Primeira Maratona Major em Berlim: a realização de um sonho
A emoção de correr entre milhares de participantes, a torcida que transforma as ruas em festa e o recorde pessoal nos 42 km
Thamara Paiva realizou o sonho de correr a Maratona de Berlim de 2026, sua primeira Major. O evento, sediado no antigo aeroporto Tempelhof e com mais de 56 mil atletas de 162 países, envolveu toda a cidade com intensa torcida e bandas. Apesar do calor e da dificuldade com copos abertos de água, Thamara seguiu a linha azul oficial e cruzou o emblemático Portão de Brandemburgo com seu recorde pessoal de 3h29'27", celebrando a conquista ao lado de familiares em uma experiência marcante.
POR THAMARA PAIVA | @thamspaiva
Quase 10 anos depois da primeira tentativa de correr a Maratona de Berlim, finalmente realizei um dos meus sonhos de corredora. Nunca fui apegada a correr as Majors (maiores maratonas do mundo), mas, por algum motivo, Berlim sempre ocupou um lugar especial no meu imaginário.
Agora, depois de correr minha primeira, entendo por que muitas pessoas vão em busca da Six Star Medal, medalha conquistada por aqueles que completam as seis maiores maratonas do mundo.
Desde a retirada do kit até completar a prova, a experiência foi perfeita. E passar pelo Portão de Brandemburgo para cruzar a linha de chegada é incrivelmente emocionante para qualquer corredor.
A Maratona de Berlim é um evento gigantesco que transforma a cidade. É como se toda a atenção dos moradores da cidade, das empresas e marcas relacionadas a esportes se voltasse para a capital alemã. A edição de 2026 reuniu mais de 56 mil corredores de 162 nações, números que impressionam, emocionam e ajudam a explicar a dimensão dessa prova.
Para quem pensa em correr em 2027 ou tem curiosidade de saber como é a experiência, reuni algumas dicas e curiosidades a seguir. Começo pela expo.
Como é a retirada de kit da Maratona de Berlim?
A expo da retirada do kit da Maratona de Berlim em 2026 aconteceu no Tempelhof Airport, um antigo aeroporto de Berlim. O lugar é bem grande, bonito e de fácil acesso, com estação de metrô perto.
Algumas semanas antes da prova, recebemos um email com as orientações para retirar o bib number (número de peito). É possível escolher um horário dentro de algumas janelas específicas. Quem agenda, pode entrar em uma fila diferenciada, e isso ajuda a reduzir a espera e melhora o fluxo na retirada.
Uma dica para quem não agendou e quer evitar a expo nos horários de pico é consultar no app da maratona os horários de menor fluxo. Eu não marquei horário, fui no sábado à tarde, e a fila estava fluindo perfeitamente bem.
Para entrar, é preciso apresentar o startpass com um QR code e seu documento. Depois de mostrá-los ao segurança é hora de pegar a famosa pulseirinha da maratona. É com ela e com o número de peito que temos acesso à largada. Só pode tirar do pulso depois da prova. Muita gente, inclusive eu, fica com ela no punho alguns dias como uma lembrança dessa conquista.
A expo é muito completa, se precisar comprar algo que esqueceu de levar, possivelmente vai encontrar lá. A primeira loja é a da adidas, uma das patrocinadoras e responsável pela coleção de roupas da prova. Muitos corredores compram o casaco ou a camiseta de finisher ao fazer a inscrição, mas também é possível adquirir as peças na hora.
Vale dizer que ter o casaco ou a camiseta da maratona é quase obrigatório! Andando pelas ruas de Berlim dava para reconhecer de longe quem ia correr só pela roupa.
Eu achei a expo incrível. Cada marca com sua criatividade buscava chamar a atenção do maior número de corredores com várias ativações e brindes diferentes, de massageador de couro cabeludo a sachês de proteína! Tinha de tudo. Minha irmã e meu cunhado estavam comigo e participamos de várias! Foi uma diversão.
No final da expo havia até um trailer distribuindo queijo e fatias de pizza, já dava para fazer o carbloading por ali mesmo!
Com o número de peito em mãos, é hora de se preparar para o grande dia!
Dia da prova: preparação, largada, hidratação e percurso
Chegou o grande dia. Minha largada foi às 9h05, bem mais tarde que costuma ser no Brasil, devido à temperatura nessa época em Berlim que costuma ser mais baixa.
Por conta disso, estava na dúvida sobre qual roupa vestir. Fui com uma regata bem fresquinha e soltinha da Farm e uma bermuda com vários bolsos da La Vie para meus géis e eletrólitos. Usei géis com 40g de carboidrato da Maurten e da Alquimia da Saúde (com cafeína), intercalando com géis de 20g de carboidrato da Maurten. Eu levei também hydro salts da Alquimia da Saúde, que ajuda a repor sais e eletrólitos, sendo bem práticos de carregar. O tênis que escolhi foi o Hyperion Max 3, da Brooks, com placa de nylon, que me dá uma boa propulsão e resposta na corrida e é mais flexível que um tênis com placa de carbono.
