Entenda por que o rompimento do LCA é mais comum em mulheres
Segundo dados da PubMed Central, as mulheres têm entre 3 e 8 vezes mais chance de romper o LCA do que os homens que praticam o mesmo esporte
A atacante Dudinha, da Seleção Brasileira, rompeu o ligamento cruzado anterior (LCA) do joelho no início de junho, durante um amistoso contra os Estados Unidos. No mesmo período, a equipe feminina do Cruzeiro registrou cerca de 20% do seu elenco afastado por problemas relacionados ao LCA. O cenário se repete em outras modalidades, como o vôlei: em março deste ano, a medalhista olímpica Carol Gattaz anunciou a aposentadoria das quadras após um processo de recuperação que não evoluiu como o esperado.
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Os casos chamam atenção para uma lesão que, além de exigir cirurgia em boa parte das situações, costuma ser mais frequente em mulheres. À medida que a participação feminina em modalidades de alto rendimento cresce, especialistas buscam compreender os fatores que explicam essa maior incidência e desenvolver estratégias de prevenção mais eficazes.
Em entrevista ao Terra, o Dr. Marcos Cortelazo, ortopedista e especialista em joelho e traumatologia esportiva do Hospital Albert Einstein, afirma que o fenômeno não pode ser atribuído exclusivamente ao aumento de mulheres na prática de esportes de contato. De acordo com o especialista, fatores anatômicos contribuem para a maior incidência da lesão no público feminino.
“O joelho da mulher é semelhante a um X, porque ela possui uma bacia chamada ginecoide. Ela tem, portanto, uma bacia mais larga e os joelhos vão mais para dentro. Além disso, a espessura do ligamento cruzado feminino é um pouco menor”, comenta.
De acordo com o ortopedista, a anatomia feminina favorece um alinhamento conhecido como joelho valgo, popularmente chamado de “joelho em X”. Essa característica faz com que determinados movimentos realizados durante a prática esportiva aumentem a carga sobre o ligamento cruzado anterior.
A predisposição anatômica se soma às características da própria lesão, considerada uma das mais temidas por atletas e praticantes de atividade física. A recuperação geralmente é longa e pode afastar o esportista de competições e treinos. A ruptura costuma ocorrer quando a articulação sofre uma torção repentina, e frequentemente vem acompanhada de complicações como a lesão do menisco medial e a contusão óssea na parte lateral do joelho. Em esportes como futebol, basquete, vôlei e esqui, que exigem movimentos rápidos e mudanças constantes de direção, o risco é maior.
A influência hormonal também é amplamente discutida por pesquisadores e profissionais da medicina esportiva. De acordo com Marcos, as oscilações hormonais ao longo do ciclo menstrual feminino podem, em determinados períodos, aumentar a frouxidão ligamentar, o que torna o LCA mais vulnerável.
“A depender do momento do ciclo menstrual, o ligamento fica mais vulnerável a lesões. Ao considerar uma mulher que pratique esportes regularmente, ela não vai deixar de treinar ou comparecer aos jogos porque está numa fase do ciclo mais suscetível. O homem, nesse sentido, é mais regular, costuma estar mais ‘pronto’”, diz.
Outro aspecto importante está relacionado ao controle neuromuscular e à biomecânica dos movimentos. Estudos mostram que mulheres tendem a apresentar padrões de aterrissagem, por exemplo, diferentes dos homens. Segundo o ortopedista, há uma maior tendência de ativação do quadríceps e de deslocamento do joelho para dentro durante movimentos como saltos e mudanças de direção.
Essa combinação favorece justamente o mecanismo clássico da lesão do LCA. Quando o pé permanece fixo no solo e o joelho sofre uma torção associada a esse desalinhamento, a pressão sobre o ligamento aumenta, o que eleva o risco de ruptura.
À medida que a participação feminina em esportes cresce, aumenta também a necessidade de programas específicos de prevenção. No caso particular das mulheres, o condicionamento físico, o fortalecimento muscular e os exercícios voltados para equilíbrio e controle motor desempenham papel fundamental na redução do risco de lesões.
“Como existe uma tendência maior ao valgo dinâmico, programas e treinamento focados em propriocepção, equilíbrio e controle motor podem ajudar a corrigir esse padrão de movimento. Durante atividades como aterrissagens, mudanças de direção ou desacelerações, o joelho tende a se deslocar para dentro e a tíbia girar, o que reproduz exatamente o mecanismo associado à lesão do LCA”, afirma.
O avanço da presença feminina no esporte de alto rendimento tem impulsionado pesquisas voltadas à prevenção. No Hospital Albert Einstein, por exemplo, um projeto utiliza inteligência artificial para analisar características anatômicas do joelho e tentar identificar indivíduos com maior suscetibilidade à ruptura do LCA. O objetivo é reunir dados obtidos por ressonância magnética e outras avaliações para identificar padrões de risco.
“Com a inteligência artificial, conseguimos processar um volume muito maior de informações e encontrar associações que podem ajudar na prevenção. Além disso, já existem avaliações biomecânicas capazes de analisar a forma como uma pessoa se movimenta durante a prática esportiva. No futuro, acredito que conseguiremos identificar padrões de movimento de risco e corrigi-los por meio de treinamentos específicos antes que a lesão aconteça”, conclui.
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