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Brasil tem quase o dobro de crianças e adolescentes acima do peso do que média global

Se nada for feito, metade da população entre 5 e 19 anos estará com sobrepeso ou obesidade em 2040

4 mar 2026 - 17h14
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As crianças e os adolescentes com sobrepeso ou obesidade já representam 38,4% do total da população da faixa etária de 5 a 19 anos no Brasil, segundo dados do World Obesity Atlas 2026, elaborado pela Federação Mundial de Obesidade (World Obesity Federation ou WOF, na sigla em inglês) e divulgado nesta quarta, 4, Dia Mundial da Obesidade. Essa proporção chama a atenção por ser quase o dobro da média global de jovens acima do peso, que é de 20,7%.

São quase 17 milhões de crianças e adolescentes brasileiros acima do peso, sendo 7,5 milhões com obesidade. A obesidade infantil leva a condições semelhantes às observadas em adultos, incluindo hipertensão, doença cardiovascular, colesterol alto, hiperglicemia e doença hepática esteatótica (gordura no fígado).

A situação do Brasil não é diferente da observada em outros países com renda intermediária. Mas isso não significa que a insegurança alimentar foi superada. "A insegurança alimentar historicamente foi relacionada à desnutrição. Agora, existe alimento, só que o que se tem são os ultraprocessados, que não nutrem e levam ao ganho de peso. Então, você pode ter pessoas com desnutrição e obesidade ao mesmo tempo", explica o endocrinologista brasileiro Bruno Halpern, presidente eleito da WOF para o biênio 2027-2028.

"Nos países de baixa e média renda, a transformação da base da dieta, que vem migrando para alimentos baratos, ultraprocessados e pobres em nutrientes, atinge com mais força as crianças e as populações de menor nível socioeconômico", completa.

No contexto global, a obesidade superou o baixo peso e se tornou a forma mais comum de má nutrição entre crianças e adolescentes em quase todas as partes do mundo, de acordo com o relatório divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em setembro do último ano com dados de mais de 190 países. As exceções são a África Subsaariana e o Sul da Ásia.

  • As taxas de obesidade subiram de 3%, em 2000, para 9,4% em crianças e adolescentes em idade escolar no mundo, enquanto a prevalência de baixo peso caiu de quase 13% para 9,2%.

"Quando falamos de má nutrição, não falamos mais apenas de crianças com baixo peso", destaca a diretora-executiva do Unicef, Catherine Russell, em comunicado à imprensa. "A obesidade é uma preocupação crescente que pode afetar a saúde e o desenvolvimento infantil. Os ultraprocessados estão cada vez mais substituindo frutas, verduras e proteínas em um momento em que a nutrição tem papel fundamental no crescimento, no desenvolvimento cognitivo e na saúde mental das crianças."

Halpern pondera que a genética de boa parte da população brasileira também favorece o maior ganho de peso em comparação com a de outros países em desenvolvimento. As populações indiana e chinesa, por exemplo, são naturalmente mais protegidas contra o acúmulo excessivo de peso — embora isso não as livre automaticamente de desenvolver doenças metabólicas. "Com pouco ganho de peso já é possível ter diabetes e outras complicações", explica o médico.

Em 15 anos, cenário tende a piorar

A projeção para o País em 2040 é ainda mais preocupante: metade (50,4%) da população entre 5 e 19 anos estará com sobrepeso ou obesidade caso não haja uma intervenção e a tendência atual seja mantida.

  • Em 2025, 1,4 milhão de jovens apresentavam hipertensão atribuída ao excesso de peso. Para 2040, a estimativa é de 1,6 milhão.
  • No caso da hiperglicemia atribuída ao IMC elevado, o cálculo para 2025 era de 572 mil crianças e adolescentes afetados, com projeção de aumento para 635 mil em 2040.
  • Aproximadamente 1,8 milhão de jovens apresentavam triglicerídeos elevados associados ao sobrepeso ou obesidade em 2025, número que pode subir para 2,1 milhões até 2040.
  • Já a doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), também relacionada ao excesso de peso, apresenta números ainda mais expressivos: 4 milhões de casos estimados em 2025, contra 4,6 milhões em 2040.

O que fazer?

Segundo Halpern, o Atlas reconhece que o Brasil teve avanços importantes, como o fato de que todas as crianças em idade escolar, incluindo ensino fundamental e médio, recebem alimentação nas instituições públicas de ensino — um programa no qual praticamente não há ultraprocessados. Ainda sobre esse tipo de produto, cabe destacar que, embora seu consumo tenha aumentado no nosso País, ainda é menor do que em lugares como Estados Unidos e Inglaterra.

Por outro lado, mais da metade (54%) dos bebês de 1 a 5 meses estão expostos à amamentação inadequada e a grande maioria (84%) dos adolescentes brasileiros em idade escolar (11 a 17 anos) não cumprem as recomendações oficiais de atividade física.

Para frear o crescimento da obesidade infantojuvenil no País, é preciso combinar estratégias, como a redução da publicidade de ultraprocessados voltada ao público infantil, medidas para desestimular o consumo dessa categoria (como taxação de bebidas açucaradas e outros itens) e ações estruturais para melhorar o ambiente alimentar. Outras medidas são implementação das recomendações globais de atividade física para crianças, proteção do aleitamento materno e padrões mais saudáveis de alimentação escolar, além da integração da prevenção e do cuidado aos sistemas de atenção primária.

De todas essas ações de políticas públicas recomendadas pela entidade internacional, as de promoção da atividade física na educação infantil são a maior falha brasileira identificada no documento da WOF.

"O problema (obesidade) não começa no adulto, mas se forma ao longo do curso da vida e pode ser prevenido mais cedo, com sistemas mais justos e o reconhecimento da importância de fatores como desigualdade, estigma, acesso a cuidado e ambientes que não favorecem escolhas saudáveis", afirma o presidente da WOF.

Estadão
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