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Saúde

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É possível comer ultraprocessados e se manter saudável? O que nutricionista diz sobre meu carrinho de compras

Os alimentos ultraprocessados estão associados a uma série de problemas de saúde. Mas cientistas, médicos e nutricionistas ainda não chegaram a um consenso sobre o motivo.

27 set 2026 - 15h09
(atualizado às 15h14)
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Resumo
Embora o consumo de ultraprocessados esteja associado a problemas crônicos de saúde, especialistas afirmam que o medo em torno desses itens é excessivo. Para nutricionistas, uma longa lista de ingredientes não torna o alimento inerentemente ruim, sendo o valor nutricional geral e o equilíbrio da dieta mais relevantes que o grau de processamento isolado. Cientistas debatem se o dano real vem do processamento ou do excesso de sal, açúcar e gordura, defendendo o consumo com moderação.
Um carrinho de supermercado cheio de compras
Um carrinho de supermercado cheio de compras
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Ir ao supermercado virou um campo minado.

Estou no corredor 15, lendo longas listas de ingredientes e me preocupando se o que está no meu carrinho é bom para mim ou não.

Há cada vez mais evidências de que uma parcela considerável dos alimentos que consumimos pode ser prejudicial à nossa saúde, com os alimentos ultraprocessados associados a uma série de problemas de saúde.

Mas já chega de ficar na dúvida e entrar em pânico achando que estou envenenando meu filho se der nuggets de frango para ele comer, então entreguei minha lista de compras para uma nutricionista analisar.

Mas tudo depende da classificação utilizada. De forma geral, os alimentos ultraprocessados são produtos industriais que passam por várias etapas de processamento e costumam conter ingredientes e aditivos que não são normalmente usados em uma cozinha doméstica — como emulsificantes, aromatizantes, corantes e adoçantes.

A classificação mais utilizada em pesquisas sobre o tema, conhecida como NOVA, não define um alimento como ultraprocessado simplesmente pelo número de ingredientes que ele contém.

O que importa é a combinação entre o grau de processamento e o tipo de ingredientes e aditivos empregados na formulação.

Existe um conjunto amplo e crescente de evidências associando o consumo elevado de alimentos ultraprocessados a uma série de problemas de saúde, incluindo obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes e outros distúrbios metabólicos. Estudos também investigam possíveis associações com problemas de saúde mental e maior risco de morte prematura.

Mas cientistas, médicos e nutricionistas ainda não chegaram a um consenso sobre o motivo. Será que os efeitos se devem apenas ao alto teor de gordura, açúcar, sal e calorias? Ou o próprio ultraprocessamento também desempenha um papel?

Estudos mostram que mais da metade das calorias consumidas no Reino Unido vêm de alimentos ultraprocessados. O médico Chris van Tulleken escreveu livros e produziu documentários sobre os possíveis efeitos prejudiciais desses alimentos. Ele me disse que são "quase impossíveis de evitar" — até mesmo a dieta de sua própria família inclui alguns deles.

E minha própria lista de compras também não está livre de alimentos ultraprocessados.

Maeve Hanan, membro da Associação Britânica de Dietética, faz uma pausa enquanto examina alguns itens da minha lista de compras semanal (havia mais frutas e verduras, acredite) e aponta para uma caixa de cereais.

"Este produto é ultraprocessado, mas costumo comprá-lo para a minha família. Ele traz muitos benefícios para a saúde."

Hanan afirma que existe uma "histeria crescente" em torno dos alimentos ultraprocessados.

"Principalmente porque a mensagem em torno deles é muito preto no branco", diz ela. "Esta comida é boa. Esta comida é ruim."

"Isso só alimenta o medo. E medo em relação à comida nunca é bom."

Até mesmo os ingredientes com nomes mais químicos presentes nos nuggets de frango são testados e aprovados de acordo com as leis alimentares do Reino Unido.
Até mesmo os ingredientes com nomes mais químicos presentes nos nuggets de frango são testados e aprovados de acordo com as leis alimentares do Reino Unido.
Foto: BBC News Brasil

Então, qual é a avaliação dela sobre minhas compras no supermercado?

Não é tão ruim quanto eu esperava, para meu alívio. Embora haja alguns alimentos ultraprocessados, isso não significa necessariamente que minha lista de compras seja composta por alimentos pouco saudáveis. Na verdade, Hanan afirma que "há uma boa variedade de alimentos que abrangem todos os grupos alimentares".

O simples fato de alguns produtos terem uma longa lista de ingredientes não os torna "inerentemente ruins", explica ela. O valor nutricional é "muito mais importante".

E quanto aos alimentos que contêm ingredientes cujos nomes mal consigo pronunciar — quanto mais reconhecer? Hanan usa como exemplo os nuggets de frango que compro para meu filho.

"Existem vitaminas e minerais que, por lei, os fabricantes no Reino Unido são obrigados a adicionar à farinha de trigo branca, como carbonato de cálcio, niacina e tiamina", diz ela.

Agentes de fermentação, como o difosfato dissódico, são usados juntamente com o bicarbonato de sódio para deixar a massa mais leve e crocante.

Hanan afirma que até mesmo ingredientes com nomes que parecem mais químicos terão sido testados e aprovados de acordo com as leis alimentares do Reino Unido.

"Mas, embora os nuggets de frango sejam uma boa fonte de proteína", ela alerta, "eles têm mais gordura e sal do que um simples peito de frango, então eu os consumiria com moderação, como parte de uma dieta equilibrada."

Digo a Hanan que meu filho geralmente come os nuggets com palitos de cenoura crua e macarrão.

"Um único alimento não torna sua dieta saudável ou não saudável", diz ela. "O importante é encontrar esse equilíbrio ao longo do tempo."

