Além da tristeza: os sinais da depressão atípica que muita gente desconhece
Dormir mais, sentir aumento do apetite e até melhorar diante de situações positivas podem fazer parte de um quadro depressivo menos conhecido
A depressão atípica desafia a ideia de que a doença se manifesta apenas por tristeza constante e insônia. Diferente do padrão clássico, ela permite melhoras temporárias de humor diante de fatos positivos e pode provocar aumento de sono e de apetite, sensação de peso nos membros e alta sensibilidade à rejeição. Por serem confundidos com cansaço ou estresse, esses sintomas dificultam a percepção do quadro, tornando essencial a avaliação clínica para diagnosticar a doença e iniciar o tratamento adequado.
Quando pensamos em depressão, alguns sinais costumam vir imediatamente à cabeça: tristeza profunda, falta de disposição, isolamento, insônia e perda de apetite. O problema é que o transtorno não segue um único padrão - e algumas de suas manifestações podem ser bem diferentes desse imaginário.
É o caso da depressão com características atípicas. A pessoa pode dormir por muitas horas, sentir mais fome e até apresentar momentos de alegria quando algo bom acontece. Isso, porém, não significa que ela não esteja enfrentando um quadro depressivo.
Em entrevista ao Portal Drauzio Varella, Ângela Scippa, professora titular e chefe do Departamento de Neurologia e Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Bahia (UFBA), explicou que existe uma grande variedade na forma como a doença se manifesta. "A depressão é uma doença marcada por uma heterogeneidade sintomática considerável. Duas pessoas com um quadro depressivo podem apresentar sintomas bastante diferentes", afirmou a especialista.
O que é a depressão atípica?
Apesar do nome, o termo "atípica" não significa simplesmente uma depressão incomum. Ele é usado para identificar determinadas características que diferem do padrão melancólico tradicionalmente associado ao transtorno.
Uma das principais é a chamada reatividade do humor. Isso significa que uma situação positiva pode provocar uma melhora temporária no estado emocional.
Uma boa notícia, um encontro agradável ou uma experiência divertida, por exemplo, podem fazer com que a pessoa se sinta melhor naquele momento. Depois, no entanto, os sintomas depressivos podem voltar.
É justamente essa oscilação que pode confundir familiares, amigos e até a própria pessoa. Afinal, ainda existe uma ideia equivocada de que alguém com depressão necessariamente permanece triste durante todo o tempo.
Dormir e comer mais também podem ser sinais
Outra diferença importante aparece em sintomas que parecem ir na direção contrária daqueles normalmente associados à depressão. Enquanto algumas pessoas apresentam insônia e redução do apetite, na apresentação atípica pode ocorrer hipersonia, ou seja, aumento do tempo de sono, além de maior apetite e possível ganho de peso.
Também pode surgir uma sensação intensa de peso nos braços e nas pernas, descrita como "paralisia de chumbo". Não se trata de uma paralisia propriamente dita, mas de uma percepção de que os membros estão extremamente pesados, tornando as atividades mais difíceis.
Outro aspecto que merece atenção é a sensibilidade à rejeição. Críticas, afastamentos ou situações interpretadas como rejeição podem provocar sofrimento emocional intenso e repercutir nos relacionamentos, na vida profissional e em outras áreas.
Conseguir rir ou se divertir não descarta depressão
Talvez um dos pontos mais importantes para compreender esse quadro seja justamente abandonar a ideia de que a depressão tem uma única aparência. Uma pessoa pode sair com amigos, rir, trabalhar e demonstrar entusiasmo diante de algo que gosta e, ainda assim, apresentar sintomas depressivos em outros momentos.
"Na depressão atípica, existe a reatividade do humor. Um estímulo positivo consegue provocar uma melhora, ao contrário da apresentação melancólica, em que o humor tende a permanecer deprimido mesmo diante de acontecimentos agradáveis", explicou Scippa.
Na depressão melancólica, por exemplo, costuma existir uma dificuldade mais acentuada para sentir prazer, e acontecimentos positivos podem não produzir a mesma melhora do humor. Alterações como despertar muito cedo, diminuição do apetite e lentificação também podem aparecer.
Essas diferenças ajudam a mostrar por que comparar o sofrimento de uma pessoa ao de outra não é uma boa maneira de tentar identificar a doença.
Por que os sinais podem ser confundidos com cansaço ou estresse?
Algumas características da depressão atípica também são relativamente fáceis de justificar com acontecimentos cotidianos. Dormir demais pode ser atribuído a uma semana cansativa. Comer mais pode parecer consequência da ansiedade ou do estresse. O peso no corpo pode ser interpretado como indisposição. Já a sensibilidade à rejeição pode ser vista apenas como uma característica da personalidade.
Um sintoma isolado, portanto, não é suficiente para concluir que existe depressão. O que merece atenção é o conjunto: há quanto tempo essas mudanças estão presentes? Qual é a intensidade? Elas estão prejudicando trabalho, estudos, relacionamentos, autocuidado ou outras atividades?
Como é feito o diagnóstico?
Não existe um exame de sangue ou de imagem capaz de confirmar sozinho um quadro de depressão. A avaliação é clínica e considera os sintomas apresentados, a história da pessoa, sua duração e o impacto causado na vida cotidiana.
"Na psiquiatria, não existem exames de sangue ou de neuroimagem que determinem se uma pessoa tem depressão. O diagnóstico é clínico, feito a partir da história do paciente, da anamnese e do exame do estado mental", explicou a professora.
A avaliação profissional também é importante porque alterações no sono, apetite, energia e humor podem aparecer em diferentes condições. Por isso, reconhecer alguns sinais em si mesmo não equivale a receber um diagnóstico.
Depressão não tem uma única aparência
Conhecer diferentes manifestações da depressão ajuda a desconstruir um estereótipo perigoso: o de que é possível identificar quem está deprimido apenas observando seu comportamento em determinados momentos.
Uma pessoa não precisa estar triste o tempo inteiro para que seu sofrimento seja significativo. Da mesma maneira, dormir muito, comer mais ou sentir-se melhor depois de uma experiência positiva não são, isoladamente, sinais de depressão.
Quando mudanças emocionais e comportamentais persistem e começam a comprometer a rotina e a qualidade de vida, procurar avaliação de um profissional de saúde mental é importante para entender o que está acontecendo e, quando necessário, definir o tratamento mais adequado.
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