Dança faz bem ao corpo, à mente e até ao coração
Que mover o corpo, a gente já sabe, mas a dança é capaz de curar até a alma
Além de queimar calorias, a dança melhora o equilíbrio, estimula o cérebro e ajuda a enfrentar a ansiedade
O corpo acompanha o ritmo, os pés seguem a música e, quase sem perceber, a mente desacelera. Em diferentes fases da vida, seja para aliviar o estresse, melhorar o condicionamento físico ou simplesmente reencontrar prazer no movimento, cada vez mais pessoas têm encontrado na dança uma forma de cuidado que vai muito além da estética ou da performance. Afinal, dançar não exige apenas força ou coordenação, mas também presença, conexão e entrega.
E a ciência explica por que ela faz tão bem. Muito além de uma atividade recreativa, a dança é considerada por especialistas um exercício completo, capaz de trabalhar simultaneamente condicionamento cardiovascular, fortalecimento muscular, equilíbrio, coordenação motora e estímulos cognitivos. Segundo Juarez Zacarias Neto, mestre em artes cênicas, artista de dança e analista de atividades culturais do SESI-SP, a prática mobiliza sistemas que normalmente são treinados separadamente em outras atividades físicas.
"Enquanto correr ou pedalar pode se tornar automático, dançar exige conexões sinápticas complexas, fazendo com que o praticante processe ritmo, espaço, movimento e memória motora ao mesmo tempo", explica. Isso significa que, além do esforço físico, o cérebro também é constantemente estimulado durante a prática, uma combinação rara em exercícios convencionais.
Benefícios de sobra
Os benefícios físicos aparecem em diferentes níveis. De acordo com Juarez, estudos já demonstram que modalidades como zumba, salsa e forró podem atingir intensidades equivalentes às de exercícios aeróbicos moderados e vigorosos, favorecendo a saúde cardiovascular e ajudando na melhora do condicionamento físico. "Ao mesmo tempo, a dança trabalha membros inferiores, core, postura, mobilidade e flexibilidade de maneira integrada e dinâmica."
Além disso, a prática ainda contribui para coordenação motora e equilíbrio — capacidades fundamentais em todas as fases da vida, especialmente no envelhecimento saudável. "Em adultos jovens e ativos, melhoram o desempenho em esportes e tarefas cotidianas. Em adultos mais velhos, são determinantes para a prevenção de quedas — uma das principais causas de hospitalização e perda de independência na terceira idade", explica. O especialista também destaca que a dança, como apontada em dois estudos, é uma das atividades com maior impacto positivo na prevenção do declínio cognitivo e motor associado ao envelhecimento.
Movimento que cura por dentro
Engana-se quem pensa que os impactos da dança ficam apenas para o corpo. Cada vez mais estudos também apontam os efeitos positivos da prática na saúde mental e emocional. Juarez nos traz três pontos positivos que a psicologia e a neurociência atribuem à dança:
- Neuroquímico: a dança estimula a liberação de dopamina (prazer e motivação), serotonina (equilíbrio do humor) e endorfinas (analgesia e bem-estar). "O movimento rítmico, em particular, tem efeito ansiolítico comprovado. Pesquisas sugerem que o ritmo sincronizado reduz a atividade da amígdala, região do cérebro associada ao medo e à resposta ao estresse."
- Corporal-expressivo: a Educação Somática e a Dança-Movimento-Terapia (DMT) tratam o corpo como um local de registro de emoções. "Mover o corpo com intenção expressiva permite acessar e processar estados afetivos que nem sempre chegam à linguagem verbal — um fenômeno que a psicologia chama de 'processamento não verbal de trauma e emoção'."
- Identitário: dançar em grupo constrói senso de pertencimento, competência e reconhecimento. "A autoestima se beneficia não apenas do bem-estar físico, mas da sensação de ser capaz, de se expressar e de ser visto."
E foram justamente essas sensações que Helô Gouvêa, bailarina, coreógrafa e professora, com uma trajetória de mais de 50 anos dedicada à sensibilidade e à arte da dança, experimentou nos momentos mais difíceis da vida. Ela conta que percebeu o poder transformador da dança durante o processo de luto. "Desde muito pequena eu tive facilidade para dançar. Mas, a sensação de cura que a dança traz, eu realmente senti quando, no meu luto, eu me sentia reconstruída. Quando eu passava as manhãs dançando eu me sentia mais curada, mais feliz e respirando melhor", relembra.
Para ela, a dança funciona como uma conexão entre corpo, mente e emoções. "Quando você não está conseguindo falar, quando não consegue interpretar seus sentimentos através da fala, só existe um jeito… dançar", afirma. "Você consegue hidratar a sua alma nas emoções e ter coragem de encarar não só as alegrias, mas também as tristezas, as perdas e os lutos."
Sem medo
É justamente aí que muitas pessoas travam. A vergonha, a insegurança e o medo de "não saber dançar" ainda afastam muita gente das pistas e salas de aula. Mas Juarez deixa claro: não existe corpo certo, idade ideal ou experiência prévia para começar. "A dança propõe prazer antes de propor desempenho;
a música cria motivação em cada praticante antes mesmo do esforço começar; e o ambiente coletivo (aulas em grupo) remove o isolamento", destaca ele. "A entrada nesse universo pode ser gradual e natural. Não há necessidade de performance imediata e qualquer intensidade de movimento já oferece benefícios iniciais. A progressão acontece de forma orgânica com a prática", completa.
Helô aproveita para deixar um recado para o caso de você, querido(a) leitor(a), tenha vontade de dançar, mas se deixa dominar pela vergonha e insegurança. "Esses são sentimentos que todo ser humano tem, mas você não pode ser dominado por eles. Recentemente, em uma de minhas aulas, eu dei a mão para uma aluna que não estava conseguindo fazer um passo. Era uma aluna pequena? Não. Era uma aluna mais velha, de 60 anos, e de mãos dadas nós conseguimos chegar. Então, se o mestre te conduz e você aceita essa condição, deixa fluir."
"No fim, a dança cura, a música cura, a arte cura", resume Helô. "Sem arte, o mundo se torna muito difícil."
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