Cientistas pedem cautela sobre polilaminina, molécula testada no tratamento de lesões medulares
Em editorial conjunto, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e Academia Brasileira de Ciências apontam lições com a repercussão da pesquisa
Nas últimas semanas, a polilaminina, molécula desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para tratar lesões medulares, ganhou destaque na mídia e nas redes sociais. Cientistas, no entanto, pedem cautela e alertam para o risco de se confundir uma pesquisa ainda em fase experimental com um medicamento de aplicação clínica já consolidado.
"Nesse contexto, controvérsias científicas e institucionais não devem ser tratadas como anomalias, mas como parte inerente do funcionamento do sistema científico. Divergências metodológicas, questionamentos sobre evidências, debates sobre protocolos experimentais e discussões sobre validação são inerentes ao processo científico, especialmente em áreas inovadoras e de alta complexidade. O que o caso revela é a necessidade de fortalecer os mecanismos institucionais de avaliação científica, revisão por pares, transparência metodológica e governança da pesquisa, evitando que disputas científicas migrem prematuramente para arenas midiáticas ou judiciais sem a devida mediação técnico-científica", escrevem.
Elas também defendem que é preciso deixar mais clara a diferença entre pesquisa básica, evidências já consolidadas e aplicação clínica e que há uma responsabilidade direta na forma como essas informações são comunicadas ao público, para evitar confusões ou interpretações equivocadas.
O editorial enfatiza ainda a necessidade de fortalecimento da medicina translacional, afirmando que, por mais que o Brasil tenha tradição na pesquisa básica, ainda carece de mecanismos que integrem universidades, hospitais e outras instituições.
"Mais do que uma controvérsia científica específica, a trajetória da polilaminina revela virtudes e fragilidades estruturais do modelo brasileiro de inovação em saúde. Entre as virtudes, destacam-se a capacidade científica instalada, o protagonismo das instituições públicas de pesquisa e o avanço institucional na proteção do conhecimento. Entre as fragilidades, evidenciam-se os desafios na validação clínica, na gestão estratégica da propriedade intelectual, na comunicação científica e na articulação entre ciência, regulação e inovação produtiva", diz o editorial. Leia aqui o texto na íntegra.