Aromas e emoções: como a primavera desperta memórias e sensações
Estudos sobre rosa, jasmim e gerânio apontam respostas diferentes relacionadas ao relaxamento, ao estado de alerta e ao bem-estar
A ligação entre aromas e emoções é complexa e subjetiva, mediada pela memória autobiográfica de cada indivíduo. Embora a neurociência comprove que essências provocam reações fisiológicas distintas — como o relaxamento induzido pela rosa, o estado de alerta estimulado pelo jasmim e o alívio de sintomas depressivos com o gerânio —, não existem efeitos universais. As fragrâncias atuam como terapias complementares, dependendo sempre do contexto, da vivência pessoal e do significado atribuído por quem as sente.
A primavera começa em 22 de setembro e transforma a paisagem com flores, plantas e novos aromas. Mas será que o cheiro de uma flor realmente pode influenciar o humor? Segundo a neurocientista e aromaterapeuta Daiana Petry, a relação entre aromas e emoções existe, mas é mais complexa do que classificar um cheiro como "calmante" ou "estimulante".
"Um aroma não chega ao cérebro acompanhado de uma instrução dizendo 'agora relaxe' ou 'fique feliz'. Existe todo um processamento daquela informação e, principalmente, uma história individual relacionada ao cheiro. É por isso que a mesma flor pode ser extremamente agradável para uma pessoa e indiferente ou até desagradável para outra", explica Daiana.
O olfato mantém relações estreitas com circuitos cerebrais envolvidos na memória e nas emoções. Essa conexão ajuda a explicar por que um perfume pode despertar lembranças, sensações de familiaridade e até saudade.
"O olfato tem um poder muito interessante de evocar memórias autobiográficas. Às vezes você sente o perfume de uma flor e, antes mesmo de elaborar conscientemente aquilo, surge uma lembrança ou uma sensação associada a ela", afirma.
Durante a primavera, flores, plantas, grama e terra molhada modificam a paisagem sensorial. Esses cheiros podem trazer à tona experiências associadas a diferentes momentos da vida. Pesquisas também investigam como determinados aromas se relacionam com respostas fisiológicas e emocionais.
Rosa: estudos identificaram sinais de relaxamento
Alguns estudos mostram que a relação entre aromas e estado emocional pode ser observada para além de uma impressão subjetiva.
Em um experimento publicado no Complementary Therapies in Medicine, 20 universitárias foram expostas durante apenas 90 segundos aos aromas dos óleos essenciais de rosa ou laranja. Os pesquisadores observaram redução da concentração de oxi-hemoglobina no córtex pré-frontal direito, além do aumento das avaliações subjetivas de conforto, relaxamento e naturalidade. Os autores interpretaram os resultados como sinais de relaxamento fisiológico e psicológico.
Outro estudo, publicado no Natural Product Communications, avaliou 40 voluntários saudáveis por uma abordagem diferente. O óleo de rosa foi aplicado sobre a pele, enquanto os participantes utilizaram máscaras para impedir que o cheiro interferisse no experimento.
Em comparação ao placebo, houve redução da frequência respiratória, da pressão arterial sistólica e da saturação de oxigênio no sangue. Os participantes que receberam o óleo de rosa também se avaliaram como mais calmos, relaxados e menos alertas. Os pesquisadores consideraram os achados compatíveis com uma redução da ativação autonômica.
"Esses resultados são interessantes porque mostram que podemos estudar uma experiência aromática observando tanto aquilo que a pessoa relata sentir quanto parâmetros fisiológicos. Mas um estudo pequeno não significa que aquele aroma terá exatamente o mesmo efeito em todas as pessoas", ressalta Daiana.
Jasmim: aroma floral também pode estar relacionado ao alerta
Se a rosa aparece em pesquisas relacionada ao relaxamento, o jasmim ajuda a questionar a ideia de que todo aroma floral necessariamente acalma.
Um estudo com 20 voluntários saudáveis analisou a atividade cerebral por meio de eletroencefalograma antes e depois da inalação de óleo de jasmim. Os pesquisadores observaram aumento da potência das ondas beta em determinadas regiões cerebrais.
