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Outubro Rosa: Quando o corpo fala o que a mente silencia

O Outubro Rosa nasceu com a missão de conscientizar sobre o câncer de mama uma doença que, quando identificada precocemente, tem grandes chances de cura

23 out 2025 - 17h57
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Outubro chega envolto por um laço cor-de-rosa. As ruas se enchem de empatia, as campanhas florescem e o discurso da prevenção ganha espaço. É um mês que convida ao cuidado, mas também à reflexão. Porque, enquanto o mundo fala sobre o corpo feminino, há algo que ainda permanece nas entrelinhas: o que acontece com a mente das mulheres que precisam ser fortes o tempo todo?

O Outubro Rosa nasceu com a missão de conscientizar sobre o câncer de mama uma doença que tem grandes chances de cura
O Outubro Rosa nasceu com a missão de conscientizar sobre o câncer de mama uma doença que tem grandes chances de cura
Foto: depositphotos.com / VadimVasenin / Bons Fluidos

O Outubro Rosa nasceu com a missão de conscientizar sobre o câncer de mama uma doença que, quando identificada precocemente, tem grandes chances de cura. A mamografia, o autoexame e as consultas de rotina salvam milhares de vidas todos os anos. Ainda assim, muitas mulheres adiam esse cuidado. E quase nunca é por descuido. É por sobrecarga. Por estarem esgotadas de cuidar de todos, menos delas mesmas.

O peso invisível das mulheres fortes

A saúde mental feminina é um espelho do tempo em que vivemos. Desde cedo, as mulheres aprendem que precisam ser produtivas, agradáveis, eficientes e emocionalmente disponíveis. Aprendem que precisam sustentar a casa, a carreira e o sorriso. A mulher contemporânea foi ensinada a ser incansável e, nesse esforço, perdeu o direito de simplesmente existir sem provar nada a ninguém.

A consequência desse padrão é sutil, mas devastadora. Vem em forma de ansiedade, insônia, irritabilidade, crises de pânico e depressão.

A Organização Mundial da Saúde mostra que as mulheres têm o dobro de probabilidade de desenvolver depressão em comparação aos homens. E isso não é coincidência. É o resultado de uma sociedade que naturaliza a exaustão feminina e ainda chama de "rotina".

A depressão feminina raramente chega de forma escancarada. Ela aparece devagar, escondida em frases como "só estou cansada" ou "é só uma fase difícil". É o cansaço que não passa, mesmo depois do descanso. É a sensação de estar viva, mas sem energia de viver. O corpo manda sinais palpitações, dores, esquecimento, insônia , mas a mulher, acostumada a resistir, cala. Até que o corpo, em algum momento, fala por ela. E, às vezes, grita em forma de doença.

Quando o corpo adoece para dizer o que a mente não conseguiu

Corpo e mente não vivem separados. A psicossomática já nos ensinou isso há décadas: emoções reprimidas e estresse crônico mexem com o sistema imunológico, com os hormônios e com o equilíbrio de todo o organismo.

Mulheres submetidas a longos períodos de estresse mantêm altos níveis de cortisol e adrenalina. Esse estado constante de alerta gera inflamações, fadiga, alterações metabólicas e até vulnerabilidade imunológica. É como se o corpo dissesse, com sintomas, aquilo que a mente não conseguiu expressar.

O câncer de mama tem causas complexas, e não se pode reduzi-lo apenas a fatores emocionais. Mas ele nos lembra da importância de olhar para a vida de forma integral.

A prevenção não é só um ato médico; é um gesto de respeito consigo. É marcar o exame mesmo quando a agenda está cheia. É permitir o descanso sem culpa. É falar sobre medo e dor sem vergonha.

Depressão, ansiedade e o mito da mulher invencível

Vivemos um tempo em que a mulher ocupa espaços antes negados, mas paga um preço alto por isso. O Brasil é o país com maior prevalência de ansiedade do mundo, e as mulheres estão no topo dessa estatística. Elas conquistaram voz, mas perderam silêncio. Conquistaram liberdade, mas ganharam uma carga emocional quase insustentável.

Esperam que sejamos fortes, mas delicadas. Empáticas, mas firmes. Presentes em tudo, mas leves em tudo. É impossível.

Essa corda esticada entre exigência e culpa termina em adoecimento. E o pior é que muitas ainda acreditam que sentir-se exausta é sinal de fraqueza, quando na verdade é apenas humano.

O toque que salva no corpo e na alma

Falar sobre Outubro Rosa é falar sobre cuidado em todas as dimensões. Não o autocuidado que virou moda nas redes sociais, feito de frases prontas e velas perfumadas, mas o autocuidado real: o que exige pausa, vulnerabilidade e presença.

O toque que previne o câncer é o mesmo que cura a alma.

A mamografia é uma forma de amor, e a terapia também é.

O autoexame salva vidas, mas o autoconhecimento salva existências inteiras.

O laço rosa é símbolo, mas precisa vir junto com outro tipo de laço: o laço com nós mesmas.

O convite do Outubro Rosa

Mais do que uma campanha, Outubro Rosa é um lembrete de vida.

É o momento de olhar para o corpo, mas também para o ritmo com que se vive.

É o convite para trocar a pressa por presença, a cobrança por compaixão, a força cega por autocuidado consciente.

Cuidar da mente é um ato de resistência.

Ir à terapia é tão essencial quanto ir ao ginecologista.

E descansar é um ato político num mundo que glorifica a produtividade até dentro da dor.

Que este Outubro Rosa seja mais do que uma data. Que seja um chamado à inteireza.

Que lembre que a verdadeira força está em se acolher, em reconhecer limites, em se permitir respirar.

Porque prevenir não é apenas detectar cedo uma doença.

É cultivar amor por si mesma todos os dias.

É viver de forma inteira corpo, mente e alma com a coragem de quem escolhe, a cada amanhecer, continuar florescendo.

Sobre a autora

Jéssica Martani é médica psiquiatra, especialista em TDAH, saúde mental e regulação emocional. Coordena a pós-graduação em TDAH do Instituto TDAH, reconhecida pelo MEC, em parceria com a Universidade Anhanguera. É colunista da Bons Fluidos (Editora Caras) e criadora do canal Brilhantemente, onde traduz temas complexos e reflexões acessíveis para quem busca equilíbrio emocional e transformação pessoal. Saiba mais em Instagram e YouTube: @dra.jessicamartani

Bons Fluidos
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