Cereais coloridos embalados em sacos transparentes e empilhados.
Cereais coloridos embalados em sacos transparentes e empilhados.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Megan Bamford acredita que eliminar os alimentos ultraprocessados de sua dieta a ajudou a controlar a síndrome do intestino irritável e a dor crônica.

Mas agora, como mãe de duas crianças pequenas, cozinhar tudo do zero nem sempre é viável. Sua filha mais velha, Ella, de sete anos, tem dificuldades alimentares desde pequena.

"Nem sempre é fácil alimentar os filhos com aquilo que achamos que eles deveriam comer", diz Megan. "No passado, Ella chegou a ficar doente por causa de sua alimentação extremamente seletiva — não tivemos escolha a não ser dar a ela alimentos ultraprocessados industrializados."

Megan eliminou os alimentos ultraprocessados para cuidar da própria saúde, mas prioriza as opções mais saudáveis disponíveis para os filhos.
Megan eliminou os alimentos ultraprocessados para cuidar da própria saúde, mas prioriza as opções mais saudáveis disponíveis para os filhos.
Foto: Megan Bamford / BBC News Brasil

Assim, a cozinha de Megan ainda está cheia de frutas, legumes, sementes e aveia, mas agora também há cereais matinais, batatas fritas, biscoitos e outros alimentos processados.

Ela procura alimentos com cinco ingredientes ou menos.

"A maioria dos salgadinhos, pizzas e cereais que compro não é comida ultraprocessada", diz ela. "Estou satisfeita com isso. Alimento meus filhos da melhor maneira possível e escolho as opções mais saudáveis que encontro."

Embora muitos alimentos ultraprocessados sejam ricos em gordura, açúcar e sal, que sabemos que causam uma série de problemas de saúde, alguns cientistas afirmam que ainda não se compreende totalmente o impacto do processamento nos alimentos.

O autor e cientista de alimentos Prof. David Julian McClements afirma que a "ideia de alimento ultraprocessado não está muito bem definida".

"Focar no processamento é um pouco uma distração", diz ele. "Não acho que esse seja o principal problema aqui."

Alguns estudos sugerem que, quanto mais processado é um alimento, mais fácil pode ser consumi-lo em excesso. Outros associam o consumo de alimentos ultraprocessados a alterações na nossa microbiota intestinal. Mas McClements afirma que não há evidências conclusivas de que essas alterações, por si só, sejam necessariamente prejudiciais à nossa saúde.

Mas, considerando que ele trabalha com a indústria alimentícia, será que tem algum interesse pessoal nessa questão?

"Qualquer cientista de alimentos bem-sucedido trabalha muito com a indústria alimentícia", diz McClements. "E acho que tentar eliminar os alimentos ultraprocessados está atrasando a inovação."

Muitos de nós levamos vidas agitadas, diz ele, e a conveniência é uma parte fundamental da sociedade.

"O que eu quero fazer é reformular os alimentos processados para torná-los mais saudáveis", diz ele.

Especialistas pedem uma rotulagem mais clara dos cereais ultraprocessados com alto teor de gordura, açúcar e sal.
Especialistas pedem uma rotulagem mais clara dos cereais ultraprocessados com alto teor de gordura, açúcar e sal.
Foto: BBC News Brasil

Quando mencionei isso a Van Tulleken, ele fez uma pausa. Ele acabara de me mostrar o alto teor de açúcar de vários cereais matinais, enquanto segurava uma caixa vazia de um cereal muito açucarado e com sabor de chocolate. Senti uma pontada de culpa, sabendo que meu filho de sete anos consegue comer várias tigelas de uma só vez.

"Os alimentos ultraprocessados são saborosos, irresistíveis e essa é a ideia", diz Van Tulleken. "Claro, podemos tornar os alimentos ultraprocessados mais saudáveis, mas aí eles não seriam tão gostosos."

"As empresas alimentícias sabem muito bem como produzir alimentos saudáveis. O motivo pelo qual não o fazem é porque isso não é lucrativo."

Ele afirma que há cada vez mais evidências de que o processamento industrial dos alimentos afeta nossa saúde e que as empresas controlam o mercado de alimentos de uma forma "muito prejudicial".

"O que precisamos, para começar, é de uma melhor rotulagem dos alimentos, para sabermos quais têm alto teor de gordura, açúcar e sal — nutrientes que sabemos estarem associados a problemas de saúde — e isso representa a maioria dos alimentos ultraprocessados."

A Federação de Alimentos e Bebidas, que representa os fabricantes de alimentos e bebidas no Reino Unido, discorda veementemente das afirmações de van Tulleken. A entidade afirma ter investido milhões de libras "em inovação para produzir alimentos mais saudáveis" e que seus membros "reduziram o sal, o açúcar e as calorias de seus produtos em quase um quinto apenas nos últimos cinco anos".

"Este trabalho", afirma a federação, "foi realizado em conformidade com a regulamentação governamental e as orientações dietéticas, que se concentram no conteúdo nutricional dos alimentos, e não no nível de processamento."

Diversos biscoitos.
Diversos biscoitos.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Então, enquanto coloco quatro nuggets de frango no prato do meu filho — junto com as cenouras e o macarrão — não sinto a vergonha e o pânico de sempre. Ele é um menino ativo, não come nuggets todas as noites e já se alimentou de uma variedade de alimentos ao longo do dia.

Ele me dá um sorriso. "Este é o melhor jantar de todos os tempos, mamãe", diz ele.

Um dia, tenho certeza de que ele comerá menos alimentos sem graça, mas, por enquanto, ele está saudável (espero) e feliz.

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