A IA está criando um novo problema no trabalho, diz Jan Emmanuel, referência no estudo de bem-estar
Em entrevista ao 'Estadão', o professor da Universidade de Oxford, Jan Emmanuel De Neve, comenta os efeitos da IA, incluindo o estudo que realizará com mais de 38 mil trabalhadores para avaliar o impacto da tecnologia no bem-estar e no desempenho dos funcionários
Segundo Jan Emmanuel De Neve, professor de Oxford, o impacto da IA no trabalho depende da liderança. Usar a tecnologia apenas para demitir gera ansiedade, rotatividade e queda na qualidade das entregas. Já adotá-la para ampliar o potencial humano e automatizar tarefas repetitivas eleva a produtividade em até 13%. Para ter sucesso, líderes devem ser transparentes, dar autonomia às equipes, investir em requalificação e monitorar o bem-estar e o estresse dos funcionários durante a transição.
O impacto da inteligência artificial no desempenho e na saúde dos profissionais depende da condução da liderança no trabalho. É no que acredita Jan Emmanuel De Neve, professor da Universidade de Oxford e um dos responsáveis pela maior pesquisa sobre bem-estar no mundo, com a participação de mais de 30 milhões de trabalhadores. Agora, o pesquisador se prepara para lançar mais um estudo global, desta vez para mapear os efeitos da IA no bem-estar e nas atividades profissionais dos funcionários.
Ao Estadão, De Neve afirma que a ameaça de substituição da força de trabalho humana por automação pode gerar custos financeiros no longo prazo para as empresas, além de aumentar a rotatividade de funcionários. "Isso desencadeia um ciclo de deterioração marcado por ansiedade, queda no bem-estar e um aumento na produção de baixa qualidade", diz.
No entanto, diz, as empresas com maior maturidade em IA podem ter bons resultados a partir de boas práticas. Uma delas é o tempo de adaptação da ferramenta, que pode aumentar os custos e reduzir a produtividade de forma temporária. A outra, de acordo com De Neve, é usar a tecnologia para aumentar a produtividade ou automatizar aquelas tarefas repetitivas sem reduzir o quadro de funcionários. O pesquisador estará no Brasil, nos dias 16 e 17 de setembro, no Mind Summit.
Veja a seguir os principais trechos da entrevista:
Em julho, o sr. iniciou um estudo que acompanhará mais de 38 mil trabalhadores em 96 países para avaliar os efeitos da IA no bem-estar e no desempenho. Neste momento, quais são suas hipóteses sobre o impacto da IA no ambiente de trabalho?
Estamos avaliando um chatbot de IA generativa desenvolvido para gestão de projetos, relacionamentos e estresse, com o objetivo de produzir as primeiras evidências causais em larga escala sobre como essas ferramentas afetam a produtividade, as trajetórias profissionais e o bem-estar. Minha principal hipótese é que o impacto da IA ??depende inteiramente de a liderança a utilizar para aumentar ou automatizar as tarefas. Quando os trabalhadores percebem a IA como uma ferramenta de redução de custos destinada, em última instância, a substituí-los, isso desencadeia um ciclo de deterioração marcado por ansiedade, queda no bem-estar e um aumento na produção de baixa qualidade. Por outro lado, quando a IA é utilizada para ampliar o potencial humano, as empresas têm maior probabilidade de obter ganhos duradouros e cumulativos em inovação e desempenho, ainda que isso possa exigir um período temporário de adaptação.
De acordo com pesquisas recentes, algumas empresas na América Latina estão usando automação para substituir trabalhadores, enquanto outras, com maior maturidade em IA, estão usando a tecnologia para aumentar a produtividade dos funcionários. Quais são os efeitos que essas diferentes estratégias podem ter na vida das pessoas?
Quando as empresas optam pela automação pura para reduzir o número de funcionários, como vimos com a Block (empresa de tecnologia comandada por Jack Dorsey, ex-CEO do antigo Twitter), que demitiu quase metade de sua força de trabalho, elas conseguem um alívio rápido nas margens, mas a um custo elevado no longo prazo para sua cultura e capacidades. A ameaça de substituição cria uma profunda insegurança no emprego. Em nossas pesquisas, 60% dos trabalhadores que desempenham funções de escritório demonstram preocupação com a possibilidade de serem substituídos pela IA. Quando os funcionários se sentem obrigados a adotar a IA sob essa ameaça, eles passam a agir como passageiros relutantes em vez de pilotos, levando a um aumento do "workslop" (entregas superficiais e de baixa qualidade produzidas com IA) e maior rotatividade de funcionários. Por outro lado, empresas tecnologicamente maduras, como a Aon, direcionam a IA para tarefas rotineiras, liberando as pessoas para se concentrarem em julgamento e pensamento estratégico. Esse caminho de ampliação das capacidades humanas exige um investimento inicial maior na reestruturação organizacional, aproximadamente 10 vezes o custo da própria tecnologia, mas aumenta a satisfação dos trabalhadores e amplia permanentemente a capacidade produtiva da empresa.
Como uma empresa pode medir o impacto da IA para determinar se sua adoção está, de fato, melhorando a experiência dos funcionários no trabalho?
