Morre Vera Valdez, aos 89 anos; conheça história da primeira top model brasileira
Primeira top model brasileira, Vera Valdez construiu uma trajetória pioneira entre a alta-costura europeia, o teatro experimental e o cinema nacional
Ícone de uma geração que atravessou moda, teatro e cinema com elegância e ousadia, Vera Barreto Leite Valdez morreu aos 89 anos, nesta quinta-feira (14). A notícia foi confirmada nas redes sociais do Teatro Oficina, coletivo artístico do qual fez parte por décadas e onde construiu uma relação profunda com o palco, a criação e os afetos.
"Hoje à tarde, Vera partiu. VOA, VERA! ETERNA! Muito amor por essa maneca", dizia a homenagem publicada pelo teatro, que rapidamente reuniu mensagens de artistas e amigos. Entre elas, a de Matheus Nachtergaele: "Meus sentimentos profundos ao Teatro, a familiares e amigos. Amo a Vera".
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Da infância itinerante ao centro da alta-costura
Nascida no Rio de Janeiro em 1936, Vera cresceu entre países por ser filha de diplomatas. Estudou em Portugal e na França e, ainda adolescente, foi descoberta em Paris. Aos 15 anos, já desfilava para Elsa Schiaparelli - início de uma trajetória que a colocaria entre as raras estrangeiras a circular com naturalidade nas maisons mais fechadas do pós-guerra.
Nos anos 1950 e 1960, integrou os elencos de Christian Dior e Coco Chanel, tornando-se uma das modelos de confiança da Chanel. Ali, não era apenas rosto: interpretava o espírito de liberdade e movimento que a estilista defendia. Sobre Dior, diria anos depois: "Costureiro espetacular, abriu a moda para o mundo".
Em Paris, Vera e suas colegas ficaram conhecidas como Les Blousons Chanel, jovens que levavam os tailleurs para a rua, para a noite e para a vida real. "As portas se abriam para nós, a bebida surgia do nada", lembrava - um retrato de uma moda viva, feita para mulheres ativas e independentes.
O retorno e a consolidação da moda brasileira
De volta ao Brasil, Vera tornou-se referência imediata. Foi musa de Dener Pamplona de Abreu, ajudando a construir uma alta-costura local sofisticada, autoral e conectada ao mundo. Sua formação internacional contribuiu para profissionalizar e internacionalizar a moda nacional. Em 1970, aos 34 anos, fez seu último desfile para a Chanel, encerrando um ciclo histórico.
Teatro, cinema e a vida em cena
Enquanto hoje celebridades migram para a passarela, naquela época o caminho era inverso: a moda abria portas para outras linguagens. Vera foi pioneira também nisso. No teatro, tornou-se figura central do Teatro Oficina, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa, e construiu laços com nomes como Cacilda Becker.
No cinema, atuou em As Cariocas, de Walter Hugo Khouri, e em O Homem Nu, de Roberto Santos. Em 2009, participou da minissérie Som & Fúria. Dois anos atrás, voltou ao palco com Vozes Humanas, diálogo entre vida, memória e arte. Vera foi casada com o ator Luis Linhares e, em seu segundo casamento, com Pedro Moraes, teve a filha Mariana de Moraes.
Um legado que atravessa o tempo
Primeira top model brasileira, atriz de presença magnética e mulher à frente de seu tempo, Vera Valdez deixa um legado raro: o de quem ajudou a colocar o Brasil no mapa da moda internacional sem abrir mão da cena, da palavra e do risco criativo. Entre ateliês e palcos, ela viveu como se a arte fosse sempre um gesto de liberdade - e é assim que seguirá lembrada.