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Câncer colorretal: entenda o impacto do consumo de ultraprocessados na saúde intestinal

Especialista fala sobre prevenção, fatores de risco e esclarece mitos e verdades sobre a doença

17 mar 2026 - 17h45
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Março é marcado pela campanha Março Azul-Marinho, período dedicado à conscientização e prevenção do câncer colorretal (CCR). A doença, que atinge o cólon e o reto, apresenta um dado alarmante para a saúde pública: a maioria dos casos está associada a hábitos modificáveis, como o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, o tabagismo e o sedentarismo.

Rastreamento precoce e hábitos saudáveis aumentam a chance de cura e reduzem mortes por câncer colorretal
Rastreamento precoce e hábitos saudáveis aumentam a chance de cura e reduzem mortes por câncer colorretal
Foto: sasirin pamai | Shutterstock / Portal EdiCase

Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de São Paulo e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), publicado no American Journal of Preventive Medicine, reforça esse alerta: a cada 10% de aumento na ingestão de ultraprocessados, o risco de morte prematura sobe 3%. Os autores recomendam que governos adotem medidas regulatórias e fiscais para facilitar escolhas mais saudáveis pela população.

"Os principais fatores de risco são o consumo elevado de carnes vermelhas processadas, a baixa ingestão de fibras, obesidade e alcoolismo, além do histórico familiar. É fundamental realizar campanhas intensas para alertar a população", ressalta Ricardo Dib, gastroenterologista do Lavoisier e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva (Sobed).

Ultraprocessados e impacto na saúde

Segundo Ricardo Dib, o cenário global enfrenta um desafio crescente devido à urbanização. A disseminação de alimentos industrializados de baixo custo nas grandes cidades criou uma "armadilha" nutricional que contribui diretamente para o aumento da obesidade e, consequentemente, dos tumores no aparelho digestivo.

"No mundo todo, as cidades absorveram hábitos alimentares nocivos. Hoje, produtos de alto teor calórico e ultraprocessados são acessíveis e sedutores pelo preço. Esse consumo desenfreado é o que causou o aumento absurdo da obesidade, um cenário que precisamos reverter para prevenir a doença", afirma o gastroenterologista.

Câncer colorretal atinge cada vez mais jovens

Historicamente associado a idosos, o câncer colorretal tem avançado sobre adultos jovens. Um estudo de 2025 da revista The Lancet Oncology, chamado "Colorectal cancer incidence trends in younger versus older adults: an analysis of population-based cancer registry data", confirmou essa tendência em 27 das 50 nações analisadas. "A adoção precoce de maus hábitos está antecipando o surgimento da doença", pontua Ricardo Dib.

O especialista explica que a educação e a visibilidade são os melhores caminhos para a prevenção. Ele menciona que a exposição de casos de figuras públicas, como o da cantora Preta Gil, ajuda a ampliar o alcance da informação e o interesse da população pelo diagnóstico preventivo.

De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer colorretal é o segundo mais frequente entre homens e mulheres no Brasil. Para o triênio de 2026 a 2028, estimam-se 53.810 novos casos anuais, o que representa um risco de aproximadamente 25 casos por 100 mil habitantes.

Diagnóstico e prevenção da doença

A detecção precoce é possível por meio de exames como a colonoscopia, que permite identificar e remover pólipos antes que se tornem malignos. Além do rastreamento, a adoção de uma dieta rica em fibras e a prática regular de exercícios são as principais recomendações para a saúde intestinal.

Dados da Fundação Nacional do Câncer mostram que o rastreamento reduz a mortalidade pela doença em cerca de 30%. Ricardo Dib alerta que esperar pelos sintomas é perigoso: "Confiar apenas em sinais como sangramento ou dor abdominal é arriscado, pois geralmente indicam doença avançada. Nesses casos, a sobrevida em cinco anos é de apenas 15%, enquanto 90% dos diagnosticados precocemente atingem essa marca".

A recomendação atual é que pessoas de ambos os sexos realizem exames preventivos a partir dos 45 ou 50 anos. Em pessoas com histórico familiar ou predisposição genética, o rastreamento deve ser antecipado e personalizado.

Sinais como sangue nas fezes ou alterações no intestino exigem avaliação médica, pois podem indicar câncer colorretal ou outras condições
Sinais como sangue nas fezes ou alterações no intestino exigem avaliação médica, pois podem indicar câncer colorretal ou outras condições
Foto: 9dream studio | Shutterstock / Portal EdiCase

Mitos e verdades sobre câncer colorretal

A seguir, confira 10 mitos e verdades sobre o câncer colorretal, assim como os sintomas, os riscos e a prevenção da doença.

1. A doença é silenciosa em sua fase inicial

Verdade. O tumor pode se desenvolver sem alarde. Quando os sintomas aparecem — como sangue nas fezes, anemia e mudanças repentinas no hábito intestinal (diarreia ou prisão de ventre) —, a doença pode estar em estágio mais avançado. Vale o alerta: esses sinais também aparecem em condições benignas, por isso a investigação médica é indispensável.

2. Afeta apenas pessoas acima dos 50 anos

Mito. Embora a incidência seja maior após os 50, o diagnóstico em jovens tem crescido. Histórico familiar e exposição a fatores de risco podem antecipar o surgimento da doença.

3. A etnia influencia no risco

Verdade. Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) indicam que judeus de origem europeia oriental (asquenazes) possuem risco elevado. Estatísticas também apontam maior incidência e mortalidade entre a população negra, embora as causas exatas ainda sejam objeto de estudo.

4. Mudança de hábitos previne a doença

Verdade. Diferentemente da genética, o estilo de vida é um fator controlável. Estima-se que 50% a 75% dos casos seriam evitados com uma dieta rica em vegetais, redução de carnes vermelhas e processadas (embutidos), prática de exercícios e abandono do tabagismo.

5. Alimentação é o único fator de risco

Mito. Ela é crucial, mas não isolada. O consumo excessivo de álcool e o tabagismo são vilões conhecidos que potencializam as chances de mutações celulares no intestino.

6. A obesidade é um agravante

Verdade. O excesso de peso gera um estado inflamatório no organismo que favorece diversos tipos de câncer, incluindo o colorretal. O sedentarismo e a má alimentação formam o cenário ideal para o desenvolvimento de tumores.

7. A colonoscopia é o único diagnóstico

Verdade. Ela é o "padrão-ouro". Diferentemente de outros exames, como a pesquisa de sangue oculto, a colonoscopia permite visualizar todo o cólon e remover pólipos antes que virem câncer. Exames como a sigmoidoscopia são auxiliares, mas não substituem a abrangência da colonoscopia.

8. O exame é doloroso ou constrangedor

Mito. Com o uso de sedação moderna, o paciente não sente dor e o procedimento é rápido (15 a 30 minutos).

9. Pólipo é sinônimo de câncer

MitoO pólipo é uma lesão benigna ou pré-cancerígena. Encontrá-lo é, na verdade, uma boa notícia: ao retirá-lo durante a colonoscopia, o médico interrompe o caminho que levaria à formação de um tumor futuro.

10. Todo paciente precisa de bolsa de colostomia

Mito. Graças ao avanço das técnicas cirúrgicas e tratamentos oncológicos, a colostomia (saída externa para fezes) é cada vez menos comum. Quando necessária, na maioria dos casos, é apenas temporária para permitir a cicatrização do intestino.

Por Bárbara Cheffer

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