Puberdade precoce: nova diretriz muda orientação sobre exames e tratamentos
Novo consenso internacional recomenda mais cautela antes de exames e tratamentos hormonais em meninas que apresentam sinais de puberdade entre 7 e 8 anos
O surgimento de mamas, pelos pubianos ou odor nas axilas antes do esperado costuma acender um sinal de alerta nos pais. Até pouco tempo atrás, uma menina de 7 ou 8 anos com essas características poderia ser encaminhada para diferentes exames e, dependendo da avaliação, iniciar um tratamento hormonal prolongado devido à puberdade precoce.
Agora, um novo consenso internacional propõe uma abordagem mais cautelosa para parte dessas crianças. Em determinadas situações, em vez de investigar e tratar imediatamente, a orientação é acompanhar o desenvolvimento durante alguns meses e observar como o organismo evolui.
Publicada em junho no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, a nova diretriz atualiza recomendações de 2009 e reúne especialistas ligados a sociedades de endocrinologia europeia, latino-americana, brasileira e americana. A endocrinologista Ana Claudia Latronico, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), é a principal autora do trabalho.
O que é puberdade precoce?
A chamada puberdade precoce central acontece quando o processo de amadurecimento sexual começa antes dos 8 anos nas meninas e dos 9 anos nos meninos. Nesse processo, uma região do cérebro chamada hipotálamo começa a liberar o hormônio GnRH. A partir daí, ocorre uma sequência de estímulos envolvendo a hipófise e, posteriormente, os ovários ou testículos, levando ao aparecimento das características da puberdade.
A condição é aproximadamente dez vezes mais frequente entre meninas. Em alguns casos, pode estar associada a alterações genéticas, tumores ou malformações no sistema nervoso central. Na maioria das vezes, porém, não é possível determinar uma causa específica.
Identificar os casos que realmente precisam de acompanhamento e tratamento continua sendo importante. A puberdade muito antecipada pode ter consequências físicas e emocionais, além de afetar o crescimento da criança. Há ainda questões sociais envolvidas. "Além disso, uma menina de 6 anos que parece 12 ou 13 também está sujeita a sofrer assédio e ser tratada como mulher", alerta Latronico.
Por que a orientação mudou?
Um dos pontos considerados pelo novo consenso é que a idade de início da puberdade vem mudando ao longo das gerações. "Existem evidências de que a puberdade pode acontecer com o passar dos anos, de uma forma até evolutiva, mais cedo. Há 100 anos, a idade média da primeira menstruação estava em torno dos 18 anos. Hoje é 12", explica Latronico.
Isso cria uma espécie de zona intermediária. Uma menina que começa a desenvolver as mamas aos 7 anos, por exemplo, pode estar apresentando uma puberdade precoce que avança rapidamente, mas também pode estar passando por uma variação do desenvolvimento fisiológico que não necessariamente exige intervenção. É justamente para evitar que sinais isolados sejam interpretados como indicação automática de tratamento que a nova diretriz recomenda maior observação em determinadas faixas etárias.
Quando a criança precisa fazer exames?
Para meninas entre 7 e 8 anos que começam a apresentar desenvolvimento das mamas, pelos pubianos ou odor nas axilas, a recomendação é que o médico acompanhe a evolução em intervalos de quatro a seis meses. Durante esse período, é possível avaliar a velocidade com que as mudanças estão acontecendo.
Se os sinais avançarem rapidamente, exames laboratoriais e de imagem podem ser necessários para entender melhor o quadro. Dependendo dos resultados, o tratamento também pode ser indicado.
Quando não existe uma progressão acelerada, porém, a orientação é evitar uma sequência imediata de exames e manter o acompanhamento clínico. "Foi uma diretriz mais conservadora e protetora, em relação a evitar diagnósticos intempestivos ou errados", afirma Latronico. A situação é diferente quando os sinais surgem muito cedo. Nos casos em que a puberdade começa antes dos 6 anos, a indicação de investigação e tratamento permanece.
A mudança, portanto, não significa ignorar sinais de puberdade antecipada. A proposta é justamente diferenciar os casos que exigem intervenção daqueles em que acompanhar a evolução pode ser suficiente. Para os pais, sinais de desenvolvimento sexual antes da idade esperada continuam sendo motivo para conversar com o pediatra ou endocrinologista pediátrico. O que muda é que, para algumas crianças, a melhor conduta após essa avaliação pode ser simplesmente observar com atenção antes de partir para exames ou tratamentos.
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