Musical sobre Gilberto Gil mostra como sua arte virou instrumento de resistência
Espetáculo dirigido por Miguel Falabella revisita exílio, ditadura, ancestralidade e momentos pessoais que ajudaram a construir a trajetória do cantor
Com direção de Miguel Falabella e protagonizado por Gui Ventura, o musical "Gil - Andar com Fé" estreia no Teatro Santander, em São Paulo. A produção revisita a trajetória de Gilberto Gil e sua geração, destacando a arte como resistência à ditadura militar. O espetáculo aborda desde a infância na Bahia até a Tropicália, o exílio em Londres e as influências africanas, retratando momentos marcantes de censura e a constante reinvenção cultural do músico. A temporada vai até 11 de outubro.
A trajetória de Gilberto Gil se confunde com alguns dos momentos mais importantes da história cultural brasileira. Entre música, política, identidade e transformação, o artista construiu uma obra que atravessou fronteiras e encontrou na criatividade uma maneira de responder até aos períodos mais difíceis de sua vida.
É justamente esse caminho que inspira Gil - Andar com Fé, musical dirigido por Miguel Falabella e protagonizado por Gui Ventura. O espetáculo estreia nesta quinta-feira (20), no Teatro Santander, em São Paulo, e revisita diferentes momentos da vida do cantor - da infância na Bahia ao exílio, passando pela Tropicália, pelas influências africanas e por episódios marcantes de sua vida pessoal.
Mais do que contar a história de Gil, porém, a produção busca retratar toda uma geração que encontrou na arte uma forma de questionar padrões e resistir à repressão. "Conceitualmente, a gente precisava homenagear uma geração, um movimento no final dos anos 1960 que veio com o pé na porta e nos salvou de uma caretice absoluta, da qual não haveria saída", afirma Falabella, à Folha. "Não é à toa que eles foram massacrados."
O exílio como ponto de partida
O musical escolhe começar por um dos períodos mais delicados da trajetória de Gilberto Gil. Depois de ser preso pela ditadura militar em 1968, o músico deixou o Brasil e seguiu para Londres ao lado de Caetano Veloso, que também havia sido detido.
O afastamento forçado do país, entretanto, também colocou Gil diante de novas referências culturais. Na capital inglesa, ele acompanhou de perto uma cena artística intensa e comprou sua primeira guitarra, uma Gibson 335. A partir daí, ampliou ainda mais o diálogo entre a música brasileira e elementos do rock produzido fora do país.
Para Newton Moreno, responsável pela dramaturgia do espetáculo, iniciar a narrativa justamente pelo exílio também permite mostrar Gil em um momento de profunda transformação. "Eu queria pegar um lugar de crise do Gil. E me pareceu que a crise ali era familiar, geográfica e política."
A escolha ainda funciona como uma reflexão sobre o autoritarismo e sobre a maneira como artistas podem reagir aos acontecimentos de seu próprio tempo. "Para nós, artistas, é uma lição de como devemos estar sempre representando o país e o tempo por meio da arte", diz Moreno.
Da infância na Bahia à descoberta da música
Embora o exílio abra a história, o espetáculo não segue uma linha cronológica tradicional. Passado, presente e futuro se encontram ao longo da peça, em uma estrutura inspirada pela concepção de tempo da cultura iorubá.
Quem conduz essa viagem é o Tempo-Rei, personagem interpretado por Guga Barbosa e inspirado na conhecida canção de Gil. A figura funciona como um guia que acompanha o público por diferentes fases da vida do músico.
Entre elas está sua infância em Ituaçu, no interior da Bahia. Foi ali que Gil começou sua relação com os instrumentos musicais e, aos 10 anos, aprendeu a tocar acordeão, influenciado pelo baião de Luiz Gonzaga.
A cenografia também ajuda a reconstruir essas memórias e diferentes referências da arte brasileira. Bandeirinhas remetem às obras de Alfredo Volpi, enquanto rampas no palco fazem referência às formas presentes no trabalho de Lygia Clark.
O espetáculo ainda aborda a história familiar do cantor. O pai de Gil, formado em medicina, mudou-se com a família de Salvador diante das dificuldades para exercer a profissão na capital. Na montagem, o personagem associa esses obstáculos ao racismo.
A aproximação com a África transforma sua música
As questões de identidade e ancestralidade ganham ainda mais espaço quando a narrativa chega a 1977, ano em que Gil viajou para Lagos, na Nigéria. A experiência aproximou o brasileiro de novas manifestações musicais, entre elas o afrobeat de Fela Kuti, e teve impacto direto sobre sua produção artística. Dessa aproximação nasceu Refavela, álbum que incorporou diferentes sonoridades, incluindo reggae e juju music, e trouxe músicas como "Aqui e Agora" e "Ilê Ayê".
No palco, esse encontro com as culturas negras aparece em um número que reúne diferentes canções da carreira de Gil, entre elas "Haiti", "Ladeira da Preguiça", "Babá Alapalá" e "Punk da Periferia". "Esse segmento é muito bonito porque ele canta esses novos ritmos, essas novas sonoridades", explica Falabella.
Para o diretor, essa capacidade de experimentar e transformar referências foi uma característica importante não apenas de Gil, mas dos artistas de sua geração. "Por mais que tenham encontrado na caretice uma oposição, eles foram um vento novo que varreu tudo."
Quando a poesia se tornou resistência
Um dos aspectos centrais de Gil - Andar com Fé é mostrar como a música também se tornou uma ferramenta para enfrentar a repressão durante a ditadura militar. Um dos episódios retratados é o de "Cálice", composição de Gilberto Gil e Chico Buarque que utilizou jogos de palavras para abordar a censura e a violência daquele período.
Em 1973, os dois tentaram apresentar a canção durante um evento em São Paulo, mas tiveram seus microfones desligados pelos censores. A situação, que se tornou um dos episódios emblemáticos da relação entre música e repressão no Brasil, ganha espaço na montagem.
Ao mesmo tempo, a peça coloca no palco outros artistas fundamentais daquele período. Gal Costa, Caetano Veloso e Maria Bethânia aparecem representados por intérpretes, reforçando os laços de Gil com uma geração que modificou profundamente a música brasileira. Juntos, os quatro formariam, em 1976, os Doces Bárbaros.
Uma obra que continua abrindo caminhos
Ao reunir episódios políticos, familiares, culturais e afetivos, Gil - Andar com Fé procura mostrar que a importância de Gilberto Gil não está somente nas canções que deixou para a música brasileira, mas também na disposição para experimentar e encontrar novas possibilidades artísticas.
O musical fica em cartaz no Teatro Santander, em São Paulo, até 11 de outubro. As apresentações acontecem às quintas e sextas-feiras, às 20h; aos sábados, às 16h e às 20h; e aos domingos, às 15h e às 19h.
Os ingressos custam a partir de R$ 50, com venda pela Sympla. A classificação indicativa é de 12 anos. Além de Gui Ventura, o elenco conta com Guga Barbosa e Henrique Zamith, sob direção de Miguel Falabella.
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