Nossa postura corporal pode influenciar no humor e até no comportamento, aponta estudo
Estudo indica que manter uma postura mais ereta pode favorecer emoções positivas e influenciar a forma como tomamos decisões no dia a dia
Você já percebeu que, em dias de desânimo, a tendência é encolher os ombros e curvar a coluna? Embora pareça apenas um reflexo do estado emocional, a ciência indica que a relação pode funcionar também no sentido contrário: a postura corporal pode influenciar a maneira como nos sentimos e até a forma como tomamos decisões.
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade McGill, no Canadá, investigou como pequenas mudanças na posição do corpo afetam o comportamento. Os resultados, publicados na revista British Journal of Psychology, sugerem que permanecer sentado com a coluna mais ereta pode aumentar sentimentos positivos e favorecer decisões mais confiantes, sem tornar a pessoa impulsiva.
O corpo também conversa com a mente
A pesquisa foi desenvolvida para testar uma ideia conhecida como "feedback postural", segundo a qual o corpo não apenas expressa emoções, mas também pode contribuir para moldá-las. Diferentemente de estudos anteriores, os participantes não receberam instruções para adotar uma postura específica. Em vez disso, os pesquisadores alteraram discretamente o ambiente.
Ao todo, participaram do experimento 198 adultos. Para parte do grupo, o tablet utilizado durante a atividade foi colocado em uma posição mais elevada, incentivando naturalmente uma postura ereta. Para os demais, o aparelho ficou mais baixo, fazendo com que precisassem se inclinar para frente durante a tarefa. Os voluntários não foram informados de que a postura fazia parte da pesquisa.
O teste do balão
Depois de responderem questionários sobre humor e estado emocional, os participantes realizaram um experimento conhecido como BART (Balloon Analogue Risk Task), bastante utilizado para avaliar a tomada de decisões.
Na atividade, era preciso inflar um balão virtual. Cada clique aumentava a recompensa acumulada, mas também elevava a chance de o balão estourar e fazer a pessoa perder tudo daquela rodada. O desafio era decidir o momento ideal para parar.
Os resultados mostraram que quem permaneceu sentado de forma mais ereta assumiu riscos maiores, mas de maneira estratégica. "Isso sugere que eles não estavam agindo de forma mais impulsiva, mas sim se envolvendo em uma tomada de risco mais eficaz", explica Jorge Armony, professor dos departamentos de psiquiatria e psicologia da Universidade McGill e autor principal do estudo.
Na prática, essas pessoas inflaram mais os balões antes de parar, mas não provocaram mais explosões do que os demais participantes, indicando que as decisões foram mais calculadas e não simplesmente impulsivas.
Pequenas mudanças, efeitos sutis
Os pesquisadores também observaram diferenças discretas no estado emocional. Os participantes com postura mais ereta relataram maior sensação de orgulho e apresentaram um leve aumento em emoções positivas. Para confirmar que a manipulação realmente havia alterado a postura, a equipe utilizou um software capaz de medir o ângulo do pescoço durante toda a atividade.
Outro dado interessante é que a maioria dos voluntários nem percebeu que sua posição corporal estava sendo influenciada pela altura do tablet. Mesmo assim, os resultados permaneceram semelhantes, reforçando a hipótese de que elementos comuns do ambiente podem afetar nosso comportamento de forma inconsciente.
O que isso significa no dia a dia?
Os autores fazem questão de destacar que os resultados devem ser interpretados com cautela. A pesquisa não indica que simplesmente sentar-se com a coluna reta fará alguém tomar decisões melhores ou transformar completamente o humor. Além disso, o estudo foi realizado em ambiente de laboratório e contou, principalmente, com mulheres jovens universitárias, o que limita a generalização dos achados.
Ainda assim, a investigação abre espaço para refletir sobre a importância da ergonomia em casa e no trabalho. A altura da cadeira, da mesa ou do monitor pode não apenas contribuir para o conforto físico. Mas também exercer uma influência sutil sobre como nos sentimos e enfrentamos os desafios do cotidiano.
Como resume Jorge Armony, embora os efeitos sejam modestos, eles mostram que corpo e mente estão mais conectados do que imaginamos - e que detalhes aparentemente simples do ambiente podem participar dessa relação.
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