Entrevista exclusiva: Tiê fala de novo álbum, maternidade e carreira
Tiê em nova fase
Em turnê pelo Brasil, a cantora Tiê detalhou seu novo projeto duplo, iniciado com o EP "Esgotada" e que será completado por "Amorosa". A artista reflete sobre a sobrecarga materna e social, a dor do luto gestacional e a importância da sua rede de apoio para conciliar a criação das três filhas com a carreira. Ela também celebra a parceria com Thomas Roth na faixa "Tempo pra Mim", sua ligação familiar histórica com a televisão brasileira e o poder curativo de transformar vulnerabilidades em arte.
Cantora abre o coração sobre carreira, maternidade e seu novo projeto, Esgotada & Amorosa
"O retorno tem sido muito profundo, tanto entre mães quanto entre pessoas mais jovens. Sinto que muita gente se identificou com o nome, apesar de ser um nome difícil para fazer turnê", inicia a artista ao se referir a Esgotada, seu EP de 8 faixas lançado em março. Ainda neste semestre, o projeto ganhará uma continuação chamada Amorosa, com mais 8 músicas. "Assim, os dois discos se tornam lados de uma mesma experiência", complementa.
A turnê Esgotada & Amorosa já está rodando o Brasil e, em entrevista exclusiva à MALU, a cantora conversou sobre o processo de produção do álbum, a importância da arte em momentos difíceis e as lições que aprendeu com a maternidade e a carreira. Confira!
O título Esgotada carrega uma carga emocional. Em que momento você percebeu que esse sentimento precisava virar arte?
"Inicialmente, o projeto se chamava apenas Amorosa, uma homenagem ao álbum Amoroso, de João Gilberto — o disco que me fez ser a cantora que sou hoje, de procurar cantar com delicadeza e suavidade — e também traz os nomes de duas das minhas filhas, Amora e Rosa. Durante o processo, percebi que o material daria para dois discos e comecei a me perguntar: 'Amorosa e o quê?'. Até cogitei Amorosa e Feliz, para incluir o nome da minha outra filha, Liz. Foi então que percebi que Esgotada traduzia exatamente o sentimento que eu estava vivendo naquele momento, tão presente que resolvi lançá-lo antes. Inverti a ordem. O esgotamento não é apenas materno, mas também social. Tenho percebido que muitas pessoas se identificam com esse sentimento."
Encerrar o trabalho com Tempo pra Mim, em parceria com Thomas Roth, resgata suas origens musicais. Como foi reconectar com essa referência?
"Mais do que uma parceria, Tempo pra Mim é outro presente. O Thomas é um cara que admiro demais. Brinco que foi graças à música dele, Quero, que a Elis Regina cantava, que plantou em mim a sementinha de ser cantora. Lembro-me de, ainda pequena, cantar segurando o vinil da minha mãe e sentir uma emoção muito forte. Quando conheci o Thomas, já adulta, declarei essa paixão musical e ficamos muito amigos. Então pedi esse presente: 'Thomas, quero que você faça uma música sobre o meu tempo, sobre a minha vida'. Virou uma parceria porque tive a chance de ajustar um pouco a letra, mas mantendo o toque dele, que é um dos grandes compositores."
Suas músicas já embalaram momentos marcantes da televisão. Como foi perceber que suas canções fazem parte da memória afetiva do público?
"É muito legal ver músicas na novela, porque você percebe como a arte entra na casa das pessoas. A novela ajuda a sair do seu nicho e alcançar públicos que você não atingiria normalmente. Além disso, sou neta dessa história: minha avó, Vida Alves, fez a vida nas novelas e deu o primeiro beijo da televisão brasileira, em 1952, na novela Sua Vida Me Pertence. A atuação e a dramaturgia sempre fizeram parte da minha vida. Estar nas trilhas sonoras é um privilégio."
Sendo mãe de três meninas, empresária e artista em constante turnê, como equilibra as exigências da rotina sem deixar que o 'esgotamento' do título do álbum se torne uma constante?
"Ser mãe, em qualquer carreira, é uma loucura. A gente tenta fazer o máximo, mas também falha, porque nem sempre é possível estar em dois lugares ao mesmo tempo. Às vezes falhamos na carreira, às vezes sentimos que falhamos como mães, e acho importante reconhecer essa realidade. É maravilhoso ser mãe de três meninas e aprender tanto com elas. Essa potência de gerar outra pessoa é incrível, mas a gente também se esgota com aquilo que ama. É importante entender e assumir isso. Felizmente, me organizo com uma rede de apoio familiar e profissional. Hoje temos um time feminino fortíssimo que traz estrutura para os pensamentos, decisões e planejamento."
Você trabalha suas vulnerabilidades na arte, abordando temas difíceis como o luto gestacional. Como foi esse processo de usar a música para transformar dores em poesia?
"O processo de encarar as dores e se analisar é difícil, mas libertador. O luto gestacional foi algo muito novo e doloroso para mim. Eu nunca tinha perdido uma gestação e entendi o quanto a gente se culpa e como isso pode ser solitário — só quem gera sente a real dimensão dessa perda. Fala-se sobre a legalização do aborto, mas pouco sobre o luto gestacional involuntário. Isso me atravessou de várias maneiras, pois percebi quantas amigas já tinham passado por isso em silêncio. A arte vem para colocar para fora, compartilhar e curar dores. Mesmo sem uma letra explicitamente sobre isso, esse sentimento permeou toda a produção do disco."
Uma lição que a maternidade te ensinou e que nada mais ensinaria, e uma lição que a música te deu que você não aprenderia em outro lugar?
"A lição da maternidade é a necessidade de estar presente. Aprendemos nas pequenas coisas. Somos adultos, mas carregamos nossa criança interna, que precisa dialogar com a criança que é nosso filho. Tiramos forças para cuidar do outro e, nesse processo, nos cuidamos também. Já a carreira me ensina que precisamos celebrar as conquistas, mas manter a humildade e a sinceridade. Manter os pés no chão é o que nos permite voar mais alto e ser gratos por tudo o que acontece."
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