Dispepsia funcional: talvez a sua "gastrite nervosa" nunca tenha sido gastrite
Dispepsia funcional pode estar por trás da chamada "gastrite nervosa". Veja por que a endoscopia pode ser normal e quando investigar.
É muito comum receber pacientes no consultório dizendo: "Doutora, tenho gastrite nervosa."
Na maioria das vezes, eles chegam porque sentem dor no estômago, queimação, empachamento ou aquela sensação de estômago cheio logo nas primeiras garfadas. Mas, quando fazem a endoscopia, a surpresa aparece: o exame está normal.
Então surge a dúvida: se não é gastrite, por que continuo sentindo tudo isso?
A resposta, muitas vezes, está na dispepsia funcional.
Afinal, o que é a dispepsia funcional?
Apesar do nome complicado, o conceito é mais simples do que parece.
A dispepsia funcional é um distúrbio no funcionamento e na digestão do estômago (Dis = alteração | Pepsia = digestão) que não é explicado por alterações estruturais identificadas na endoscopia.
Ou seja, a pessoa apresenta sintomas persistentes, mas os exames não mostram úlceras, tumores ou uma inflamação que explique esse desconforto.
Se não há alteração no exame, por que existe a dispepsia?
Mesmo sem alterações visíveis na endoscopia, o estômago pode passar a funcionar de maneira diferente.
Alterações na forma como ele recebe os alimentos, se movimenta e percebe os estímulos, além de mudanças na comunicação entre o cérebro e o sistema digestivo (o chamado eixo cérebro-intestino), podem provocar sintomas mesmo sem lesões visíveis.
Os sintomas mais comuns são:
- dor ou queimação na região do estômago;
- sensação de estômago cheio logo no início da refeição;
- empachamento depois de comer;
- náuseas;
- desconforto na parte superior do abdome.
Então "gastrite nervosa" existe?
Na verdade, não. "Gastrite nervosa" é uma expressão muito popular, mas não é um diagnóstico médico.
Quando existe gastrite de verdade, há uma inflamação da mucosa do estômago, que normalmente pode ser identificada pela endoscopia e, muitas vezes, confirmada por biópsias.
Já na dispepsia funcional, o problema não é uma inflamação visível.
O estresse pode piorar?
Sim. E isso faz muitas pessoas acreditarem que o problema é "emocional".
O estômago e o cérebro estão em comunicação constante. A relação entre o cérebro e o sistema digestivo é chamada de eixo cérebro-intestino.
Quando passamos por períodos de estresse, ansiedade ou privação de sono, essa comunicação pode aumentar a intensidade dos sintomas.
Mas isso não significa que "é coisa da cabeça".
Os sintomas são reais. O paciente sente dor de verdade. O que acontece é que fatores emocionais podem intensificar um distúrbio que já existe.
Se a endoscopia veio normal, preciso continuar investigando?
Sim. Uma endoscopia normal é uma ótima notícia porque afasta doenças importantes, como úlceras e alguns tipos de câncer. Mas ela não explica todos os sintomas digestivos.
Quando o desconforto persiste, é importante que o gastroenterologista avalie se o quadro é compatível com dispepsia funcional ou se existe outra condição que mereça investigação.
Além disso, o tratamento não é igual para todos.
Dependendo do padrão dos sintomas, podemos lançar mão de medicamentos diferentes, além de orientar mudanças na alimentação e em alguns hábitos que costumam fazer bastante diferença.
Quando é hora de procurar ajuda?
Se você convive com dor no estômago, empachamento ou queimação por semanas ou meses, vale a pena procurar avaliação médica.
Também é importante não adiar a consulta caso os sintomas venham acompanhados de perda de peso sem explicação, dificuldade para engolir, vômitos persistentes, anemia ou sangramento digestivo.
O principal recado
Nem toda dor no estômago é gastrite. E uma endoscopia normal não significa que o seu desconforto não tenha explicação.
A dispepsia funcional é uma doença reconhecida pela medicina, bastante comum e que pode ser tratada.
O mais importante é entender a causa dos sintomas para que o tratamento seja individualizado e você consiga recuperar sua qualidade de vida, em vez de simplesmente conviver com o problema ou acreditar que tudo é apenas "gastrite nervosa".
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