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Kafka e a vergonha de não servir mais: psicóloga revela o que isso diz sobre nós

Você já sentiu que seu valor depende do que consegue entregar? Entenda a relação entre a vergonha de não ser útil e a obra de Kafka.

27 set 2026 - 14h00
(atualizado às 14h03)
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Resumo
A psicóloga Carolina Michelini analisa A Metamorfose, de Kafka, para discutir a relação contemporânea entre produtividade e autoestima. A angústia do protagonista ao virar inseto reflete o medo moderno de perder a utilidade e ser substituído. Em uma sociedade focada em metas e desempenho, parar por doença, demissão ou exaustão gera culpa e retraimento, expondo a dolorosa crise de identidade que surge quando o valor individual é condicionado apenas àquilo que se é capaz de produzir e entregar.

Imagine acordar amanhã e descobrir que, por algum motivo, você não consegue mais trabalhar, cuidar da casa, ajudar a família ou cumprir aquilo que todos esperam de você. O que seria mais difícil: lidar com a mudança ou sentir que você deixou de ser necessário?

Franz Kafka, autor de A Metamorfose, e a psicóloga Carolina Michelini, que reflete sobre a vergonha de não se sentir mais útil a partir da obra.
Franz Kafka, autor de A Metamorfose, e a psicóloga Carolina Michelini, que reflete sobre a vergonha de não se sentir mais útil a partir da obra.
Foto: SaúdeLab / SaúdeLAB

É uma pergunta incômoda, mas ela ajuda a entender uma das leituras possíveis de A Metamorfose, de Franz Kafka, feita pela psicóloga e escritora Carolina Michelini.

No livro, Gregor Samsa acorda transformado em um inseto. Mas, antes mesmo de tentar entender o que aconteceu com seu próprio corpo, ele pensa no trabalho, no atraso, no chefe e nas cobranças.

Para Michelini, esse detalhe é fundamental. A maior preocupação de Gregor, naquele momento, não é compreender a própria transformação, mas descobrir como vai justificar que não poderá trabalhar.

A transformação, então, não cria de repente o problema de Gregor. Ela revela algo que já existia. Ele era o responsável por sustentar a família e havia construído sua vida em torno dessa função.

"Enquanto ele produzia, era tolerado; enquanto sustentava a casa, era necessário", afirma a psicóloga.

Quando produzir passa a definir quem você é

A interpretação de Michelini vai além da história de Kafka. Ela relaciona a situação de Gregor a uma experiência bastante atual, que é a sensação de que nosso valor depende daquilo que conseguimos entregar.

É fácil reconhecer essa lógica no cotidiano. Há quem se sinta culpado por descansar, angustiado quando não consegue cumprir uma tarefa ou fracassado depois de uma queda de produtividade.

Gregor, segundo a psicóloga, já estava exausto antes da metamorfose. Trabalhava em excesso, viajava constantemente e suportava as humilhações do chefe para pagar as dívidas da família.

"Ele não vive para si, ele funciona para os outros", diz Michelini.

A ideia pode parecer distante da realidade de quem nunca imaginou acordar transformado em um inseto. Mas a pergunta por trás da história é bastante familiar: quem somos quando deixamos de conseguir fazer aquilo que sempre fizemos?

A vergonha de não conseguir mais corresponder

Gregor começa a se esconder e evita ser visto. Na leitura de Michelini, isso também revela a vergonha de não corresponder mais às expectativas.

"Não há revolta, há retraimento", afirma.

É nesse ponto que a história pode encontrar o leitor de hoje. Não é preciso passar por uma transformação fantástica para sentir algo parecido.

"Você não precisa se transformar em inseto para sentir isso. Basta adoecer, basta fracassar, basta parar," destaca a psicóloga.

Uma doença, uma demissão, um fracasso profissional ou simplesmente um período em que não se consegue dar conta de tudo podem mexer com a maneira como uma pessoa enxerga a si mesma.

A questão deixa de ser apenas "o que eu consigo fazer?" e passa a ser "quem sou eu quando não consigo fazer?".

O medo de se tornar substituível

Depois que Gregor deixa de trabalhar, a família precisa se reorganizar. Outros passam a trabalhar e a casa continua funcionando. Aos poucos, ele se torna dispensável dentro da própria casa.

Para Michelini, esse momento toca em um medo que pode existir muito além da ficção: o de descobrir que, se você parar, alguém ocupará rapidamente o seu lugar.

"Kafka confronta o medo que poucos admitem: o medo de ser substituível", afirma.

A psicóloga relaciona esse medo a uma cultura que valoriza desempenho, currículo, metas, produtividade e visibilidade. Quando ser útil deixa de ser apenas uma forma de contribuir e passa a funcionar como condição para se sentir valorizado, parar pode provocar culpa e vergonha.

Por isso, a pergunta levantada por Michelini a partir de Kafka permanece atual: se você deixasse de ser útil amanhã, ainda reconheceria valor em si mesmo?

A força de A Metamorfose talvez esteja justamente aí. A história não precisa de uma transformação fantástica para provocar identificação. Basta pensar em como seria adoecer, fracassar, perder o emprego ou simplesmente não conseguir dar conta de tudo por algum tempo.

Carolina Michelini é psicóloga e escritora e publicou essa reflexão no canal Clube de Leitura Ler-Se, no YouTube, ao abordar a relação entre Kafka e a vergonha de não servir mais.

Fonte: SaúdeLAB
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