estados Unidos.

Estimular o sistema imunológico já é uma das estratégias básicas dos tratamentos modernos de câncer.

Uma variedade de drogas que "retira o freio" do sistema imunológico para fazê-lo atacar o tumor já vem sendo adotada ao redor do mundo.

A tecnologia CAR-T, que dá um passo adiante e reestrutura o sistema imunológico, está num estágio mais inicial.

Peter Johnson, o diretor médico da ONG Cancer Research UK, afirmou: "A primeira terapia celular geneticamente modificada a ser aprovada pelo FDA é um importante avanço".

"Ainda temos muito a aprender sobre como usá-la com segurança e sobre quem pode tirar proveito dela, então é importante reconhecer que este é apenas o primeiro passo."

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