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Infertilidade masculina é um problema silencioso e ainda ignorado

26 set 2026 - 12h41
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Resumo
A fertilidade masculina enfrenta uma queda global acelerada, com redução superior a 51% na contagem e piora na qualidade dos espermatozoides desde 1973. Frequentemente ignorado e subnotificado, o problema costuma ser descoberto tardiamente, agravado por fatores como obesidade, estresse, tabagismo e uso de esteroides anabolizantes. Embora exames preventivos ainda sejam raros entre homens, o diagnóstico precoce e a mudança de hábitos possibilitam a reversão do quadro na maioria dos casos.

A fertilidade masculina está em queda no mundo tudo. Frequentemente, homens só descobrem essa incapacidade quando tentam ter filho e depois de exames de mulheres. Resultado de tratamento depende de descoberta precoce.A contagem de espermatozoides caiu mais de 51% em todo o mundo desde 1973, e o ritmo dessa queda vem se acelerando, segundo uma revisão de estudos publicada em 2026 na revista científica Antioxidants. Ainda assim, homens continuam sendo menos propensos a investigar possíveis problemas de fertilidade do que mulheres.

"A infertilidade masculina é subestimada. É um problema enorme", afirma Edidiong Akang, biólogo reprodutivo da Universidade de Lagos, na Nigéria.

Em um estudo liderado por Akang e publicado em 2023 na revista Scientific Reports, pesquisadores analisaram amostras de sêmen de mais de 17 mil homens. Os resultados mostraram que a qualidade da morfologia dos espermatozoides, ou seja, sua forma e tamanho, piorou cerca de 50% entre 2010 e 2019.

A motilidade espermática, que mede a capacidade dos espermatozoides de se deslocarem até o óvulo, também apresentou queda acentuada. Na Nigéria, por exemplo, a redução foi de 87% no mesmo período.

Segundo Akang, a parcela masculina nos casos de infertilidade é "amplamente subnotificada", o que contribui para uma compreensão limitada do problema.

O que afeta a fertilidade masculina?

A fertilidade masculina depende de vários fatores ligados à qualidade do esperma, como forma, tamanho, motilidade, concentração e contagem total de espermatozoides. A contagem é frequentemente usada como indicador da fertilidade porque milhões deles tentam alcançar o óvulo, mas apenas um consegue fecundá-lo.

Esses parâmetros podem ser afetados por diferentes condições de saúde e hábitos de vida. Entre os fatores associados à infertilidade masculina estão excesso de peso, estresse, privação de sono, tabagismo, exposição a microplásticos e consumo de maconha.

O ganho de peso, em especial, pode prejudicar o funcionamento dos testículos, responsáveis pela produção de espermatozoides e hormônios como a testosterona.

Para funcionar adequadamente, os testículos precisam permanecer cerca de 2 °C abaixo da temperatura corporal. O excesso de gordura aumenta essa temperatura, o que pode comprometer a concentração, a quantidade e a motilidade dos espermatozoides.

Por que a infertilidade masculina costuma passar despercebida?

A saúde reprodutiva masculina frequentemente recebe menos atenção. Homens com menos de 40 anos, por exemplo, geralmente não fazem exames regulares relacionados à fertilidade. Mesmo durante consultas com um urologista, a contagem de espermatozoides só costuma ser avaliada se o paciente solicitar.

As mulheres, por outro lado, contam com sinais biológicos mais regulares, como o ciclo menstrual, que podem indicar quando algo não está funcionando corretamente.

Homens não têm um indicador natural semelhante sobre sua fertilidade. Muitas vezes, só descobrem um possível problema quando tentam ter filhos. Nessa fase, já podem ter entre 30 e 40 anos, quando algumas alterações de saúde são mais difíceis de reverter.

Riffat Bibi, embriologista clínica que dirige um laboratório de fertilização in vitro (FIV) no Paquistão há 17 anos, afirma que muitos homens chegam à clínica dizendo: "Primeiro, examine minha esposa". Em alguns casos, relata ela, é a sogra quem leva a nora para a consulta, sugerindo a percepção de que a dificuldade para engravidar não poderia estar relacionada ao filho.

Segundo Bibi, muitos pacientes também acreditam que ter uma vida sexual ativa significa automaticamente ser fértil, o que nem sempre é verdade. Hoje, cerca de 80% dos casos atendidos por ela envolvem algum fator masculino, percentual bem acima da divisão de 50% para cada sexo tradicionalmente assumida em muitos estudos.

A mudança também tem sido observada nos tratamentos de fertilização in vitro. De acordo com Bibi, a qualidade do esperma caiu tanto que quase todos os pacientes precisam recorrer a uma técnica em que um embriologista seleciona um único espermatozoide e o injeta diretamente no óvulo.

Testosterona sintética pode interromper a produção de esperma

Outro fator relevante, mas pouco discutido,é o uso de testosterona sintética ou esteroides. Homens em busca de mais massa muscular podem acabar reduzindo ou interrompendo a própria produção de espermatozoides sem perceber. Isso ocorre porque os anabolizantes são versões sintéticas da testosterona.

Segundo Harrison Pope, pesquisador da Faculdade de Medicina de Harvard, os esteroides são altamente eficazes para melhorar o desempenho físico. Mesmo uma pessoa que fuma, bebe e treina de forma irregular pode superar atletas disciplinados que não utilizam essas substâncias.

Mas o ganho de performance pode custar a fertilidade. O excesso de testosterona no organismo pode interromper a produção de espermatozoides. Em condições normais, o corpo regula naturalmente seus níveis hormonais. Tanto o excesso quanto a deficiência de testosterona podem prejudicar a produção de esperma.

Embora a fertilidade possa se recuperar após a interrupção dos suplementos hormonais, o processo depende de fatores como idade, a dose utilizada e o tempo de uso.

Usuários ocasionais de esteroides costumam recuperar níveis considerados normais de espermatozoides. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define como normal uma concentração de cerca de 16 milhões de espermatozoides por mililitro de sêmen ou mais. Já usuários frequentes e de longo prazo frequentemente não conseguem retornar aos níveis de produção que tinham anteriormente.

Efeitos podem persistir por anos

O uso de esteroides geralmente ocorre em ciclos, alternando períodos de consumo e interrupção para permitir a recuperação do organismo. Mas um estudo realizado na Holanda que acompanhou 100 homens durante um ciclo de anabolizantes, e por um ano após o tratamento, encontrou resultados preocupantes: dois terços ainda apresentavam contagens muito baixas de espermatozoides ao final desse período. Alguns não produziam nenhum espermatozoide, e muitos continuavam abaixo dos níveis considerados normais, mesmo um ano depois.

Ainda assim, os especialistas ressaltam que os esteroides explicam apenas uma pequena parcela dos casos de infertilidade masculina. Na Índia, por exemplo, o andrologista Chirag Bhandari, diretor do Instituto de Andrologia e Saúde Sexual de Jaipur, estima que os anabolizantes respondam por menos de 0,1% da queda na contagem de espermatozoides observada no país. Entre as causas mais frequentes estão excesso de peso, exposição prolongada ao calor e tabagismo.

A boa notícia é que, quando o problema é identificado precocemente, a recuperação costuma ser possível. Segundo Bhandari e Bibi, muitos homens conseguem normalizar a contagem de espermatozoides entre seis e doze meses após mudanças no estilo de vida ou tratamento adequado. Mas quanto mais tempo a infertilidade passa sem diagnóstico, menores tendem a ser as chances de reversão.

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