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O Luxo de ainda tentar

Escritor Magno Ribeiro cria um verdadeiro tratado contra o etarismo

26 mar 2026 - 16h57
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O escritor Magno Ribeiro reflete, nesta prosa poético-filosófica, sobre a ideia de que "já não é mais tempo" de começar, especialmente depois dos 50 anos. Partindo da frase "Não importa a sua idade, você sempre vai desejar ter começado mais cedo. Mas hoje é o mais jovem que você vai ser", ele questiona a crença de que o passado é sentença, discute o papel da falha como consequência do movimento e convida a olhar a maturidade não como fim dos começos, mas como o momento mais consciente, e talvez mais urgente, para recomeçar.

Magno Ribeiro
Magno Ribeiro
Foto: Divulgação / Mais Novela

É comum ouvir e, com o tempo, passar a acreditar, que já não é mais tempo.

Tempo de começar, de mudar de direção, de tentar algo que nunca coube na juventude.

A idade, que poderia ser uma medida de densidade de vida, passa a ser tratada como limite: uma espécie de linha imaginária que, uma vez cruzada, decretaria o fim dos começos.

Assim, as oportunidades parecem morar sempre no passado. Como se o "tempo certo" fosse um trem que já partiu, levando consigo todos os projetos que não caberiam mais em um corpo que envelhece.

É nesse cenário que nasce uma forma silenciosa de desistência. Não é a desistência que explode, que faz barulho ou que anuncia rupturas. É outra, mais discreta: aquela que se acomoda.

Projetos são deixados de lado não porque se tornaram impossíveis, mas porque, em algum ponto, alguém sussurrou para si mesmo: "Agora já não faz sentido". E, muitas vezes, esse sussurro não é seu, é herdado. Vem das frustrações acumuladas em uma cultura que confunde falha com prova de incapacidade.

A narrativa é conhecida: se não deu certo antes, insistir seria teimosia; se já se errou uma vez, melhor não arriscar de novo. Mas essa visão ignora um fato simples: falhar não é privilégio de quem erra, é consequência de quem se move.

Falhar é, de certo modo, o luxo de quem ainda tenta.

Depois de uma certa idade, o mundo parece empurrar a ideia de que o lugar "adequado" é o da observação: olhar, comentar, lembrar. Mas há coisas que não se aprendem à distância.

Não se aprende a nadar apenas lendo sobre correntes.

Não se aprende a amar só entendendo definições.

Não se constrói coragem evitando cuidadosamente todo risco.

Não se descobre um novo caminho permanecendo parado.

Não se faz as pazes com o medo apenas negociando com ele em silêncio.

Há experiências que exigem o corpo inteiro, ainda que esse corpo já carregue cicatrizes, cansaços e diagnósticos. Exigem presença, ainda que a energia já não seja a mesma. Exigem o salto, mesmo quando a queda parece mais provável do que antes.

É nesse ponto que uma frase, de autoria desconhecida, ganha contornos muito concretos: "Não importa a sua idade, você sempre vai desejar ter começado mais cedo. Mas hoje é o mais jovem que você vai ser."

A primeira parte é quase uma constatação melancólica: se você começar aos 20, aos 40, aos 60 ou aos 80, é provável que, em algum momento, pense: "Eu poderia ter começado antes". Essa sensação não é um defeito da idade; é uma característica da consciência, ela sempre enxerga, depois, caminhos que não viu antes.

Mas é a segunda parte que importa: "Mas hoje é o mais jovem que você vai ser."

Essa frase, para quem já passou dos 50, deixa de ser slogan motivacional e se torna quase uma verdade anatômica.

Hoje você tem exatamente a melhor combinação de vigor, lucidez, experiência e tempo que voltará a ter. Amanhã, será um pouco menos jovem do que hoje. Isso não é ameaça, é precisão.

"Hoje é o mais jovem que você vai ser" significa:

- Hoje é o dia em que você tem mais tempo pela frente do que terá amanhã.

- Hoje é o dia em que seus limites físicos, embora reais, são menores do que serão mais à frente.

- Hoje é o dia em que você pode escolher se a sua história vai ser apenas registro ou também continuação.

Isso não apaga as marcas do corpo, nem dissolve as responsabilidades, nem simplifica os medos. Mas convida a uma pergunta incômoda e honesta: se não for agora, quando?

Aos 50, 60, 70 anos, o passado é mais longo do que o futuro, e é justamente isso que torna o "agora" mais precioso.

O que passou não é sentença, é arquivo. Um arquivo cheio de falhas, sim, e ainda bem. São elas que mostram que você se mexeu, tentou, confiou, se enganou, recomeçou.

O risco, depois de uma certa idade, não é mais "não alcançar tudo". O risco verdadeiro é alinhar-se à ideia de que já é tarde demais para alcançar qualquer coisa que ainda faça sentido.

Hoje ainda é campo aberto, ainda que menor.

Ainda há margem para pequenas revoluções: aprender algo novo, encerrar um ciclo que se arrasta, dizer "não" onde sempre se disse "sim", dizer "sim" onde antes havia medo.

Ainda há espaço para começar um projeto que talvez não fique pronto, mas que, ao menos, será vivido.

Recomeçar aos 50, 60, 70 não é tentar imitar a juventude. É fazer algo que a juventude raramente sabe fazer: escolher com consciência. Com mais clareza sobre o que importa. Com menos necessidade de provar algo aos outros. Com uma estranha liberdade que só chega quando já se perdeu tempo demais tentando caber em expectativas alheias.

No fim das contas, não é o calendário que define o limite das coisas.

É a interpretação que você faz dele.

Você pode olhar para a sua idade como um aviso de encerramento ou como um chamado à essência: o que, de fato, ainda vale viver, aprender, arriscar, entregar?

"Hoje é o mais jovem que você vai ser" não é um grito para correr desesperado, mas um lembrete sereno: se existe algo que ainda faz sentido para você, por menor que seja, por mais tarde que pareça, o tempo ideal não era lá atrás.

O tempo ideal é o tempo disponível. E esse tempo, enquanto você está vivo, se chama hoje.

Mais Novela
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