Hábitos saudáveis podem melhorar a fertilidade, diz especialista
Especialista em reprodução humana explica como alimentação, sono e outros hábitos diários preparam o corpo para a concepção, muito antes do teste positivo.
A fertilidade de homens e mulheres é influenciada pelo estilo de vida antes da concepção. Práticas como alimentação equilibrada (estilo mediterrâneo), sono de qualidade, exercícios e a redução de álcool e fumo criam um ambiente favorável à gravidez e melhoram a saúde reprodutiva. A suplementação exige cautela médica para evitar excessos. Embora hábitos saudáveis otimizem as chances, eles não garantem a gestação nem substituem a investigação médica em casos de infertilidade.
Pensar em gravidez costuma trazer à mente exames, consultas e, em alguns casos, tratamentos de reprodução assistida. Mas parte importante dessa preparação começa antes de qualquer intervenção médica. Ela está nos hábitos do dia a dia, como alimentação, sono e atividade física.
Isso acontece porque a saúde reprodutiva depende do funcionamento do organismo como um todo. Alterações metabólicas, inflamação, estresse oxidativo, excesso de peso e deficiências nutricionais podem interferir em processos ligados à fertilidade feminina e masculina.
Segundo a Dra. Michele Panzan, especialista em Reprodução Humana do Grupo Huntington, não existe um alimento ou dieta milagrosa capaz de garantir uma gravidez. Um estilo de vida saudável, porém, pode criar um ambiente mais favorável à concepção. Isso vale tanto para quem tenta engravidar naturalmente quanto para quem está em tratamento.
"A fertilidade do casal começa a ser construída muito antes do teste positivo. Óvulos e espermatozoides passam por processos de desenvolvimento e maturação antes de participarem da concepção. Por isso, os hábitos adotados nos meses que antecedem a tentativa de gravidez também fazem parte do cuidado com a saúde reprodutiva", explica a médica.
Como a alimentação influencia a fertilidade?
Uma alimentação equilibrada fornece nutrientes essenciais para funções do organismo envolvidas na reprodução. Isso inclui o equilíbrio metabólico e hormonal, além da saúde das células reprodutivas.
Padrões alimentares baseados em vegetais, frutas, leguminosas, grãos integrais, oleaginosas, peixes, azeite de oliva e proteínas de boa qualidade estão associados a melhores indicadores de saúde metabólica. Um dos modelos mais estudados nesse contexto é a dieta mediterrânea, marcada pela predominância de alimentos in natura e minimamente processados.
Revisões científicas recentes reforçam essa relação. Um estudo publicado na revista Nutrients, conduzido por pesquisadores das universidades australianas de Monash, Sunshine Coast e South Australia, apontou que dietas anti-inflamatórias, ricas em gorduras poli-insaturadas, flavonoides e com consumo limitado de carnes vermelhas e processadas, podem contribuir para melhorar a fertilidade em homens e mulheres. Outra revisão sistemática também identificou associação entre maior adesão à dieta mediterrânea e melhora em parâmetros seminais, como concentração e motilidade dos espermatozoides.
Por outro lado, uma rotina alimentar marcada por ultraprocessados, excesso de açúcar, gorduras trans e álcool pode favorecer processos inflamatórios e alterações metabólicas que também têm relação com a saúde reprodutiva.
"Não estamos falando de um alimento isolado que melhora ou piora a fertilidade. O que importa é o conjunto dos hábitos. Uma alimentação equilibrada ajuda a manter o metabolismo e o organismo em melhores condições para os processos envolvidos na reprodução", afirma a Dra. Michele.
O cuidado não deve ser direcionado apenas às mulheres. A fertilidade masculina também sofre influência do estilo de vida, com repercussões em parâmetros como concentração, motilidade e qualidade dos espermatozoides.
Por que os meses antes de tentar engravidar importam?
A possibilidade de ajustar fatores relacionados à fertilidade é um dos pilares do chamado cuidado pré-concepcional. O Ministério da Saúde já recomenda essa avaliação como forma de identificar riscos e condições que possam interferir na evolução de uma futura gestação.
Alimentação, atividade física, qualidade do sono, tabagismo, consumo de álcool e controle de doenças preexistentes estão entre os aspectos avaliados antes mesmo de uma tentativa de gravidez. Essas mudanças ganham relevância ainda maior para pessoas com obesidade, alterações metabólicas ou deficiências nutricionais.
