Outubro Rosa: a genética pode mudar o tratamento do câncer de mama, mas o acesso ainda é um desafio
O teste genético para câncer de mama pode ajudar a orientar o tratamento. Mas quem terá acesso a esse avanço pelo SUS?
A oncogenética tem transformado o combate ao câncer de mama ao permitir tratamentos personalizados e identificar riscos hereditários por meio dos genes BRCA1 e BRCA2. Um avanço crucial no Brasil foi a incorporação desse sequenciamento genético pelo SUS em 2026, democratizando a medicina de precisão. Contudo, o grande desafio reside em garantir que essa tecnologia se converta em cuidado efetivo, demandando capacitação profissional e uma linha de assistência estruturada para além dos exames.
Quando uma mulher recebe o diagnóstico de câncer de mama, uma das primeiras perguntas costuma ser sobre o tratamento: qual será o próximo passo, quais são as chances de recuperação e como enfrentar a doença?
Hoje, a medicina tem avançado para responder a essas questões de maneira cada vez mais individualizada. E parte dessa resposta pode estar no DNA.
A oncogenética, área que investiga a relação entre alterações genéticas e o desenvolvimento do câncer, vem transformando a maneira como compreendemos a doença.
Em vez de considerar apenas a localização e as características do tumor, os profissionais de saúde podem avaliar informações genéticas que ajudam a orientar decisões terapêuticas e a identificar pessoas com maior predisposição hereditária.
Esse avanço ganhou um capítulo importante no Brasil em 2026. Em maio, o Sistema Único de Saúde (SUS) incorporou o sequenciamento de nova geração (NGS) para identificar alterações nos genes BRCA1 e BRCA2 em mulheres com câncer de mama.
A medida prevê a efetivação da oferta em até 180 dias, um passo importante para ampliar o acesso à medicina de precisão na rede pública.
Mas por que esses genes são tão relevantes?
BRCA1 e BRCA2 participam dos mecanismos de reparo do DNA, ajudando a preservar a integridade das células. Algumas alterações nesses genes comprometem essa função e aumentam a predisposição ao desenvolvimento de determinados tipos de câncer, especialmente de mama e ovário.
Identificar uma variante genética patogênica pode contribuir para a escolha de tratamentos específicos, dependendo do tipo de tumor e do contexto clínico. A informação também pode orientar estratégias de acompanhamento e redução de risco.
Quando a alteração é hereditária, parentes consanguíneos podem se beneficiar de uma avaliação individualizada para verificar se também apresentam essa variante.
É importante, entretanto, esclarecer um ponto: nem todo câncer de mama tem origem hereditária. A maioria dos casos não está diretamente associada a uma predisposição genética herdada.
Além disso, encontrar uma alteração genética não significa que uma pessoa necessariamente desenvolverá câncer. O resultado precisa ser interpretado por profissionais capacitados, considerando a história pessoal e familiar e as demais informações clínicas.
É justamente por isso que o teste, isoladamente, não resolve tudo.
A oncogenética depende de uma linha de cuidado que inclua indicação adequada do exame, interpretação dos resultados, aconselhamento genético quando indicado e acesso às condutas recomendadas.
Nesse cenário, o avanço anunciado pelo SUS representa uma oportunidade, mas também traz uma responsabilidade: garantir que a incorporação da tecnologia se traduza em atendimento efetivo.
É necessário estruturar fluxos de encaminhamento, capacitar profissionais e assegurar que as pacientes elegíveis consigam realizar o exame e receber orientação sobre os resultados.
O histórico familiar continua sendo uma informação importante.
Casos de câncer de mama em idade jovem, múltiplos familiares afetados, câncer de ovário na família ou câncer de mama em homens podem justificar uma avaliação especializada.
Ainda assim, a ausência de histórico familiar não elimina completamente a possibilidade de predisposição hereditária.
Neste Outubro Rosa, precisamos ampliar a conversa para além da mamografia e do diagnóstico precoce, sem diminuir a importância de nenhum deles. A prevenção, o rastreamento e o acompanhamento continuam fundamentais.
Ao mesmo tempo, a genética oferece novas possibilidades para compreender o risco e personalizar o cuidado.
A medicina de precisão não deve ser um privilégio restrito a quem pode pagar por ela. Seu verdadeiro potencial será alcançado quando o conhecimento científico puder orientar decisões clínicas de forma segura, responsável e acessível.
Porque, diante do câncer de mama, conhecer melhor a doença significa também ter mais ferramentas para decidir como enfrentá-la. E transformar conhecimento em cuidado precisa ser um compromisso de toda a sociedade.
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