Foram escolhidas muito acertadas, a roupa fresca ajudou quando a prova ficou muito quente, os géis da Maurten super palatáveis não me deixaram empapuçada e o tênis me levou com conforto até o fim.
Embora a largada seja mais tarde, uma das recomendações que ouvi de quem já tinha corrido e que também compartilho é: chegue cedo, de uma hora a uma hora e meia antes. São milhares de pessoas indo para o mesmo lugar; melhor esperar um pouco do que correr o risco de se atrasar.
Meu hotel não era perto da largada, então fui de metrô, não tive nenhum problema, foi bem tranquilo. Ah! Quem é corredor recebe um ticket de trem e metrô para circular de graça por quatro dias em Berlim, de quarta a segunda-feira.
Até chegar nos currais de largada tem uma boa caminhadinha. São muitas opções de banheiro químico, mas se você pensa em usá-los, aconselho a reservar uma folga para a fila de pelo menos uns 20 minutos. As filas dos banheiros próximos à largada estavam bem grandes e demoradas.
Os currais são divididos conforme o tempo previsto para conclusão da prova e são orientados por letras, é tudo muito bem sinalizado. Sua letra está no número de peito, então não tem como errar.
A imagem da largada de Berlim é muito emblemática e marcante para mim. Quando me juntei àqueles milhares de corredores e nos alinhamos para a largada comecei a acreditar que aquele sonho finalmente estava se tornando realidade. É uma sensação indescritível.
Eu larguei no bloco E, mas percebi que muitas pessoas mais lentas tinham largado antes. Nos primeiros quilômetros tive que fazer vários sprints para conseguir me desviar de outros corredores e não reduzir o ritmo. Não foi exatamente como planejei, mas consegui controlar o ritmo.
Hidratação
Como a prova é muito cheia, em vários postos fica difícil pegar água sem parar, especialmente no primeiro. Por isso, uma boa recomendação é levar uma garrafinha na mão para não precisar parar nesse ponto.
Outro detalhe é que a água é servida em copo rígido aberto. Nós, brasileiros, não estamos acostumados. Eu tive muita dificuldade em conseguir beber água correndo com esse copo. Metade ficava pelo caminho!
No fim da prova, quando já estava bem quente, precisei parar para conseguir tomar uma quantidade maior.
A Blue line e a busca do RP
A famosa blue line, linha azul pintada no asfalto para indicar o percurso oficial mais curto e guiar os corredores que buscam fazer seu melhor tempo, é um evento à parte.
Eu fiquei a prova toda me guiando por ela, olhando para o chão para ficar o mais próximo possível. Era quase uma obsessão! Em um momento me dei conta de que estava tão concentrada nela que praticamente não apreciava a cidade. Então, passei a alternar entre uma olhadela na linha azul e outra na cidade e na torcida.
Mas eu não era a única, vi pessoas muito mais fissuradas do que eu ao longo dos 42,195m. Era até engraçado observar.
Como precisei desviar de muitas pessoas ao longo do percurso e sei que o GPS do relógio às vezes falha, mesmo seguindo a blue line, minha distância percorrida deu 42,620m. Mas foi bem divertido segui-la e fazer as tangentes certinhas.
Uma cidade inteira na torcida
A parte mais legal de correr uma prova tão famosa e tão grande quanto Berlim sem dúvida é a torcida! A cidade literalmente para para torcer pelos corredores. Em cada rua, esquina e sacada de apartamento tinha alguém gritando e incentivando. É tanta gente ao longo do percurso que você não vê o tempo passar.
Tinha bandas de todos os estilos, de samba brasileiro ao techno berlinense. Uma verdadeira festa nas ruas de Berlim. Essa energia ajudou a tornar essa experiência ainda mais inesquecível.
Fazendo parte dessa grande torcida estavam minha irmã e meu cunhado. Eles me esperaram em três pontos da prova: próximo ao km 28, km 34 e no portão de Brandemburgo. Eles estiveram comigo na minha primeira maratona e agora novamente em Berlim. Ter pessoas especiais torcendo por você e te incentivando a conquistar seus objetivos dá à prova um sabor diferente e torna a chegada ainda mais emocionante.
Um sonho realizado
Ano passado tentei fazer meu recorde pessoal (RP) na Maratona de Porto Alegre, mas uma dor no pé me impediu de correr rápido e fazer meu melhor tempo; terminei a prova sem conseguir conter as lágrimas.
Berlim me presenteou com uma prova linda e um RP sub-3h30 por muito pouco! Terminei em 3h29'27". Era impossível conter minha felicidade ao passar debaixo do Portão de Brandemburgo. Eu só conseguia sorrir, meu coração estava muito feliz.
Meu desejo mais audacioso para esse dia era ter uma boa folga no meu tempo para me inscrever pra Boston. Eu sabia que seria difícil. Mas uma das coisas mais legais da maratona para mim é ver onde consigo levar meu corpo e o que ele é capaz.
Não tem como normalizar tudo isso que vivi nesse dia. Eu fiz a maratona mais rápida da minha vida, em uma das maiores maratonas do mundo, com suporte da minha irmã e do meu cunhado e tive a oportunidade de compartilhar tudo isso aqui.
Minha primeira maratona major foi inesquecível!
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