Entre a Técnica e a Alma: O Lembrete Permanente de Ser Humano
Inspirado em Carl Jung, o escritor Magno Ribeiro faz um convite à maturidade emocional e ética, lembrando que, acima de qualquer função ou autoridade, somos sempre "apenas outra alma humana" diante de outra
Com linguagem reflexiva e cadência quase meditativa, o escritor Magno Ribeiro constrói uma mensagem universal: o saber explica, mas é a humanidade que orienta. Ao percorrer diferentes campos, como o Direito, a medicina, a educação e as relações cotidianas, a sua prosa poética evidencia que a técnica é indispensável, mas insuficiente quando dissociada da empatia e da presença genuína. Inspirado na máxima de Carl Jung, o texto é um convite à maturidade emocional e ética, lembrando que, acima de qualquer função ou autoridade, somos sempre "apenas outra alma humana" diante de outra.
Há pensamentos que não pertencem a um dia específico.
Eles não nascem de uma frustração isolada, nem de um êxito particular.
São reflexões que nos atravessam como uma verdade recorrente, válida em qualquer tempo.
Entre elas, ecoa a conhecida afirmação de Carl Jung, fundador da psicologia analítica: "Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana."
Essa frase não se dirige a um momento específico da vida.
Ela se dirige à própria condição de estar no mundo.
Vivemos em uma era que valoriza o acúmulo de conhecimento. Diplomas, especializações, cursos, certificações. O saber é celebrado, e com razão. Estudar é um ato de responsabilidade. Dominar técnicas é uma forma de respeito pela própria função que exercemos. O conhecimento protege contra a imprudência, amplia horizontes e aprimora decisões.
O problema nunca foi o saber.
O risco surge quando ele deixa de ser instrumento e passa a ser escudo.
Quando a teoria vira proteção contra o desconforto do encontro humano.
Quando a técnica se transforma em máscara.
Quando o domínio intelectual substitui a disposição de ouvir.
Há uma diferença silenciosa, mas decisiva, entre dominar algo e permitir-se ser tocado por alguém.
Dominar pressupõe controle.
Relacionar-se pressupõe abertura.
E toda vez que tentamos controlar o que é essencialmente humano, inevitavelmente simplificamos aquilo que é complexo, vivo, imprevisível.
Tocar uma alma humana não é aplicar um protocolo.
Não é conduzir um método como quem opera uma máquina.
Não é reduzir a experiência do outro a categorias previamente organizadas.
É entrar em território sensível.
É reconhecer que diante de nós há alguém que sente, teme, espera, hesita, carrega histórias que não aparecem nos relatórios nem nas estatísticas.
Essa tensão entre técnica e humanidade aparece em todos os campos da vida.
No Direito, o juiz domina a lei, o advogado estrutura argumentos, o promotor sustenta acusações. A técnica jurídica é indispensável para garantir segurança e previsibilidade. Contudo, cada decisão incide sobre vidas concretas, histórias reais, pessoas que não são abstrações normativas.
Na medicina, protocolos salvam vidas, mas o olhar atento e a escuta sincera curam dimensões que nenhum exame alcança.
Na educação, métodos organizam o ensino, mas é o vínculo que desperta o aprendizado.
Na política, estratégias estruturam projetos, mas é a sensibilidade social que legitima a liderança.
Em casa, nas amizades, nas relações afetivas, o mesmo princípio se repete: argumentos podem vencer discussões, mas apenas a presença sustenta relações.
Ser "apenas outra alma humana" não significa abdicar da autoridade do saber.
Significa lembrar que o conhecimento não nos coloca acima de ninguém.
Toda função social é exercida por alguém igualmente vulnerável.
Toda decisão técnica atinge alguém que sente.
Toda palavra, ainda que correta, tem impacto emocional.
Talvez a maturidade verdadeira não esteja em acumular certezas, mas em aprender a não usá-las como barreira.
Porque, no instante mais delicado, aquele momento em que alguém se expõe, confia, teme ou sofre, nenhuma teoria sustenta sozinha o encontro.
O que sustenta é a presença.
Presença é quando o saber não desaparece, mas se coloca a serviço do respeito.
É quando a técnica não sufoca a escuta.
É quando a autoridade não elimina a empatia.
O conhecimento explica.
A humanidade orienta.
E essa escolha, entre endurecer-se ou permanecer sensível, não pertence a um dia específico.
Ela se apresenta todos os dias.
Em cada conversa.
Em cada decisão.
Em cada resposta que oferecemos ao mundo.
No fim, talvez o verdadeiro desafio não seja dominar teorias, mas lembrar que, antes de qualquer papel que desempenhemos, somos, e sempre seremos, apenas outra alma humana diante de outra alma humana.