Uso de telas na infância acende alerta para a saúde neurológica
Especialistas alertam para riscos cognitivos e emocionais
Uso prolongado de celulares, tablets e computadores pode afetar atenção, sono, interação social e até mascarar sinais de transtornos do neurodesenvolvimento
O uso de telas já faz parte da rotina das crianças, seja para entretenimento, aprendizado ou interação social. No entanto, especialistas alertam que a exposição excessiva a celulares, tablets, computadores e televisões pode trazer impactos significativos para o desenvolvimento infantil, especialmente nos primeiros anos de vida, fase considerada decisiva para a formação cognitiva, emocional e social.
A professora Gabriela Mazaro, diretora escolar e neuropsicopedagoga, explica que os primeiros prejuízos costumam aparecer na atenção e na capacidade de concentração. "O uso prolongado de telas pode contribuir para déficits de atenção, interferindo diretamente na aprendizagem e no desempenho escolar. Crianças acostumadas a estímulos rápidos e constantes tendem a ter mais dificuldade em se concentrar em atividades mais longas e estruturadas", afirma.
Sono e saúde
Além dos impactos cognitivos, o excesso de telas também interfere no sono e na saúde física. "O hábito de utilizar telas próximo ao horário de dormir prejudica a qualidade do sono. A exposição contínua à luz azul altera o ritmo circadiano. Isso reflete no crescimento, no comportamento e na saúde emocional da criança, podendo causar irritabilidade, cansaço e queda no rendimento escolar", observa Gabriela.
O desenvolvimento social também é afetado. Segundo a especialista, o contato excessivo com dispositivos digitais pode reduzir interações presenciais fundamentais para a infância. "Crianças que passam muito tempo conectadas podem apresentar dificuldade em estabelecer relações interpessoais saudáveis e em desenvolver empatia, habilidades essenciais para o convívio em grupo e a construção de vínculos afetivos", ressalta.
Esse cenário tem ampliado o debate sobre a relação entre uso excessivo de telas e o desenvolvimento neurológico, especialmente quando o assunto é o Transtorno do Espectro Autista (TEA). A neuropediatra Roberta Machado explica que é importante ter cuidado com associações diretas. "As telas não causam autismo, mas o uso inadequado pode agravar sintomas em crianças que já apresentam alguma vulnerabilidade neurológica ou até mascarar sinais importantes, atrasando o diagnóstico correto", esclarece.
Prejuízos na comunicação
Segundo a médica, os primeiros anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento cerebral e dependem, sobretudo, da interação humana. "A criança aprende a se comunicar olhando, ouvindo, imitando e interagindo com outras pessoas. Quando esse tempo é substituído por telas, há perda de oportunidades essenciais para o desenvolvimento da linguagem e da interação social", afirma.
A neuropediatra destaca que alguns comportamentos observados em crianças com excesso de telas podem gerar confusão. "Atraso de fala, pouco contato visual, dificuldade de responder ao chamado do nome e comportamentos repetitivos também aparecem no TEA. Por isso, o excesso de telas pode confundir famílias e até profissionais menos atentos", explica Roberta Machado.
Outro ponto reforçado pela especialista é que conteúdos digitais não substituem experiências reais. "O desenvolvimento infantil acontece na relação. Nenhum aplicativo consegue reproduzir a complexidade de uma interação humana, que envolve afeto, troca, frustração e aprendizado emocional", destaca.
As orientações médicas determinam que crianças abaixo de dois anos não tenham contato com telas e que, depois dessa fase, o uso seja restrito, acompanhado e com conteúdo apropriado. Em casos de crianças com suspeita ou diagnóstico de TEA, esse cuidado deve ser ainda maior.
Busque o equílibrio
Para Gabriela Mazaro, o equilíbrio passa pela presença ativa da família. "Estabelecer limites claros, criar rotinas com brincadeiras ao ar livre, leitura, jogos de tabuleiro e momentos de conversa em família ajuda a proteger a saúde emocional e favorece um desenvolvimento mais saudável", orienta.
Roberta Machado reforça que a redução do tempo de tela costuma trazer ganhos perceptíveis. "Muitos pais relatam que, quando controlam o uso de telas, os filhos melhoram o contato visual, aumentam a iniciativa de comunicação e demonstram mais interesse pelo ambiente ao redor", conclui.
Mais do que proibir, o desafio das famílias está em garantir uma infância rica em experiências humanas, afeto e estímulos que respeitem o tempo e as necessidades do desenvolvimento infantil.