"Quando conseguimos corrigir fatores modificáveis, podemos observar melhora nos desfechos reprodutivos, principalmente em pacientes que apresentam alterações metabólicas ou hábitos de vida inadequados. Para quem já mantém uma rotina saudável, o impacto adicional pode ser menor, mas preservar esses cuidados continua sendo recomendado", explica a especialista.
Isso não significa buscar uma alimentação "perfeita" ou recorrer a suplementos por conta própria. Vitaminas e minerais exercem funções importantes, mas a necessidade de suplementação deve ser avaliada individualmente, principalmente no planejamento de uma gestação. O ácido fólico, por exemplo, tem suplementação recomendada pela Febrasgo e pelo Ministério da Saúde já no período pré-gestacional, justamente pelo papel na prevenção de defeitos do tubo neural.
Suplementos em excesso também podem ser um risco?
A suplementação sem acompanhamento merece atenção. Segundo a Dra. Michele, é cada vez mais comum encontrar no consultório pacientes que utilizam diferentes vitaminas e minerais simultaneamente, muitas vezes por conta própria.
"Assim como a deficiência, o excesso de determinados nutrientes pode ser prejudicial. A vitamina A em doses elevadas, por exemplo, pode ser tóxica e, durante a gestação, está associada ao risco de malformações. O excesso de vitamina D pode alterar o metabolismo do cálcio, enquanto doses excessivas de alguns antioxidantes também podem produzir efeitos indesejados. Zinco e selênio são outros exemplos de nutrientes cujo equilíbrio é importante para a saúde reprodutiva", explica a médica.
Por isso, ela recomenda evitar a "suplementação por conta própria", especialmente para quem está tentando engravidar. "Não é porque uma vitamina ou um antioxidante pode ter benefícios que quanto mais, melhor. A suplementação precisa ter indicação, dose adequada e acompanhamento. O objetivo é corrigir uma necessidade, e não criar um novo desequilíbrio", reforça.
Quais hábitos ajudam a preparar o corpo para a gravidez?
O preparo para engravidar vai além do prato. Dormir adequadamente, praticar atividade física com regularidade, abandonar o cigarro, moderar o álcool e manter doenças preexistentes controladas também fazem parte do cuidado com a saúde reprodutiva.
"Esses cuidados não substituem a investigação médica quando existe dificuldade para engravidar, mas ajudam a colocar o organismo em melhores condições para a concepção e para uma futura gestação", destaca a Dra. Michele.
Confira cinco hábitos que ajudam a preparar o organismo para uma gravidez
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Priorizar alimentos in natura e minimizar o consumo de ultraprocessados.
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Consumir frutas, verduras e legumes variados ao longo da semana.
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Manter boas fontes de proteínas e gorduras saudáveis na alimentação.
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Dormir adequadamente e praticar atividade física com regularidade.
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Evitar o cigarro, moderar o consumo de álcool e manter doenças preexistentes acompanhadas.
Hábitos saudáveis garantem a gravidez?
A especialista reforça que alimentação e estilo de vida não devem virar mais uma fonte de cobrança para quem enfrenta dificuldades para ter filhos. A infertilidade é uma condição multifatorial, que pode estar relacionada a causas femininas, masculinas ou à combinação de fatores.
"Ter hábitos saudáveis não é garantia de gravidez, assim como sair da rotina alimentar em algum momento não significa comprometer as chances de engravidar. O objetivo é buscar constância e cuidar da saúde sem transformar esse processo em culpa", afirma a Dra. Michele.
É normal ter dificuldade em manter uma rotina totalmente equilibrada em meio às demandas do trabalho e da vida pessoal. O importante é buscar consistência ao longo do tempo, não perfeição em cada refeição.
Quando a gravidez não acontece no período esperado, a recomendação é procurar avaliação especializada para investigar possíveis causas. "Alimentação, sono de qualidade, atividade física e outros hábitos saudáveis fazem parte do cuidado com a fertilidade. Mas, quando a gravidez demora mais do que o esperado, é importante buscar orientação médica para entender o que está acontecendo e quais são os caminhos possíveis para aquele casal", conclui a especialista.
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