Cardiopatia congênita: por que o diagnóstico é essencial ainda na gravidez
O diagnóstico precoce da doença durante os exames pré-natais é a peça-chave para um tratamento adequado do bebê. Entenda!
Elas são o problema congênito mais frequente entre os recém-nascidos e a maioria de seus casos ainda não tem causa conhecida. Pois é, neste 12 de junho - reservado para o Dia Nacional de Conscientização da Cardiopatia Congênita - não poderíamos deixar de falar sobre as cardiopatias congênitas, que afetam mais de 130 milhões de crianças em todo o mundo, de acordo com o Organização Mundial da Saúde (OMS).
De forma sucinta, as cardiopatias são alterações que surgem durante o desenvolvimento do coração do bebê. "O coração se forma até a 12° semana de gestação. Assim, entre seis e doze semanas, pode ocorrer algum defeito no processo de formação do órgão. Esta é, aliás, a má formação congênita mais frequente que existe, em comparação com outros sistemas e órgãos do corpo", explica Marina Zamith, cardiologista pediátrica responsável pela área de Ecocardiografia Fetal e Neonatal do Hospital e Maternidade Santa Joana.
Costuma-se dizer que a maioria das cardiopatias tem causa multifatorial. Em outras palavras, há vários fatores por trás da disfunção. " Em 85% das vezes, acreditamos que seja uma alteração genética que leva à mudança no desenvolvimento do bebê. Mas também existem condições associadas, como a doença diabetes tipo I e o uso de medicações calmantes para transtornos psicológicos pela mãe", completa a cardiologista.
Atenção com o diagnóstico precoce!
No cenário ideal, em que a gestante consegue realizar o pré-natal corretamente, a primeira suspeita da presença de cardiopatias no bebê é levantada durante um ultrassom obstétrico. Em seguida, a mãe deve ser encaminhada para a realização da ecocardiografia fetal - exame que avaliará a formação intrauterina do coraçãozinho da criança.
"Os obstetras que conhecem os defeitos mais comuns já pedem direto a ecocardiografia, que deve ser realizada entre 24 e 28 semanas", orienta Marina. Se, por acaso, a questão passar "batida" no ultrassom e não for solicitado o segundo acompanhamento, o neném poderá apresentar sintomas logo após o nascimento, no berçário.
"Quando a criança nasce, há uma circulação de sangue que chamamos de 'transição'. Ou seja, durante dois ou três dias, há estruturas que mantêm o fluxo substancial, daí o bebê pode parecer que está bem. No entanto, após este período, a criança piora subitamente - às vezes até nas primeiras horas. Há uma queda de fluxo do sangue para o rim, falta de oxigênio no cérebro, então ela começa a passar mal e precisamos encaminhá-la para tratamento", explica a cardiologista.
Para evitar este mal-estar, ainda no berçário também é realizado o teste do coraçãozinho, independentemente se o bebê passou pelo ecocardiograma fetal ou não durante a vida intrauterina. "Neste exame, é medida a oxigenação da mão direita e de qualquer pezinho, para identificar as cardiopatias que afetam a circulação de oxigênio. Ainda assim, o teste tem apenas 75% de sensibilidade, então há uma parcela que pode passar sem diagnóstico e ir para a casa", explica a doutora.
Estas crianças que apresentam uma cardiopatia e não têm o seu diagnóstico fechado durante a gestação ou logo após o nascimento poderão apresentar em casa os indícios da doença. Entre eles, cansaço para mamar, irritação, ganho de peso inadequado e até sudorese. Caso os pais não se atentem aos sintomas, o pediatra, durante a primeira consulta com a família, provavelmente irá desconfiar e encaminhar para tratamento.
Toda cardiopatia é igual?
A verdade é que existem diversas classificações para a má formação do coração do bebê, mas é importante ressaltar a divisão entre acianóticas e cianóticas - aquelas que causam oxigenação baixa no sangue ou não. " As mais importantes claro que vão ser as cianóticas, visto que interferem com mais intensidade no nível de oxigênio do corpo", ressalta a cardiologista.
Dentro disso, também há os defeitos considerados graves - aqueles que exigem alguma correção via cirurgia durante o primeiro ano de vida da criança - e os muito graves, que geralmente ocorrem quando o fluxo de sangue compromete o pulmão e outras partes do corpo logo ao nascimento. Neste último caso, é necessário haver correção da má formação logo no berçário, portanto, ter um diagnóstico completo do problema ainda durante a gestação é imprescindível.
Apesar disso, a maioria dos quadros de cardiopatia são leves e, mediante tratamento e correção adequados, a criança poderá seguir com a sua vida normalmente.
E como é feito o tratamento?
Quando falamos do tratamento, vai depender do tipo de cardiopatia. "Existem aquelas disfunções que conseguimos corrigir totalmente assim que o bebê nasce, outras é necessário fazermos cirurgias paliativas - para suprir o nível de sangue no momento - e depois levar para a intervenção corretiva posteriormente", conta Marina.
No caso de cirurgias corretivas, a situação é um pouco mais complicada caso o bebê seja muito pequeno, então tudo irá depender de cada tipo e grau de cardiopatia e a idade da criança. O mais importante é ressaltar a necessidade do diagnóstico precoce, e da realização de um pré-natal correto, com os exames de rotina em dia, instrui a cardiologista.