EMDR: conheça a terapia que ajudou o príncipe Harry a lidar com traumas
Entenda como o EMDR ajudou o Duque de Sussex a superar o luto e a ansiedade, provando que enfrentar o desconforto é o primeiro passo para a verdadeira cura
Muitas vezes, a dor de um trauma antigo não desaparece com o tempo. Ela apenas se esconde, esperando um gatilho para emergir. Foi o que aconteceu com o Príncipe Harry. Durante décadas, ele carregou o peso da perda trágica de sua mãe, a Princesa Diana, vivenciando um sofrimento que as palavras pareciam não conseguir curar totalmente. A mudança veio quando ele decidiu olhar para dentro através de uma técnica inovadora e profunda: a Terapia EMDR.
Em seu documentário The Me You Can't See, Harry compartilhou com o mundo o momento em que, de braços cruzados e batendo suavemente nos ombros - o chamado "abraço de borboleta" -, ele buscava processar feridas que o acompanhavam desde os 12 anos. Sua jornada nos ensina que, para seguir em frente, às vezes é preciso coragem para revisitar o que dói.
"Uma das maiores lições que já aprendi na vida é que às vezes você precisa voltar e lidar com situações realmente desconfortáveis e ser capaz de processá-las para poder se curar", disse.
O que é a terapia EMDR
A Terapia EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing), que em português significa Dessensibilização e Reprocessamento através do Movimento dos Olhos, surge como uma proposta estruturada para lidar com traumas psicológicos.
Desenvolvida pela psicóloga americana Francine Shapiro no final dos anos 1980, a abordagem é respaldada por diversas pesquisas científicas e reconhecida por instituições como o Conselho Federal de Psicologia, a Organização Mundial da Saúde e a Associação Americana de Psicologia.
Inicialmente indicada para o tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), a técnica também vem sendo utilizada em quadros como ansiedade, depressão, fobias, dor crônica, dependência química e outras experiências emocionalmente desafiadoras.
Por que o EMDR foi a escolha de Harry?
Para o príncipe, lugares como Londres eram gatilhos constantes de ansiedade devido às lembranças do acidente de sua mãe. Ele explica que o silêncio era uma forma de proteção que, na verdade, o mantinha prisioneiro.
"Londres, para mim, é um gatilho por causa do que aconteceu com minha mãe e por causa do que vivi e vi. Eu não queria pensar nela. Porque, se eu pensar nela, isso vai trazer à tona o fato de que não posso trazê-la de volta e isso só vai me deixar triste e decidi não falar sobre isso."
O EMDR funciona como uma "faxina" neurobiológica. Diferente das terapias apenas verbais, ele utiliza estímulos bilaterais - como o movimento dos olhos ou toques rítmicos - para ajudar o cérebro a "digerir" memórias que ficaram congeladas no sistema nervoso. É como se o cérebro fizesse uma reciclagem, transformando a dor paralisante em uma lembrança que, embora triste, não causa mais o mal-estar físico e emocional de antes.
Como funciona a "reciclagem" da dor
No dia a dia, o cérebro costuma "organizar" as experiências vividas, integrando informações, emoções e aprendizados. Esse processo acontece, em grande parte, durante o sono REM, fase em que os olhos se movem rapidamente.
No entanto, quando um evento é intenso demais, esse processamento pode falhar. A memória fica "congelada", junto com sensações físicas e crenças negativas - como medo, culpa ou impotência. É aí que entra o EMDR.
Como funciona a técnica
A terapia utiliza a chamada estimulação bilateral - estímulos que alternam entre os lados direito e esquerdo do corpo. Isso pode acontecer por meio de movimentos oculares, sons ou toques leves, guiados pelo terapeuta.
Enquanto isso, o paciente é convidado a acessar a memória perturbadora. O objetivo não é reviver o sofrimento, mas permitir que o cérebro reorganize aquela experiência. Com o tempo, ocorre uma espécie de "digestão emocional": a lembrança permanece, mas perde a carga intensa que antes causava sofrimento.
Livre das amarras do passado, Harry hoje prioriza sua saúde mental e a de sua família, acreditando que compartilhar sua história ajuda a quebrar o estigma que envolve o tratamento psicológico: "Optamos por colocar a nossa saúde mental em primeiro lugar. É isso que estamos fazendo e é isso que continuaremos a fazer. Não se trata apenas de quebrar um ciclo e se tratar apenas para garantir que a história não se repita. O estigma prospera no silêncio."
Um passo a passo estruturado
O EMDR segue um protocolo organizado em oito fases, que garantem segurança e direcionamento ao processo terapêutico:
- Levantamento da história e identificação dos traumas;
- Preparação emocional, com exercícios de regulação;
- Definição da memória-alvo, incluindo emoções e crenças associadas
- Processamento, com estimulação bilateral;
- Instalação de crenças positivas, substituindo padrões negativos;
- Observação das sensações corporais;
- Fechamento da sessão, com orientação para continuidade do processamento;
- Reavaliação, verificando os efeitos do trabalho realizado.
Esse percurso permite que o tratamento avance de forma gradual, respeitando o ritmo de cada pessoa.
O que muda após o reprocessamento
Ao longo do processo, não é apenas a memória que se transforma. Novas formas de pensar e sentir começam a surgir, abrindo espaço para crenças mais adaptativas, como: "Eu sou capaz", "eu estou seguro" ou "eu posso seguir em frente". A principal mudança está na forma como o passado deixa de invadir o presente. Situações que antes ativavam sofrimento intenso passam a ser vivenciadas com mais leveza.
Seja para grandes traumas ou para ansiedades do dia a dia, a experiência de Harry mostra que o EMDR é um convite para "reconectar" os fios da nossa história, permitindo-nos encontrar a força interior necessária para viver o presente em sua plenitude.
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