Ciência afirma que ter cachorro diminui estresse em adultos
Do fortalecimento da imunidade infantil ao bem-estar emocional, entenda os efeitos da convivência com cães
Estudos científicos revelam que a convivência com cães traz múltiplos benefícios à saúde humana. Em bebês, o contato com micro-organismos associados aos pets fortalece a imunidade e reduz o uso de antibióticos em até 25%. Nos adultos, a relação diminui o estresse ao elevar a oxitocina e reduzir o cortisol, aliviando quadros de ansiedade e depressão. Para garantir uma interação segura e saudável, especialistas reforçam a necessidade de manter a vacinação em dia e adotar bons hábitos de higiene.
Pesquisas também mostram que convivência com pets reduz uso de antibióticos em até 25% na infância e impacta positivamente a saúde mental
No Dia Mundial do Cachorro, celebrado em 26 de agosto, a ciência tem novos motivos para olhar para a relação entre humanos e cães para além da companhia e do afeto. Estudos recentes vêm mostrando que conviver com um cachorro pode estar associado a diferentes benefícios à saúde, que vão desde a proteção contra infecções nos primeiros anos de vida até impactos positivos sobre o bem-estar emocional.
Cachorro pode beneficiar a imunidade dos bebês
Uma pesquisa publicada neste mês de agosto na revista Pediatric Allergy and Immunology trouxe achados sobre a relação entre a presença dos pets e o fortalecimento do organismo de bebês. De acordo com o estudo, a exposição a bactérias comuns em casas com cães é responsável por reduzir em até 25% a necessidade do uso de antibióticos na primeira infância.
A coordenadora da pós-graduação em Pediatria da Afya Educação Médica Belo Horizonte, Carolina Affonseca, explica que o benefício não parece depender simplesmente de uma maior quantidade ou diversidade de micro-organismos no ambiente, mas de determinados grupos vinculados à presença do cão.
"Uma das explicações envolve a estimulação do sistema imunológico ainda em desenvolvimento. O contato precoce com diferentes micro-organismos ambientais poderia ajudar a treinar componentes da imunidade inata e favorecer respostas mais equilibradas diante de infecções comuns. Outro possível caminho passa pelo microbioma intestinal. Estudos encontraram diferenças na composição dessa microbiota em bebês que convivem com cães. Incluindo maior diversidade de grupos bacterianos nos primeiros 18 meses de vida e maior presença de bactérias."
Como os cães influenciam o sistema imunológico
A pesquisa acompanhou bebês entre a 9ª e a 52ª semana de vida. Eles nalisaram dados sobre episódios de febre, otite, semanas consideradas saudáveis e uso de antibióticos. Além de amostras da poeira do ambiente doméstico. A médica esclarece que ao analisar a poeira das residências, os pesquisadores identificaram determinados grupos de bactérias e fungos associados à presença dos cães, entre eles bactérias do gênero Pasteurella. Esses micro-organismos específicos foram capazes de explicar estatisticamente cerca de 10% a 25% da associação observada entre ter um cão em casa e menor ocorrência de febre, otite e uso de antibióticos.
"Um dado interessante é que o benefício não depende simplesmente de uma casa com maior quantidade ou diversidade de micro-organismos. A riqueza microbiana total da poeira, a concentração geral de bactérias e a proporção de bactérias de origem humana não explicaram a associação. O efeito está relacionado, sobretudo, a determinados micro-organismos vinculados à presença do cão", complementa a especialista.
Benefícios para os dois lados
Na vida adulta, os benefícios continuam a se acumular, com impactos expressivos sobre a psique e o bem-estar emocional. Um estudo publicado em 2023 pela Human Animal Bond Research Institute (HABRI), nos Estados Unidos, revelou que 74% dos tutores observam melhorias significativas em sua saúde mental devido ao vínculo com os pets, evidenciando que a presença do animal mitiga quadros de depressão, ansiedade, estresse e solidão, ao mesmo tempo em que eleva a autoestima e incentiva a socialização.
Em todas as esferas
A coordenadora de psicologia da Afya Sete Lagoas, Sabrina Magalhães Teixeira, comenta que três mecanismos nos ajudam a compreender os benefícios da convivência com os cães para os seres humanos: uma dimensão fisiológica, uma psicológica e uma social.
Fisiológica: o contato físico e visual com os cães ativa o sistema neuroendócrino mediado pela oxitocina, hormônio importante na formação de vínculos. Fazer carinho no cão pode aumentar a oxitocina e reduzir o cortisol e a frequência cardíaca, contribuindo para o controle do estresse e o aumento do bem-estar e da segurança.
Psicológica: está relacionada à teoria do apego e à percepção do cão como uma "base segura". Sua presença pode reduzir a sensação de ameaça e medo, favorecendo o bem-estar, a segurança e a capacidade de lidar com os desafios cotidianos.
Social: o cão pode ser percebido como uma fonte de apoio e companhia, ajudando a reduzir a solidão. Além de fortalecer a autoestima e promover um senso de propósito por meio do cuidado e do vínculo com o animal.
"É importante destacar que esse vínculo não é automático. Ter um animal, por si só, não garante esses benefícios, é necessário também construir e trabalhar o vínculo entre tutor e animal. A partir desses mecanismos, a convivência pode estar associada à diminuição do estresse, da ansiedade e das preocupações. Além do fortalecimento da autoestima, da segurança, da regulação emocional e do senso de propósito e responsabilidade."
Cuidados com o pet
Segundo o Ministério da Saúde, a vacinação antirrábica permanece como uma das principais estratégias para prevenir a circulação do vírus da raiva. Essa é uma doença de extrema gravidade e que apresenta letalidade próxima de 100% após o aparecimento dos sintomas.
Em 2025, o Brasil registrou avanço na cobertura vacinal de cães e gatos, que chegou a aproximadamente 78%. O resultado representa uma melhora em relação aos anos anteriores e está relacionado à retomada das campanhas de vacinação em praticamente todo o país. Em Minas Gerais, o índice ultrapassou 80%, alcançando a meta estabelecida pelo Ministério da Saúde para contribuir com a redução do risco de circulação do vírus.
Vacinação protege o cachorro e a família
Para a coordenadora de medicina veterinária da Afya São João del-Rei, Sylvia Rocha Silveira Pires, a vacinação ocupa um papel fundamental na medicina veterinária preventiva. Além de proteger os animais contra doenças infecciosas graves e potencialmente fatais, a imunização também contribui diretamente para a proteção da saúde pública.
"A vacinação protege cães contra diversas doenças infecciosas, muitas delas graves e potencialmente fatais. Isso contribui para uma vida mais saudável e com maior qualidade de vida. Além da proteção individual dos animais, a vacinação tem um importante papel na saúde pública, pois reduz a circulação de agentes infecciosos e ajuda a prevenir zoonoses, que são doenças transmitidas dos animais para os seres humanos."
A especialista destaca ainda que é importante manter limpos os locais onde o animal vive. Assim como recolher corretamente as fezes, higienizar os recipientes de água e alimentação e lavar as mãos após o contato com fezes ou secreções. "Também é importante evitar oferecer alimentos crus ou de procedência desconhecida. Esses cuidados ajudam a prevenir zoonoses, porém, ter um cão não deve ser visto como um risco à saúde. Com os cuidados adequados e hábitos simples de higiene e prevenção, essa convivência pode ser segura, saudável e benéfica para toda a família", conclui a docente da Afya.
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