Gravidez não cura a endometriose; entenda por que os sintomas podem melhorar
Cirurgião ginecológico explica que a gestação e a amamentação aliviam temporariamente os sintomas da endometriose, mas não eliminam a doença nem seus riscos
Embora a gravidez e a amamentação possam aliviar temporariamente as dores da endometriose devido às alterações hormonais e à ausência de menstruação, a gestação não cura a doença. Segundo especialistas, as lesões apenas atrofiam de forma temporária e podem voltar com o ciclo menstrual. Além disso, a condição exige acompanhamento médico adequado, pois eleva o risco de complicações obstétricas como pré-eclâmpsia e parto prematuro, sendo o diagnóstico prévio essencial para a saúde materna e fetal.
Para algumas mulheres com endometriose, a gravidez pode vir acompanhada de uma mudança importante: sintomas que antes faziam parte da rotina, como as dores, podem diminuir consideravelmente. Essa melhora temporária, porém, ajudou a alimentar uma crença equivocada que ainda persiste: a de que engravidar seria capaz de curar a doença.
Na realidade, o alívio observado durante a gestação e, muitas vezes, durante a amamentação, está relacionado principalmente às mudanças hormonais características dessas fases. As lesões de endometriose não necessariamente deixam de existir e podem voltar a provocar sintomas depois que os ciclos menstruais retornam.
Por que os sintomas podem melhorar durante a gravidez?
O cirurgião ginecológico Dr. Igor Chiminacio, criador da chamada Teoria do Polvo - modelo que compara a endometriose a um polvo para ilustrar como a doença pode alcançar diferentes órgãos e provocar manifestações que vão além das cólicas menstruais - explica que a ausência da menstruação durante a gestação interrompe temporariamente um importante estímulo relacionado à doença.
"Durante a gravidez, a paciente costuma apresentar um alívio dos sintomas que pode se estender pela amamentação. O tratamento natural mais próximo que existe para a endometriose é justamente a amamentação, porque o bloqueio hormonal desse período provoca uma atrofia temporária das lesões. Mas isso não significa que a doença desapareceu", explica.
Dentro da comparação proposta pelo médico, seria como se os "tentáculos" da endometriose passassem por um período de menor atividade. Isso não significa, entretanto, que as lesões tenham sido eliminadas. Com o fim da amamentação e a retomada dos ciclos menstruais, elas podem voltar a se manifestar.
Mudanças na maternidade também ajudam a entender o cenário
O comportamento reprodutivo feminino passou por grandes transformações ao longo das últimas décadas. Se antigamente era mais comum ter filhos cedo e passar períodos maiores entre gestações e amamentação, atualmente muitas mulheres optam por engravidar pela primeira vez depois dos 30 ou 35 anos.
Isso significa que, antes da primeira gestação, elas podem ter passado muitos anos apresentando ciclos menstruais. Para pacientes com endometriose, esse período pode favorecer a progressão de processos inflamatórios e de fibrose associados à doença.
"Essa exposição prolongada faz com que muitas pacientes cheguem à gravidez já com um quadro avançado de inflamação e fibrose. Isso pode deixar o útero menos elástico e comprometer a circulação sanguínea, aumentando o risco de complicações obstétricas", afirma Dr. Igor.
Endometriose exige atenção também durante a gestação
Ter endometriose não significa que uma mulher necessariamente enfrentará problemas durante a gravidez. No entanto, a doença está associada a um risco maior de algumas complicações, o que torna o acompanhamento adequado ainda mais importante.
Entre os possíveis problemas estão pré-eclâmpsia, parto prematuro, restrição do crescimento fetal e perda gestacional precoce. Segundo o especialista, alterações provocadas pela inflamação e pela fibrose podem prejudicar a capacidade de expansão do útero e interferir na circulação sanguínea que chega à placenta.
Apesar disso, a maioria das pacientes com endometriose pode ter uma gestação saudável quando recebe acompanhamento adequado. Saber da presença da doença antes de engravidar permite que os profissionais avaliem o quadro e planejem os cuidados necessários.
Quando o diagnóstico só acontece durante a própria gestação, também é possível adotar um acompanhamento mais atento, observando tanto a saúde da mãe quanto o desenvolvimento do bebê.
Gravidez não deve ser encarada como tratamento
Embora meses sem menstruar possam proporcionar uma pausa nos sintomas, engravidar não deve ser entendido como uma forma de tratar a endometriose. A melhora temporária não significa que a origem do problema tenha sido resolvida.
"O ideal é diagnosticar a endometriose antes da gravidez, mas, quando isso não acontece, ainda é possível acompanhar essa gestação de forma mais cuidadosa. Com o diagnóstico e o pré-natal adequados, conseguimos minimizar riscos e oferecer mais segurança para a mãe e para o bebê. A gravidez pode aliviar os sintomas por um período, mas não trata a causa da doença. O diagnóstico precoce continua sendo a melhor forma de preservar a fertilidade e reduzir complicações futuras", conclui Dr. Igor.
Por isso, diante de sintomas compatíveis com endometriose, a avaliação ginecológica continua sendo fundamental. Identificar a condição precocemente permite discutir as possibilidades de tratamento e também planejar uma futura gestação de maneira mais segura, de acordo com as particularidades de cada paciente.
Sobre o especialista
Dr. Igor Chiminacio é cirurgião ginecológico, pesquisador e especialista no tratamento cirúrgico da endometriose. Habilitado em Endoscopia Ginecológica pela Associação Médica Brasileira (AMB) e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Membro da AAGL desde 2018, também idealizou o EndoAir, projeto que amplia o acesso ao tratamento especializado, promove educação médica e conscientiza sobre a endometriose em diferentes estados brasileiros. Atua com atendimento presencial em São Paulo, Curitiba, Pato Branco e Brasília, além de consultas por telemedicina.
*Fonte: DUO Assessoria
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