Os participantes também relataram aumento de sensações positivas, como bem-estar, disposição e frescor, além de redução da sonolência. Os autores interpretaram os resultados como indicativos de um efeito estimulante sobre o sistema nervoso.
Outro trabalho investigou a aplicação tópica de óleo de jasmim na região abdominal de 40 voluntários saudáveis. Em comparação ao placebo, foram observados aumentos da frequência respiratória, da saturação de oxigênio e da pressão arterial sistólica e diastólica.
Os participantes também se avaliaram como mais alertas, vigorosos e menos relaxados.
"Esse é um exemplo interessante porque muitas vezes colocamos todos os aromas florais na categoria de relaxantes. O jasmim mostra que essa classificação não é tão simples. Dependendo do aroma e da forma como ele é utilizado e estudado, podemos encontrar respostas bastante diferentes", explica Daiana.
Gerânio: pesquisa avaliou efeitos sobre sintomas depressivos
O gerânio também já foi investigado, embora em um contexto específico de saúde.
Um ensaio clínico realizado com 120 mulheres na pós-menopausa com sintomas depressivos comparou três grupos: massagem, massagem aromaterápica com óleo essencial de gerânio a 2% e um grupo controle. As intervenções ocorreram uma vez por semana, durante oito semanas.
Tanto a massagem quanto a massagem com gerânio foram associadas à redução dos escores de depressão. A redução foi maior no grupo que recebeu a massagem aromaterápica.
Os próprios pesquisadores, entretanto, apresentam a aromaterapia como uma abordagem complementar. O desenho do estudo não permite transformar o resultado em uma recomendação geral para o tratamento da depressão.
"É muito importante fazer essa distinção. Encontrar um efeito em determinado grupo e em condições controladas não significa dizer que um óleo essencial substitui acompanhamento psicológico ou psiquiátrico. Aromaterapia pode ser estudada e utilizada como recurso complementar, respeitando suas indicações e limites", destaca Daiana.
Afinal, os aromas podem mudar o humor?
As pesquisas mostram que determinados aromas e óleos essenciais podem estar associados a alterações fisiológicas, atividade cerebral e percepções de relaxamento, alerta e bem-estar. Isso não significa, porém, que exista uma fórmula universal.
A experiência olfativa envolve características químicas do aroma, memória, preferência individual, intensidade, ambiente, expectativa e estado emocional.
"Se uma pessoa associa o cheiro de jasmim ao jardim da avó e essa é uma memória de segurança e afeto, aquele aroma ganha um significado particular. Para outra pessoa, pode não despertar absolutamente nada. O cérebro não interpreta o cheiro isoladamente do contexto", explica.
Por isso, um aroma considerado agradável por uma pessoa pode provocar desconforto em outra. A resposta também pode variar conforme a forma de utilização e as condições em que a experiência acontece.
Existe um aroma da felicidade?
Para Daiana, essa é uma das principais diferenças entre compreender a aromaterapia a partir da neurociência e criar listas de "um óleo para cada emoção".
Não existe um único aroma capaz de provocar felicidade, tranquilidade ou disposição em todas as pessoas.
"Não existe um botão olfativo da felicidade. O interessante é entender como podemos utilizar o olfato conscientemente para construir experiências e rituais que façam sentido para cada pessoa."
Uma possibilidade é associar um aroma considerado agradável a um momento de desaceleração. Diminuir as luzes, deixar o celular de lado, respirar com mais calma e prestar atenção à experiência olfativa são algumas alternativas.
Nesse caso, o aroma passa a integrar um conjunto de sinais associados àquele momento. A experiência pode ser individual e não deve ser interpretada como um tratamento para problemas de saúde.
"A primavera é muito visual, mas também é profundamente olfativa. Essa estação é uma boa oportunidade para lembrar que o cérebro percebe o mundo por vários sentidos. Flores, plantas e outros cheiros podem despertar lembranças e diferentes estados emocionais. O mais interessante talvez não seja perguntar qual é o aroma da felicidade, mas começar a perceber o que cada cheiro desperta em você", conclui Daiana.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.