Por que a miopia infantil está aumentando no mundo? Hábitos modernos podem ser a resposta
Diagnósticos cada vez mais precoces acendem alerta entre oftalmologistas sobre o estilo de vida das novas gerações
Aos 9 anos, Luísa Cardoso apertava os olhos para enxergar a lousa na sala de aula. Mesmo sentando nas primeiras fileiras, não adiantava. Ela não conseguia ver com nitidez os números e as letras à sua frente. Junto ao esforço, vinha a dor de cabeça recorrente. Uma ida ao médico trouxe a resposta: era miopia, considerada um dos problemas de visão mais comuns no mundo -- segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) até 2050 metade da população mundial terá miopia . O aumento de casos precoces em crianças vem chamando a atenção de especialistas, que apontam para os hábitos das novas gerações como agravante.
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A miopia é uma condição que dificulta enxergar objetos e pessoas à distância, deixando a visão embaçada. É um erro de refração multifatorial e com forte influência genética, caracterizado por um alongamento atípico do globo ocular, que projeta as imagens de forma inadequada no interior do olho. Uma pessoa míope tem dificuldade para enxergar de longe, mas vê com nitidez objetos próximos.
Uma epidemia global por fatores comportamentais
A OMS estima que 3,36 bilhões de pessoas no mundo serão míopes em 2030, por conta do estilo de vida contemporâneo. As longas horas diante de telas, a prática de exercícios físicos reduzida e menos horas passadas ao ar livre são alguns indicativos de uma rotina que não acomete apenas adultos.
A oftalmologista pediátrica do Instituto Brasileiro de Oftalmologia (IBOL), Carolina Hammes, destaca que a mudança de hábitos entre crianças propicia o surgimento precoce de problemas de visão. Jogar bola com amigos, desenhar e brincar na rua deram lugar ao entretenimento individual e tecnológico com smartphones e tablets, que chegam cada vez mais cedo nas vidas das crianças.
“A gente não consegue determinar uma causa específica, mas, certamente, questões comportamentais, como ficar mais tempo em ambientes fechados e até mesmo as brincadeiras não serem mais tanto ao ar livre, favorecem uma população cada vez mais míope”, explica.
De quem é a responsabilidade?
De acordo com a Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO), os olhos atingem a maturação completa apenas aos 7 anos de idade. Com isso, os maus hábitos podem aumentar o risco de problemas oculares precoces.
Ao contrário do que se pensa, as telas dos aparelhos eletrônicos não são as únicas vilãs para o aumento de casos de miopia entre crianças, mas são um fator importante dentro de um contexto amplo em que, cada vez mais e bem cedo, a infância acontece dentro de casa e diante de uma tela.
“A gente tem observado que as crianças estão ficando míopes não mais na idade escolar ou na adolescência, quando ocorre um estirão de crescimento, mas antes da alfabetização. Com certeza, isso está mais frequente e parece que a tendência é aumentar cada vez mais”, destaca Carolina.
Entidades competentes reforçam que hábitos saudáveis, como a prática de atividades físicas ao ar livre, interação social e redução do tempo de tela, são essenciais para prevenir tais problemas de saúde.
O governo federal lançou o Guia sobre Uso de Dispositivos Digitais para auxiliar pais e responsáveis. Entre as principais diretrizes, vale destacar:
- Crianças menores de 2 anos não devem ter acesso a telas;
- Dos 2 aos 5 anos, o tempo recomendado é de até 1 hora por dia;
- Menores de 12 anos não devem possuir aparelhos eletrônicos próprios e a partir dessa idade, o uso deve ser gradualmente ampliado, sempre com supervisão e dosado pelos responsáveis.
Sinais de alerta
Os sintomas de miopia infantil costumam passar despercebidos pela própria família, ainda mais em crianças pequenas, que não conseguem verbalizar ou compreender suas queixas. O diagnóstico requer avaliação profissional. Ainda assim, alguns comportamentos típicos podem sinalizar que algo não está certo:
- Dificuldade para enxergar o quadro na sala de aula;
- Esforço para reconhecer pessoas e objetos de longe;
- Dor de cabeça frequente;
- Dor nos olhos;
- Piscar excessivamente;
- Aproximação exagerada de telas;
- Falta de concentração.
Luísa apresentou alguns desses sintomas na infância. A mãe levou para uma consulta com um oftalmologista e descobriu que a filha tinha cinco graus de miopia e astigmatismo, condição que também borra a visão para longe. Desde então, Luísa usa óculos e hoje, aos 14 anos, sente uma melhora na qualidade de vida.
Os problemas visuais podem comprometer o aprendizado infantil ao dificultar atividades essenciais, como ler, escrever e acompanhar as aulas. Alterações como a miopia podem afetar o desempenho escolar e até a integração da criança.
Como prevenir a progressão da miopia em crianças?
A saúde ocular deve fazer parte da rotina médica desde cedo. Por isso, a indicação é que a primeira consulta oftalmológica seja realizada entre 6 e 12 meses de idade. Em famílias com histórico de miopia, são necessários retornos mais frequentes, para acompanhar o possível surgimento do quadro.
A prevenção é a melhor medida para evitar complicações no futuro. Ao receber os cuidados e tratamentos indicados no momento certo, incluindo o uso de óculos e colírios, os sintomas e desconfortos tendem a diminuir, assim como o risco de surgimento de outros problemas de visão.

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