Script = https://s1.trrsf.com/update-1789154714/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Oferecimento Logo do patrocinador
Publicidade

Os entraves para o avanço da vacinação contra o HPV no Brasil

21 jun 2026 - 09h25
Compartilhar
Exibir comentários

Desconhecimento e discurso antivacina afastam jovens da vacinação contra o HPV. Taxa de cobertura no país ainda está abaixo da meta de 90% estabelecida pela OMS.Falta de conhecimento e a influência de discursos antivacina são entraves para o avanço da vacinação contra o HPV (papilomavírus humano) no Brasil. Sem saber que precisam tomar a dose, adolescentes não buscam os postos de saúde. Por outro lado, pais que desconfiam da segurança ou eficácia do imunizante deixam de vacinar os filhos.

O HPV é uma das doenças sexualmente transmissíveis mais comuns
O HPV é uma das doenças sexualmente transmissíveis mais comuns
Foto: DW / Deutsche Welle

Segundo dados do Ministério da Saúde, no primeiro semestre de 2026, a cobertura era de 74,14% entre meninas de 9 a 14 anos e 66,14% entre os meninos da mesma faixa etária, abaixo da meta de 90%. Como essa é uma das doenças sexualmente transmissíveis mais comuns, a estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que pelo menos 80% da população vai contrair a infecção ao longo da vida.

Sem a proteção da vacina, esses jovens ficam expostos a vários tipos de câncer, como o de colo do útero e o de pênis, causados principalmente após a infecção pelos tipos mais graves do vírus. O imunizante previne contra 96% das variantes mais agressivas do HPV. A preocupação dos especialistas com a hesitação vacinal é de que haja um aumento de casos de câncer evitáveis.

Um estudo da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) concluiu que uma a cada quatro meninas brasileiras de entre 13 e 18 anos não recebeu nenhuma dose da vacina contra o HPV. O resultado foi baseado nas respostas coletadas pela Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE) de 2019, que entrevistou 80,7 mil jovens.

A análise revela que a baixa cobertura vacinal não se restringe a famílias mais carentes: grupos de maior escolaridade e renda também figuram entre os que mais resistem à imunização.

"Podemos suspeitar de duas coisas: uma delas é que as políticas públicas do SUS estão atingindo quem precisa. A outra mais provável é a hesitação vacinal. Especialmente entre grupos mais escolarizados e abastados que tomam decisões individuais e propositalmente deixam de vacinar as filhas, seja por fake news, seja porque não acreditam nas vacinas", diz o epidemiologista Fernando Wehrmeister, que liderou o estudo.

Queda na vacinação

O Ministério da Saúde incorporou a vacina do HPV ao SUS em 2014. O objetivo da pasta era eliminar o câncer de colo do útero, o terceiro mais frequente entre mulheres. A infecção pelos tipos mais agressivos do vírus é responsável por 70% dos casos da doença, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca).

À época, o público-alvo da campanha de vacinação foram meninas de 11 a 13 anos. Depois, foi ampliado para meninas de 9 a 14 anos e incluiu meninos de 11 a 14, uma vez que eles podem transmitir o HPV, e também desenvolver outros tipos de câncer, como o de pênis.

Naquele ano, a cobertura vacinal com a primeira dose chegou a 101,4% entre as meninas de 11 a 14 anos. No entanto, seis meses depois, a procura pela segunda dose do imunizante caiu para 59,8%. Para a pesquisadora de Jornalismo e Marketing, Josimari Quevedo, "houve erros de comunicação pública" da campanha de vacinação, o que contribuiu para a queda.

Na primeira fase da campanha, as peças publicitárias descreviam que a infecção pelo HPV era sexualmente transmissível e que deveria ser aplicada antes da primeira relação, quando a estratégia é mais eficaz. Nesse contexto, grupos religiosos evangélicos e de setores da Igreja Católica se opuseram à vacinação.

"Foi uma grande polêmica, tinham receio de que isso incentivasse as meninas a iniciar a vida sexual, o que não é verdade", pondera Quevedo. Para esse público, a fidelidade no casamento seria a alternativa mais segura para evitar o contágio. Além disso, outros pais se reuniram em associações e mesmo profissionais de saúde criticaram a estratégia.

