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Diagnósticos de TDAH aumentam ao redor do mundo, diz estudo

Revisão aponta crescimento expressivo dos diagnósticos e das prescrições de medicamentos para TDAH, principalmente entre adultos, e discute o que pode explicar o fenômeno

14 ago 2026 - 20h10
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O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) passou a ocupar mais espaço nas conversas sobre saúde mental nos últimos anos. E essa maior visibilidade também aparece nos números. Diagnósticos e prescrições de medicamentos relacionados ao transtorno cresceram em diferentes faixas etárias e países, segundo uma revisão publicada no Journal of Psychopharmacology.

Diagnósticos de TDAH aumentaram nos últimos anos; revisão analisa fatores que podem explicar o crescimento entre crianças e adultos
Diagnósticos de TDAH aumentaram nos últimos anos; revisão analisa fatores que podem explicar o crescimento entre crianças e adultos
Foto: Reprodução: Canva/Maria Sbytova / Bons Fluidos

O trabalho, conduzido por Barbara J. Sahakian e Christelle Langley, da Universidade de Cambridge, reuniu pesquisas recentes para entender melhor esse cenário. Além do aumento dos diagnósticos e do uso de medicamentos, as pesquisadoras analisaram aspectos cognitivos relacionados ao TDAH e o consumo de estimulantes por pessoas que não apresentam o transtorno.

Os dados mostram um avanço considerável na identificação do TDAH entre crianças, adolescentes e adultos. Mas isso não significa, necessariamente, que mais pessoas estejam desenvolvendo o transtorno. Uma das principais hipóteses é que casos que antes passavam despercebidos estejam finalmente sendo reconhecidos.

Cada vez mais adultos diagnosticados com TDAH 

Durante muito tempo, o TDAH esteve fortemente associado à infância. Hoje, porém, sabe-se que se trata de um transtorno do neurodesenvolvimento que pode acompanhar uma pessoa ao longo da vida.

Os dados do Reino Unido ajudam a dimensionar essa mudança. Entre 2000 e 2018, houve aumento nos diagnósticos em todas as idades avaliadas. Embora as crianças tenham apresentado o maior crescimento em números absolutos, proporcionalmente a mudança chamou bastante atenção entre os adultos.

Entre homens de 18 a 29 anos, por exemplo, o número de diagnósticos tornou-se aproximadamente 20 vezes maior no período, enquanto as prescrições chegaram a quase 50 vezes o registrado anteriormente.

Outra transformação aparece na diferença entre homens e mulheres. Durante a infância e a adolescência, eram identificados aproximadamente quatro meninos para cada menina. Na fase adulta, essa proporção se aproximou de um diagnóstico masculino para cada feminino.

Esse dado ajuda a mostrar como alguns grupos podem ter passado anos sem identificação adequada, especialmente quando seus sintomas não correspondiam à imagem mais conhecida do transtorno.

Afinal, por que os diagnósticos estão crescendo?

Não existe uma única resposta. Uma das explicações apontadas pelas autoras é justamente a ampliação do conhecimento sobre o TDAH, tanto entre profissionais quanto na população.

Sintomas como dificuldade para manter a atenção, problemas de organização, impulsividade e alterações nas chamadas funções executivas podem ter acompanhado algumas pessoas durante anos antes de serem associados ao transtorno.

"Houve avanços reais no reconhecimento de um transtorno que historicamente era negligenciado (principalmente em homens e mulheres adultos), uma maior conscientização clínica e talvez também um certo grau de superidentificação em alguns contextos", disseram as autoras da revisão.

Ou seja, os números podem refletir diferentes movimentos acontecendo simultaneamente. De um lado, pessoas que antes não tinham acesso a um diagnóstico passaram a ser identificadas. De outro, as pesquisadoras também consideram a possibilidade de ocorrer uma superidentificação em determinados contextos.

Celular e redes sociais podem influenciar nossa atenção?

O ambiente em que vivemos também entrou nessa discussão. A revisão chama atenção para uma rotina cada vez mais marcada por smartphones, notificações, redes sociais, vídeos curtos e realização simultânea de diferentes tarefas.

Ambientes digitais muito fragmentados podem estar associados a maior distração e dificuldades para controlar a atenção. Isso, porém, não significa que o uso de celular ou das redes sociais seja apontado como causa do TDAH. A questão faz parte de uma discussão mais ampla sobre como o contexto atual pode afetar nossa capacidade de concentração.

As pesquisadoras também abordaram estudos envolvendo fatores familiares. O TDAH possui um importante componente hereditário, mas algumas pesquisas encontraram associações entre determinados estilos parentais - tanto excessivamente controladores quanto muito permissivos - e dificuldades nas funções executivas. Novamente, associação não significa causa. As próprias autoras destacam que essa relação é complexa e não permite concluir que a criação da criança provoque TDAH.

Prescrições de medicamentos também aumentaram

Junto aos diagnósticos, cresceu o uso de medicamentos indicados para o transtorno. No Reino Unido, entre os períodos de 2021/22 e 2022/23, as prescrições de estimulantes e outros medicamentos para TDAH aumentaram 32% entre adultos e 12% entre crianças e adolescentes.

A revisão também chama atenção para outro fenômeno: o uso não médico dessas substâncias por pessoas que não têm TDAH. Nesse caso, os medicamentos são utilizados com a intenção de melhorar o desempenho cognitivo. Entre as motivações estão estudar por mais tempo, aumentar a concentração e a produtividade, diminuir a sensação de fadiga ou conseguir manter o desempenho durante períodos prolongados de trabalho.

Esse comportamento abre uma discussão diferente daquela relacionada ao tratamento do TDAH. As pesquisadoras levantam questões sobre segurança, eficácia e desigualdade, além da possibilidade de surgir uma pressão social para que pessoas saudáveis recorram a medicamentos na tentativa de produzir ou render mais.

Aumento dos casos não tem uma única explicação

Os números mostram que o TDAH está sendo diagnosticado e tratado com medicamentos com uma frequência muito maior do que no passado. Mas interpretar esse crescimento exige cautela.

Maior conscientização sobre o transtorno, identificação de pessoas que passaram anos sem diagnóstico, mudanças nas práticas clínicas, questões sociais e educacionais e possíveis influências do ambiente digital aparecem entre os fatores discutidos pelas pesquisadoras.

Mais do que indicar uma causa isolada, portanto, os dados revelam uma transformação na maneira como o TDAH é reconhecido e compreendido - especialmente entre adultos que, durante muito tempo, ficaram fora do perfil tradicionalmente associado ao transtorno.

Bons Fluidos
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