Paternidade ativa: ciência mostra como a presença do pai impacta a saúde mental dos filhos
Pesquisas apontam que pais mais presentes ajudam a reduzir problemas emocionais, fortalecem vínculos familiares e contribuem para o desenvolvimento saudável dos filhos
A discussão sobre paternidade ativa ganhou força nos últimos meses após a sanção da Lei nº 15.371, que ampliou a licença-paternidade para 20 dias e criou o salário-paternidade. No entanto, o tema vai muito além dos direitos trabalhistas. Cada vez mais pesquisas mostram que a participação dos pais na criação dos filhos beneficia a saúde mental, emocional e social de toda a família. Segundo o psiquiatra Diego Ortega, especialista em infância e adolescência do Einstein Hospital Israelita, crianças que convivem com pais mais presentes costumam apresentar menos sintomas de ansiedade. Além disso, elas desenvolvem melhor capacidade para lidar com emoções e desafios cotidianos.
"Pais presentes costumam ter menos agravos de saúde mental, mais acesso a redes de apoio, tempo de qualidade com seus filhos e maior capacidade de perceber quando algo não vai bem", afirma o especialista.
Paternidade ativa contribui para o desenvolvimento infantil
Diversas pesquisas apontam que a paternidade ativa influencia diretamente o desenvolvimento das crianças. Além disso, ela favorece o desempenho escolar e fortalece habilidades sociais. Da mesma forma, contribui para a construção da autoestima e da segurança emocional. Como resultado, esses benefícios podem acompanhar os filhos durante toda a vida. No entanto, especialistas alertam que não basta apenas estar fisicamente presente. O vínculo emocional também faz diferença.
Não basta estar em casa: a conexão emocional também importa
A chamada negligência emocional acontece quando o pai está presente em casa, mas participa pouco da rotina ou mantém distância afetiva. Segundo Ortega, esse tipo de ausência também pode gerar impactos importantes.
"Crianças que percebem pais emocionalmente distantes costumam ter mais sintomas psíquicos ao longo da vida, mesmo quando adultas", alerta. Por isso, atividades simples ajudam a fortalecer a relação entre pais e filhos. Brincar, conversar, ler histórias e acompanhar a rotina da criança fazem diferença. Além disso, ouvir preocupações e participar dos momentos importantes ajuda a construir vínculos mais sólidos.
Estudo de Oxford reforça benefícios da paternidade ativa
Uma pesquisa da Universidade de Oxford, no Reino Unido, observou resultados importantes. Segundo os pesquisadores, crianças apresentam trajetórias de desenvolvimento mais saudáveis quando os pais participam dos cuidados desde os primeiros meses de vida. Além disso, interações criativas favorecem o desenvolvimento emocional e cognitivo. Por isso, atitudes simples podem gerar impactos duradouros. Segurar o bebê no colo, fazer contato pele a pele, trocar fraldas, dar banho e cantar são exemplos de ações que fortalecem o vínculo familiar desde os primeiros meses.
Os efeitos da paternidade ativa podem durar décadas
Os benefícios da paternidade ativa não se limitam à infância. Uma pesquisa publicada na revista científica Developmental Psychobiology encontrou efeitos de longo prazo da presença paterna. Os pesquisadores observaram que a qualidade do envolvimento do pai durante a infância influenciou os níveis de cortisol cerca de 30 anos depois. Como consequência, participantes que tiveram pais mais presentes apresentaram melhor regulação do estresse. Além disso, mostraram menor risco de ansiedade, depressão e problemas relacionados ao sono. O estudo também identificou uma redução significativa no consumo de tabaco e drogas ilícitas entre os jovens que cresceram com maior participação paterna.
Pai não ajuda: pai participa
Para a psicóloga Marianne Ramos Feijó, professora da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a ideia de que o pai apenas "ajuda" nos cuidados com os filhos precisa ser superada.
"O cuidado com os filhos é uma oportunidade de construção, de cumplicidade e de desenvolvimento social para todos", afirma. Segundo a especialista, um pai responsável participa dos cuidados diários, da educação, do lazer e da construção de limites saudáveis. Além disso, uma divisão mais equilibrada das responsabilidades reduz a sobrecarga materna. Consequentemente, contribui para relações familiares mais harmoniosas.
A presença paterna ajuda a identificar sinais de sofrimento emocional
Outro benefício importante da paternidade ativa está na capacidade de perceber mudanças de comportamento nos filhos. De acordo com Diego Ortega, alterações repentinas de humor, isolamento, queda no desempenho escolar ou irritabilidade podem indicar dificuldades emocionais. Embora esses sinais possam ter diversas causas, pais mais presentes costumam percebê-los mais rapidamente. Dessa forma, conseguem buscar ajuda antes que os problemas se agravem. Esse acompanhamento continua importante durante a adolescência. Afinal, mesmo quando os filhos buscam mais autonomia, eles ainda precisam de suporte emocional.
Sempre é possível fortalecer o vínculo
Especialistas destacam que nunca é tarde para construir uma relação mais próxima. Mesmo quando o envolvimento não aconteceu desde os primeiros anos de vida, o vínculo pode ser fortalecido por meio da convivência, do diálogo e da escuta.
"O potencial das crianças e das pessoas é enorme", reforça Ortega. Por isso, a paternidade ativa não deve ser vista apenas como uma tendência moderna. Pelo contrário, a ciência já reconhece seus benefícios para toda a família. Além disso, pais mais presentes ajudam a fortalecer vínculos, reduzir o estresse e favorecer o desenvolvimento infantil. Ao mesmo tempo, crianças que crescem com esse apoio tendem a desenvolver mais segurança emocional. Dessa forma, a participação paterna se torna uma ferramenta importante para a saúde e o bem-estar das futuras gerações.
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