Pesquisadores da Faculdade de São Leopoldo entrevistaram pais que hesitaram em vacinar os filhos e outros que recusaram a imunização para entender os motivos por trás dessa decisão. Entre o grupo avaliado, 30% disseram que não achavam vacinas seguras, 15% consideravam que as doses não eram eficazes. Outros 13% souberam por terceiros que as crianças tiveram reações adversas e 11% responderam que a imunização não era necessária.

Caso do Acre

A presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBIm), Monica Levi, reforça que esse ambiente gerou insegurança entre as famílias. "Não tiro a razão de pais que não tenham tido a clareza de qual é uma fonte de informação verdadeira ou falsa. Por isso, temos que lidar com várias frentes de comunicação. Depois da vacina da covid-19, a contra o HPV é uma das maiores vítimas da desinformação".

Levi explica que o movimento antivacina distorce e propaga informações erradas sobre efeitos adversos. "Quando se assusta uma população, é difícil tirar o medo. Mas essa é uma vacina muito segura".

Uma das polêmicas que alimentaram essa desconfiança ocorreu no Acre em 2019. À época, 86 meninas que foram vacinadas contra o HPV tiveram sintomas, desde dores de cabeça, febre, convulsões e desmaios. "Houve mães com placas fazendo passeata contra a vacinação", lembra a médica.

Uma investigação do Instituto de Psiquiatria, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), descartou a conexão dos episódios com a vacina e concluiu que dez das meninas tiveram a Crise Psicogênica Não-Epilética (Cnep). O medo da vacinação serviu como gatilho da crise em massa, que se parece com um ataque epiléptico, mas não envolve descargas elétricas; é uma questão psicológica.

Falta de informação

Além de avaliar a proporção de estudantes não vacinados, a PeNSE de 2019 aferiu que metade deles não sabia que precisavam se imunizar. "Há uma dificuldade de chegar a essa faixa etária que tem pouca iniciativa própria de procurar o posto de saúde. Adolescente não acorda com vontade de ir ao posto tomar vacina", frisou Levi.

A infectologista avalia que a comunicação com os adolescentes deve ser assertiva, mas adaptada para cada grupo, dos mais novos aos mais velhos. "O adolescente responde bem quando é orientado e entende o vírus e o que vai causar." Por isso, ela diz que até os 14 anos, o ideal é descrever que a vacina previne o câncer. "Não precisa usar uma linguagem tão pesada".

A campanha atual se preocupa em comunicar a relação entre a vacina e a prevenção do câncer. Uma das estratégias para ampliar a conscientização dos jovens é a campanha de vacinação nas escolas onde os adolescentes são informados sobre a vacina e são imunizados.

"A vacinação em massa com base escolar é fundamental para se ter cobertura para o HPV. Nenhum país do mundo que vacina só em unidade de saúde conseguiu ter boa cobertura", assinala Levi. Além disso, o Ministério da Saúde ampliou a faixa etária do público-alvo para jovens de 15 a 19 anos, com o intuito de imunizar quem não se vacinou nos anos anteriores.

Infecção pelo HPV

O vírus do HPV tem mais de 200 tipos. Na maioria das vezes, a infecção não provoca sinais, mas pode levar a sintomas como verrugas genitais. Outros 12 estão associados ao surgimento de várias formas de câncer, como o de colo de útero e ânus. A infecção ocorre pelo contato com pele ou mucosa infectada e pode ocorrer durante a relação sexual.

A vacina quadrivalente ofertada pelo SUS, aplicada em dose única desde 2024, protege contra quatro cepas: 6, 11, 16 e 18. Em laboratórios privados a dose é a nonavalente. A vacinação é indicada para jovens de 9 a 14 anos, pessoas imunodeprimidas, vítimas de abuso sexual até 45 anos ou quem tem papilomatose respiratória recorrente (PRR) e usuários de profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP).

Desde 2023, há um movimento de retomada da vacinação, que no ano anterior foi de 75,91% de cobertura entre as meninas. Em 2025, essa taxa foi de 86,2% nesse público. "Precisamos de 90% das meninas vacinadas, é um compromisso que o Brasil assinou na OMS para eliminação do câncer de colo do útero. Essa geração de adolescentes tem a oportunidade de viver sem câncer", finalizou Monica Levi.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra