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Brasil precisa de lockdown para conter alta da covid-19?

Medida poderia ser adotada em locais mais críticos e com intervalos de reabertura; na Europa, restrição foi intensificada

7 jan 2021 - 10h10
(atualizado às 10h18)
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Com o aumento de infecções e óbitos por covid-19 no País, além da possibilidade de uma explosão de casos por causa das aglomerações no fim de ano, especialistas avaliam que a adoção do lockdown ajudaria a frear o avanço da doença, mas dizem que a solução não é factível no Brasil, tendo em vista a falta de um plano nacional e de liderança no âmbito federal para implantar as restrições.

Lockdown em Belém terminou na madrugada de domingo (24) mas recomendação de isolamento social será mantida
Lockdown em Belém terminou na madrugada de domingo (24) mas recomendação de isolamento social será mantida
Foto: RAIMUNDO PACCÓ/FRAMEPHOTO / Estadão Conteúdo

Na Europa, países que já estão vacinando a população intensificaram o confinamento e fecharam serviços considerados não essenciais. A preocupação aumentou com a detecção da nova variante da covid-19, que é mais contagiosa. No Brasil, o Estado do Amazonas (por força de uma ordem judicial) e a cidade de Belo Horizonte adotaram restrições ao funcionamento do comércio nesta semana, numa nova tentativa de barrar o avanço da doença nessas regiões.

Infectologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Julio Croda diz que a medida ajudaria a diminuir a curva ascendente de casos, mas que o lockdown não precisaria ser adotado no País todo.

"Isso poderia ser feito avaliando o cenário epidemiológico e taxa de ocupação de leitos de cada região. Acredito que é importante ter medidas restritivas, mas tem de ser analisado neste sentido. A Inglaterra e a Alemanha fizeram porque o cenário epidemiológico é semelhante em todo o país.

Croda, que também é professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e da Escola de Saúde Pública de Yale, afirma que, diante da postura que o governo federal vem adotando durante a pandemia, sem incentivo a medidas de isolamento, a proteção por meio da imunização parece ser mais possível do que restrições de circulação da população.

"Lockdown é elevar o isolamento para acima de 70% e o Brasil nunca teve isso. As pessoas só podem sair uma vez ao dia para ir ao supermercado ou hospital. Nossa esperança é a vacina. Não teve lockdown no começo, não é agora que vai ter sem apoio do governo federal."

A redução da mobilidade é algo mais viável do que o lockdown na visão do infectologista e Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, Carlos Magno Fortaleza. Ele, que integra o Centro de Contingência do Coronavírus do Estado de São Paulo, diz que o modelo praticado na Europa não foi feito no País e as tentativas não deram certo.

"As cidades brasileiras que tentaram, como Fortaleza e São Luís, falharam porque conseguiram fazer no centro, mas não nas periferias. Lockdown é ideal, mas não é factível no Brasil, não com restrições ativas. O que se tenta é restringir por modelos passivos, para a população não ter para onde ir, que é a fase vermelha (em São Paulo)."

Fortaleza diz que, dependendo da evolução de casos, é possível que a fase mais rígida volte a ser adotada no Estado. "Não está descartada a possibilidade de colocar todo o Estado em fase vermelha, mas não é algo que vai acontecer nesta semana. A depender do que aconteça nas próximas semanas, do resultado das festas, o fechamento dos serviços não essenciais é uma possibilidade não descartada com o crescimento abrupto e a chegada da variante inglesa." Segundo o infectologista, a indicação pode ser apresentada ao governador João Doria (PSDB) após a análise dos dados epidemiológicos e constatação da necessidade.

Uma das principais dificuldades para a implementação do lockdown no Brasil é a falta de um plano nacional e de forte liderança para conduzir a população para respeitar o isolamento, de acordo com Claudio Maierovitch, sanitarista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) de Brasília.

"Já deveríamos ter feito vários lockdowns, assim como o Reino Unido está no terceiro e a Alemanha, em um longo segundo. Alguns governadores e prefeitos tiveram decisões que se assemelharam ao lockdown, mas não houve respaldo do governo federal e teve muita pressão econômica. O governo federal não só não respaldou como era contra. O governo desmoralizou a ideia de que este poderia ser um caminho para salvar a saúde e isso saiu da agenda política brasileira."

Segundo Maierovitch, o plano teria de conter informações sobre quais estabelecimentos poderiam abrir, quem poderia sair e por quanto tempo, medidas de apoio para a população e para os mais diversos setores da economia.

"Precisa de fiscalização, liderança, comunicação e coordenação. Não houve nenhuma dessas coisas. No Brasil, jogamos fora o principal insumo que é o tempo, poderíamos ter feito lockdown, mas, para que isso aconteça, tem de ter uma decisão forte de Estado e uma liderança grande que diga isso. O que está prevendo é que a curva vai subir muito mais rápido em janeiro e fevereiro. Se tivéssemos realmente um lockdown de duas semanas, a curva cairia rapidamente, desde que, depois, mantivesse uso de máscara e demais cuidados."

Estadão
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