Os líderes precisam ir além da contagem de acessos em softwares e de pesquisas genéricas de engajamento. Primeiro, é preciso medir como os funcionários percebem a intenção estratégica da gestão. Atualmente, apenas 44% das empresas comunicam formalmente sua estratégia de IA, deixando os trabalhadores preencherem esse vácuo de comunicação com ansiedade. Segundo, é necessário monitorar a qualidade das entregas em busca do "workslop", que funciona como um sinal de alerta precoce de sobrecarga e desengajamento dos funcionários. Mais importante ainda, é preciso mensurar o bem-estar subjetivo em quatro dimensões cientificamente validadas: satisfação avaliativa no trabalho, felicidade diária, senso de propósito e níveis de estresse. Como o bem-estar impacta diretamente a produtividade — nossa pesquisa mostra que trabalhadores felizes são cerca de 13% mais produtivos —, acompanhar essas métricas oferece aos líderes uma visão objetiva e preditiva sobre se a IA está melhorando o ambiente de trabalho.
O sr. argumenta que o sentimento de pertencimento é um dos principais fatores associados ao bem-estar no trabalho. Como a IA pode impactar o sentimento de pertencimento?
O sentimento de pertencimento depende da qualidade das relações humanas e da percepção de que a organização realmente se importa com você. A IA pode tanto enfraquecer quanto fortalecer esse sentimento, dependendo de como é integrada. Se os trabalhadores forem relegados a fluxos de trabalho isolados, entre humanos e algoritmos, isso pode enfraquecer a coesão das equipes e o senso de identidade compartilhada. Além disso, a automação de funções administrativas de entrada pode esvaziar a base de talentos juniores, eliminando o ambiente natural onde jovens profissionais constroem redes de contato, recebem mentoria e absorvem a cultura da empresa. No entanto, se implementada de forma cuidadosa como uma ferramenta de aprimoramento, a IA pode assumir tarefas administrativas e reduzir o atrito operacional, liberando espaço cognitivo para colaboração mais próxima, mentoria e construção de relacionamentos, que são fatores-chave para o bem-estar no ambiente de trabalho.
O que as empresas ainda subestimam sobre o impacto do bem-estar para os negócios?
O maior equívoco é tratar o bem-estar como um benefício secundário e intangível, em vez de reconhecê-lo como um fator que determina o desempenho financeiro. Os dados empíricos são claros: maior nível de bem-estar dos trabalhadores leva a um aumento de 13% na produtividade semanal, além de melhorar a capacidade de atrair e reter talentos. Os líderes também têm um ponto cego em relação à adoção da IA. Embora 76% dos executivos acreditem que seus funcionários estão entusiasmados com a IA, apenas 31% dos trabalhadores da linha de frente compartilham desse entusiasmo. Ao subestimar o medo e a ansiedade relacionados à implementação de novas tecnologias, os executivos permitem, sem perceber, que o estresse não resolvido prejudique os resultados financeiros da empresa.
O que diferencia uma empresa que realmente promove o bem-estar dos funcionários de uma que apenas oferece benefícios associados ao bem-estar?
Um compromisso genuíno com o bem-estar está incorporado diretamente à estrutura do trabalho: remuneração justa, cargas de trabalho administráveis, trajetórias profissionais claras e segurança psicológica. Oferecer aplicativos de bem-estar ou academias, enquanto, simultaneamente, sinaliza possíveis cortes de pessoal impulsionados pela IA cria uma desconexão cultural que destrói a confiança. As organizações autênticas fazem compromissos críveis e de longo prazo com seus funcionários. Veja o caso da Aon, que se comprometeu a requalificar trabalhadores e tratar o número de funcionários como um pilar de crescimento, ou da Microsoft sob a liderança de Satya Nadella, que investiu fortemente em aprendizado contínuo. Essas empresas estão dispostas a superar a queda inicial de produtividade para construir uma força de trabalho resiliente e altamente capacitada.
Qual é o conselho do sr. a uma empresa que está implementando IA e quer evitar que os ganhos de produtividade aconteçam às custas do bem-estar dos funcionários?
Primeiro, se a empresa realmente estiver em condições de fazer isso, deve declarar formalmente e desde cedo uma estratégia de ampliação das capacidades humanas, de forma transparente, para tranquilizar uma parcela significativa da força de trabalho que, de outra maneira, pode presumir que a tecnologia está sendo implementada para eliminar seus empregos. Segundo, conceda aos funcionários autonomia real sobre como integrar a IA em suas tarefas diárias; a imposição de softwares é contraproducente, aumenta a rotatividade e a baixa qualidade do trabalho. A imposição de softwares tende a produzir o efeito contrário, aumentando a rotatividade e as entregas de baixa qualidade, o chamado "workslop". Terceiro, é necessário ter paciência com a "micro J-curve" (versão menor do conceito de queda inicial no desempenho ou no caixa antes de uma forte alta). Alcançar ganhos duradouros de produtividade exige investimentos significativos em requalificação, redesenho dos fluxos de trabalho e cultura organizacional. Por fim, mensure continuamente a satisfação, o propósito e os níveis de estresse dos trabalhadores, ao lado dos indicadores de eficiência, para identificar sinais precoces de esgotamento antes que eles prejudiquem o negócio.
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